ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE)INVENTE-SE

Quando o presente vira lugar de passagem

Perceber o próprio padrão não garante que faremos diferente, mas permite reconhecer uma resposta automática antes de simplesmente repeti-la

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Presença é uma palavra simples, mas carrega uma ideia ampla: estar onde se está.
Podemos ocupar um lugar sem, de fato, estarmos presentes nele. O corpo está em uma conversa, mas o pensamento está no que aconteceu pela manhã. Estamos trabalhando enquanto antecipamos o que ainda precisa ser feito. Encontramos alguém, mas parte da nossa atenção permanece no celular. Chegamos ao fim do dia e percebemos que realizamos muitas coisas, embora tenhamos experimentado poucas delas.

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Presença não se resume à proximidade física. Ela envolve atenção, disponibilidade e contato com a experiência que acontece agora.]


Há também uma dimensão interna da presença. Estar presente é conseguir perceber o que se passa em nós enquanto vivemos: o que sentimos, pensamos, desejamos, evitamos, suportamos e escolhemos. Não significa analisar cada movimento ou viver permanentemente atento a si mesmo. Significa desenvolver a capacidade de se perceber antes que hábitos e automatismos decidam por nós.


Presença e consciência estão profundamente relacionadas. Quanto menos percebemos o que estamos vivendo, maior a possibilidade de repetirmos respostas conhecidas: dizemos “sim” quando gostaríamos de dizer “não”, permanecemos onde já não gostaríamos de estar, respondemos impulsivamente ou seguimos rotinas sem nos perguntarmos se ainda fazem sentido.


A presença cria um pequeno espaço entre aquilo que acontece e a maneira como respondemos ao que acontece. É nesse intervalo que podemos reconhecer o que uma situação desperta em nós: “isso me incomodou”, “estou com medo”, “estou tentando agradar”, “estou repetindo algo”, “não quero responder agora”, “preciso colocar um limite”.


Perceber o próprio padrão não garante que faremos diferente, mas permite reconhecer uma resposta automática antes de simplesmente repeti-la. É nesse processo de consciência que podemos começar a escolher como queremos responder.


Estar presente não significa estar confortável com o que estamos vivendo. Diante da dor, não significa deixar de senti-la; diante da ansiedade, não significa fazê-la desaparecer; diante de um conflito, não significa saber imediatamente o que fazer.


Estar presente também é conseguir permanecer em contato com aquilo que nos causa dor, ansiedade ou nos coloca diante do vazio. A presença não elimina essas experiências, mas permite reconhecer o que está acontecendo em nós, mesmo quando não sabemos imediatamente o que fazer com isso.


Diante do desconforto, podemos ocupar a mente, preencher o tempo ou buscar distrações como formas de afastamento. Perceber esses movimentos também faz parte da presença: reconhecer não apenas o que se passa em nós, mas também as formas que encontramos para evitar aquilo que nos incomoda.


Nas relações, essa disponibilidade ganha outra dimensão. Podemos acreditar que oferecer presença significa aconselhar, resolver, explicar ou encontrar as palavras certas. Há momentos em que presença é escutar sem preparar a resposta enquanto o outro fala, suportar alguns segundos de silêncio, perguntar antes de concluir. É estar diante da experiência do outro sem ocupar imediatamente aquele espaço com a nossa própria história.


A qualidade da nossa presença revela a que estamos dedicando nosso tempo e nossa energia. A forma como os empregamos tem consequências: eles podem alimentar aquilo que queremos construir, mas também hábitos, preocupações e distrações que consomem muito de nós sem necessariamente nos levar aonde desejamos.


Nem sempre aquilo que dizemos ser importante corresponde ao que efetivamente ocupa nossos dias. Podemos considerar uma relação importante e quase nunca estar presentes nela, desejar cuidar de nós e passar os dias ignorando os sinais do próprio corpo ou valorizar o descanso e continuar mentalmente trabalhando durante o tempo livre.


Observar para onde estão indo nosso tempo e nossa energia também é uma forma de presença. Não para transformar cada escolha em algo produtivo, mas para perceber se aquilo que ocupa nossos dias corresponde ao que queremos preservar, construir ou viver.


Estar presente não significa aproveitar cada instante, mas perceber o instante que estamos vivendo.


Não conseguiremos estar plenamente presentes o tempo inteiro. A mente recorda, antecipa, imagina, planeja; isso também faz parte da experiência humana. Porém, quando passado e futuro ocupam tanto espaço, o presente pode se transformar apenas em um lugar de passagem.


Nossa existência não se constitui apenas das grandes decisões. Ela acontece nas conversas às quais prestamos atenção, nos limites que percebemos que precisamos colocar, no café que tomamos sem perceber o sabor, na pessoa que está diante de nós, no corpo que sinaliza cansaço, nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias.


É no cotidiano que a presença vai além da percepção e passa a envolver a maneira como vivemos.

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Penso que um dos sentidos mais profundos da presença é não permitir que a própria vida aconteça sem a nossa participação.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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ansiedade futuro passado passagem presenca

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