O que nossas relações revelam sobre nós?
Olhar para nós mesmos dentro de uma relação não significa assumir a responsabilidade pelo comportamento do outro
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SIGA NOQuando uma relação entra em conflito, nossa atenção tende a se voltar para aquilo que a outra pessoa fez: ele é egoísta, ela é controladora, meu marido não muda, minha mulher não me escuta, meu chefe não reconhece meu trabalho, minha família não me respeita.
Podemos ter razão nessas avaliações. Existem pessoas egoístas, controladoras, desrespeitosas. Existem relações nas quais fomos feridos, traídos ou tratados de uma maneira que não deveríamos ter sido.
Mas, quando saímos de uma situação sabendo explicar detalhadamente tudo o que a outra pessoa fez de errado, sem compreender o que aquela experiência diz sobre nós, aprendemos muito sobre o outro e pouco sobre nós mesmos.
O que aceitei por mais tempo do que gostaria? O que esperei que o outro percebesse sem conseguir dizer? Quando silenciei? O que tentei controlar? O que repeti? Por que permaneci? O que aquela relação despertava em mim? O que consigo fazer diferente a partir do que compreendi?
Olhar para nós mesmos dentro de uma relação não significa assumir a responsabilidade pelo comportamento do outro. Se alguém mente, trai, agride, manipula ou desrespeita, a responsabilidade por esse comportamento é de quem o praticou.
Diante de uma experiência dolorosa, podemos passar muito tempo procurando onde erramos: “O que eu fiz para ele agir assim?” “O que faltou em mim?” “Se eu tivesse feito diferente, isso teria acontecido?” Nessa procura, tentamos encontrar em nós a explicação para uma decisão que pertenceu ao outro.
Reconhecer o que pertence ao outro não encerra o que podemos compreender sobre a relação. Não construímos sozinhos sua dinâmica, mas participamos dela. A maneira como nos posicionamos e reagimos também diz muito sobre quem somos naquela relação.
Cedemos ou confrontamos. Falamos ou silenciamos. Colocamos limites ou temos dificuldade de sustentá-los. Pedimos, esperamos, cobramos, desistimos, insistimos. Nem sempre conseguimos agir de outra maneira. Medo, dependência e experiências anteriores também interferem nas nossas reações.
Vejo isso constantemente no consultório: quando uma pessoa muda sua maneira de se posicionar, a dinâmica da relação também se altera. Isso não significa que o outro mudará, mas a relação já não encontra as mesmas condições para continuar funcionando como antes.
Ao deixar de ceder, posso encontrar alguém disposto a negociar ou alguém que resista ainda mais. Ao estabelecer limites, posso perceber que a relação consegue se reorganizar ou que o conflito aumenta. Mudar minha maneira de agir não determina o que o outro fará, mas muda a forma como participo daquela relação.
Essa mudança também pode modificar o que espero e desejo dela. Posso querer continuar, mas não da maneira como vivíamos até então. Ou reconhecer que já não estou disposta a aceitar determinadas condições para permanecer.
Isso não acontece apenas nas relações amorosas. No trabalho, podemos passar por diferentes empresas repetindo: “Meus gestores nunca reconhecem o que faço”, “Sempre sobra tudo para mim”. Pode realmente haver pouco reconhecimento ou colegas que transferem responsabilidades. Isso não nos impede de observar nossa própria participação nessas situações. Reconheço meu próprio valor? Consigo comunicar o que faço e o que preciso?Tenho dificuldade de dizer não, pedir ajuda ou delegar? Preciso ser necessária para sentir que tenho valor?
O mesmo acontece na família e nas amizades. Não somos exatamente iguais em todas as relações. Uma pessoa pode ser assertiva no trabalho e ter dificuldade de estabelecer limites com a mãe; pedir ajuda aos amigos e não conseguir fazer o mesmo no casamento; lidar bem com críticas profissionais e se desorganizar diante da desaprovação de um filho.
Quando transformamos uma experiência particular em uma conclusão geral, como “Homem é assim”, “Mulher é assado”, “Chefe é tudo igual”, “Não dá para confiar nas pessoas” ou “Amizade verdadeira não existe”, concentramos nossa compreensão no outro e deixamos de examinar nossa própria participação naquela experiência.
Há comportamentos que pertencem ao outro e uma parte da relação sobre a qual podemos agir: a nossa. Reconhecer nossa participação não elimina a responsabilidade do outro.
Não temos gerência sobre o que o outro fará ou sobre o que aprenderá com a relação. Podemos, porém, compreender como agimos, o que esperamos, o que aceitamos e o que podemos fazer diferente a partir daí.
Aquilo que uma relação revela sobre nós pode modificar a maneira como nos relacionamos. Pais e filhos, casais, familiares, amigos ou colegas podem continuar fazendo parte da nossa vida enquanto a relação ganha uma nova dinâmica. A mudança de uma pessoa não determina a mudança da outra, mas modifica a maneira como participa daquela relação.
Não podemos refazer relações passadas a partir do que sabemos hoje. Podemos compreender o que vivemos e levar essa compreensão para as relações que permanecem e para aquelas que ainda construiremos.
Olhar para as nossas relações também é uma forma de olhar para nós mesmos. O que elas têm revelado sobre você? E, diante do que hoje consegue perceber, o que você deseja fazer diferente?
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