Salve! Minas abraça, pelo segundo ano, a umbanda na semana santa
Inclusão de cerimônias de religiões de matriz africana na programação do Minas Santa reforça o respeito à diversidade de culto no estado
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Siga noNa beira do Rio São Francisco, os filhos e filhas de santo confeccionam um cordão em um ritual onde a reza é toda cantada em excelências e benditos (são cantos sagrados, mortuários em geral, mas também convocatórios e para livrar de males específicos do universo da religiosidade popular, usados para velar os mortos, geralmente entoados por mulheres). Na sequência, acontece o ritual de desobsessão (ou de exorcismo) com a utilização do cordão durante a noite. Por fim, o ritual de encomendação das almas.
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A feitura do cordão de São Francisco, realizada na comunidade do Quilombo Caboclo Pena Branca, trata-se de um ritual marcante em Minas. A prática é cadastrada como patrimônio pelo município de São Francisco, na região Norte mineira. Trata-se da confecção artesanal, produzida com a matéria-prima do algodão e, conforme os fundamentos da comunidade, deve ser realizada nas sextas-feiras santas, o que ocorre há mais de 60 anos.
Janete Cardoso, makota ( zeladora dos orixás) do Quilombo Caboclo Pena Branca, comemora a presença das religiões de matriz africana na programação oficial da semana santa: “pra mim é uma alegria muito grande ter a nossa fé contemplada pelo Minas Santa, um sentimento de uma realização de trazer pra todo mundo o que temos de mais sagrado, que são nossa crença e nossos ritos”. Ela reverencia os santos padrinhos do terreiro que são: Santa Joana D'arc e São Jorge Guerreiro e explica o que o terreiro representa.
“A sexta-feira santa aqui em casa para nós é um dia santo. É uma semana realmente santa, sagrada para todos nós filhos, netos, bisnetos, tataranetos de Ana Maria – matriarca da Tenda de Umbanda do Caboclo Pena Branca, aqui na cidade de São Francisco – a mulher que sempre comandou e construiu tudo isso”, emociona Janete Cardoso, que hoje coordena, junto com a mãe Mylla de Iansã, o lugar e guia os filhos e filhas na feitura do cordão de São Francisco, no Norte de Minas Gerais, que é uma celebração muito peculiar no Brasil. As tradições da quaresma e semana santa são enraizadas no coração do povo mineiro desde os primórdios da formação de Minas Gerais. São fios que se entrelaçam com a história e a cultura, pulsando com fervor e devoção.
“A gente fala que aqui é a Tenda de Umbanda do Caboclo Pena Branca – que representa tudo de bom para uma família, para um legado familiar. Um lugar espiritual, de emoção, de fortaleza, de fé e, principalmente, de gratidão. Nós continuamos com aquela fé da umbanda, simples, mais funcional, sabe? A fé que cuida, que acolhe, que luta muito para dar um alento para as pessoas que sempre nos procura. Sejam bem-vindos!”, emociona.
Minas Santa
A Secretaria de Estado de Cultura e Turismo – Secult/MG, com um propósito nobre de exaltar e preservar essas tradições e riquezas culturais da fé, lançou este ano a terceira edição do programa turístico Minas Santa, que abrange 853 cidades no estado, cerca de 1000 mil distritos e abraça outras religiões em nome da diversidade religiosa.
A inclusão de outras religiões faz parte do Catálogo “Celebrações e Ritos da Semana Santa em Minas Gerais”, elaborado em 2023 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, Iepha-MG – um testemunho vivo do patrimônio imaterial que permeia as manifestações religiosas em solo mineiro.
Cada página deste catálogo é um fragmento de devoção e história, fruto de um esforço coletivo que ressoa em cada município que abraçou a iniciativa com fervor. As tradições da quaresma e semana santa, tão profundamente enraizadas na alma do povo, ganham vida através das imagens e relatos enviados pelas prefeituras e grupos locais. É um mergulho profundo no tecido cultural que une passado e presente, trazendo à luz a diversidade de ritos e celebrações que ecoam desde o século 18.
Espaços sagrados
Para Adriano Maximiano, diretor de Patrimônio e Memória do Iepha-MG, o catálogo dos ritos da semana santa em Minas identificou além das celebrações mineiras muito tradicionais, como as encenações da Paixão de Cristo e as procissões, a presença de espaços sagrados, territórios de Axé e fé, por exemplo: “identificamos e mapeamos os espaços de matriz afro-religiosa em Minas Gerais com celebrações vinculadas à semana santa, principalmente na Sexta-feira da Paixão, onde terreiros de umbanda informaram os rituais de recolhimento, de fechamento de corpo e do candomblé – que é o lorogun – que é uma história de luta dos orixás durante esse período que coincide com a quaresma, ele não é uma celebração afro católica, digamos assim, trata-se de uma celebração africana mesmo. Na cerimônia, ocorre simbolicamente uma luta, que lembra a dança folclórica do maculelê".
Adriano destaca outros ritos que promovem a diversidade e o sincretismo religioso em Minas. “Teve o cadastro dos rituais de encomendação das almas, também conhecido como reza das almas, onde as pessoas têm a tradição de, durante a quaresma e, principalmente, na noite da Sexta-feira da Paixão, fazer orações cantadas bem peculiares com um método de canto bem tradicional, onde eles rezam em encruzilhadas, nas portas das casas, no cemitério, onde eles encomendam as almas das pessoas que faleceram com diversos motivos. Então eles rezam para as almas dos afogados, rezam para as almas dos queimados, rezam para as almas das crianças, rezam para as almas dos mais velhos e por assim vai".
Resistência
A intolerância religiosa é até hoje um entrave para aqueles que procuram preservar as tradições religiosas de matriz africana. Mãe Janete reforça o caráter de amor e paz que o local proporciona aos milhares de filhos e filhas de santo e visitantes que por lá passaram nos últimos 60 anos. “A vida de um umbandista ou candomblecista em uma cidade tão pequena, como aqui em São Francisco, é muito penosa. Principalmente na época em que minha mãe fez as obrigações de umbanda. A primeira vela que se colocou nessas terras aqui, foi em 1958. Naquela época, ela chamava de missa, um lugar onde se cultua a fé. O terreiro, aqui em casa, sempre foi um terreiro de umbanda. Minha mãe conta que é uma herança ancestral e espiritual. Ela vem de muitas gerações, já vinha com minha bisavó, que era parteira e benzedeira, inclusive foi ela quem me colocou no mundo. Hoje em dia, o amor pelo sagrado e pelos que aqui passaram, não acaba’.
Espaços Sagrados Protegidos
De acordo com a jornalista e escritora Marcia Francisco, a intolerância religiosa está, aos poucos, mudando. Exatamente a partir das ações que vêm do setor público. A escolha é individual, mas, as ações ativas de preconceito religioso é crime. Uma iniciativa respeitável, valiosa e que já está sendo incorporada em alguns municípios do território nacional é a ação através da Secretaria de Segurança e Prevenção junto ao Conselho Municipal de Igualdade Racial é a instalação da placa do Projeto Rede de Espaços Sagrados Protegidos.
Para Márcia, a placa por si, já está inibindo vandalismo e atos de intolerância em relação aos espaços e filhos, em momento de cultos. Mas, a ação envolve a Guarda Municipal, com registro de denúncias e ativação de viaturas. Existe uma constatação de subnotificação dos crimes: essas ideias em prática podem colaborar para mudar o quadro e permitir que se perpetue por direito e em segurança. A cultura que, além de ancestral, deu origem à formação do povo brasileiro. Que venha o reconhecimento, o respeito, a inclusão e os direitos humanos, sempre!”