ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE)INVENTE-SE

A ilusão do controle

Reconhecer a nossa falta de controle não significa adotar uma postura passiva ou fatalista diante da vida

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Em tempos de Copa do Mundo, uma cena costuma se repetir. Um atleta passa meses, às vezes anos, preparando-se para aquele momento. Treina diariamente, fortalece o corpo, cuida da alimentação, desenvolve a resistência física e emocional. Faz tudo o que está ao seu alcance para entrar em campo na melhor condição possível.

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Então, em um único lance, uma dividida, um movimento inesperado ou uma falta interrompem a sua trajetória, a lesão acontece, e ele está fora do jogo. Não porque tenha faltado dedicação. Não porque ele tenha deixado de fazer a sua parte. Simplesmente porque existem acontecimentos que nunca estiveram inteiramente sob seu domínio.

Fora dos estádios, a vida também funciona assim. Estudamos, nos qualificamos, planejamos os próximos passos da carreira, investimos afeto nos relacionamentos, cuidamos da saúde e fazemos escolhas conscientes e responsáveis. Ainda assim, projetos promissores naufragam, pessoas mudam de ideia sem aviso, oportunidades de mercado desaparecem da noite para o dia e perdas inesperadas alteram completamente o rumo da nossa história. 

Gostamos de acreditar que existe uma relação direta entre esforço e resultado. Que, se fizermos tudo corretamente, a vida responderá da mesma forma. Essa ideia nos transmite segurança, porque transforma um mundo cheio de incertezas em algo aparentemente previsível. Mas, se a vida nem sempre responde aos nossos esforços da maneira que esperamos, quanto da nossa energia vital é consumida diariamente tentando controlar pessoas, resultados e acontecimentos que jamais dependeram exclusivamente de nós?

A psicologia cognitiva mostra que nossa mente busca constantemente relações de causa e efeito. Diante da incerteza, o cérebro tenta organizar a realidade em padrões que façam sentido. Em muitos momentos, isso é útil. Em outros, cria a ilusão de que somos capazes de controlar muito mais do que realmente controlamos. A psicóloga Ellen Langer, da Universidade Harvard, descreveu esse fenômeno como a "ilusão de controle": a tendência humana de superestimar a própria influência sobre acontecimentos que, na realidade, também dependem do acaso e de fatores externos.

É por isso que, diante de uma demissão, do fim de um relacionamento ou de um problema de saúde, tantas pessoas passam dias, meses ou até anos revendo mentalmente cada detalhe da própria história. "Se eu tivesse insistido mais." "Se eu tivesse percebido antes." "Se eu tivesse escolhido diferente." A busca por explicações muitas vezes se transforma em culpa.

Séculos antes da psicologia, os filósofos estoicos já faziam uma distinção que continua surpreendentemente atual: existem coisas que dependem de nós e existem coisas que não dependem. Dependem de nós nossas escolhas, nossos valores, nossas atitudes, a forma como enfrentamos os desafios e o empenho que colocamos em cada ação. Já os resultados, as decisões de outras pessoas, os imprevistos e grande parte dos acontecimentos da vida pertencem a outra esfera.

O budismo acrescenta outra perspectiva importante: tudo é impermanente. Pessoas mudam. O corpo muda. As relações mudam. As circunstâncias mudam. Sofremos quando esperamos encontrar estabilidade absoluta em uma realidade cuja natureza é a transformação.

Sob a ótica da visão sistêmica, compreendemos que nenhuma situação humana resulta de uma única causa. Vivemos inseridos em uma rede de relações, contextos e acontecimentos que se influenciam continuamente. Uma decisão econômica tomada do outro lado do mundo, uma mudança na cultura de uma empresa ou um imprevisto vivido por alguém com quem nos relacionamos podem alterar completamente os nossos caminhos. Por isso, nossos esforços são fundamentais, mas nunca atuam de forma isolada. A vida sempre será maior do que a soma das nossas escolhas. Reconhecer isso não significa abrir mão da responsabilidade, mas compreender que responsabilidade e controle não são a mesma coisa.

Assumir a responsabilidade é fazer o melhor possível com aquilo que está ao nosso alcance. É estudar, trabalhar com dedicação, cultivar relações saudáveis, cuidar da saúde, agir com ética e coerência. A ilusão começa quando acreditamos que tudo isso será suficiente para garantir um determinado resultado.

Essa crença alimenta boa parte da ansiedade contemporânea. Quanto maior a necessidade de controlar o futuro, maior a dificuldade de conviver com o inesperado. Quanto mais acreditamos que tudo depende exclusivamente de nós, mais pesado se torna o fracasso quando a realidade segue um caminho diferente daquele que imaginávamos. Muitas vezes, sofremos não apenas porque algo deu errado, mas porque acreditávamos que, se tivéssemos feito tudo certo, o desfecho necessariamente seria diferente.

Reconhecer a nossa falta de controle não significa adotar uma postura passiva ou fatalista diante da vida. Significa focar na excelência daquilo que nos cabe, desapegando-se da exigência de garantir o resultado final. 

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O atleta sabe que precisa treinar com excelência, mas também precisa aceitar o imprevisto do jogo. Fora dos campos, a lógica é a mesma. Fazer a nossa parte continua sendo um dever. Garantir o resultado nunca foi uma promessa da vida. Afinal, quantas culpas carregamos apenas porque confundimos responsabilidade com controle?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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