FARMAR AURA

Campeonatos de "farmar aura" viram fenômeno e mobilizam jovens no Brasil

Nascidas nas redes, competições de carisma e criatividade ganham as praças e revelam novos códigos da cultura jovem

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O que começou como uma brincadeira restrita às redes sociais e aos grupos de jovens apaixonados por games e animes ganhou as ruas e vem reunindo centenas e, em alguns casos, milhares de pessoas em diferentes cidades do Brasil.

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Os campeonatos de "farmar aura", nos quais os participantes disputam quem demonstra mais carisma, presença, criatividade e atitude diante do público, viralizaram nas últimas semanas e já inspiraram novas edições e eventos em estados como Ceará, Minas Gerais, Pará e Santa Catarina.

As competições transformaram um vocabulário da geração Z e da geração Alpha em encontros presenciais que reúnem humor, performance e até mesmo interação com a plateia.

Enquanto os vídeos acumulam milhões de visualizações nas redes sociais, organizadores e participantes atribuem o sucesso à atmosfera descontraída dos eventos, que rapidamente deixaram de ser uma curiosidade local para ganhar alcance nacional.

Das telas para as praças 

Embora os campeonatos sejam recentes, a expressão "farmar aura" circula há mais tempo entre jovens que acompanham o universo dos jogos eletrônicos e da cultura pop asiática. O verbo "farmar", emprestado dos videogames, significa acumular recursos ou experiência durante uma partida. Já "aura" passou a ser usada nas redes para representar carisma, presença, estilo ou a capacidade de impressionar outras pessoas.

Para a professora de Língua Portuguesa e mestre em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Fernanda Ignacchiti Campos, o sucesso da expressão demonstra como a linguagem acompanha as mudanças da sociedade e dos ambientes digitais.

"A língua não é um sistema estático; ela se adapta aos novos contextos de interação, às tecnologias e às necessidades comunicativas de seus falantes."

Segundo Fernanda, que também é pesquisadora da linguagem e docente na rede pública, os jovens ocupam papel central nesse processo ao criar e ressignificar palavras que fazem sentido dentro de seus próprios grupos.

"Os ambientes digitais não apenas difundem palavras, mas também favorecem processos de empréstimo linguístico, ressignificação e criação de novos sentidos", afirma. Na avaliação da professora, quando uma expressão ultrapassa o ambiente virtual e passa a dar nome a encontros e competições presenciais, "deixa de ser apenas uma gíria passageira e passa a representar um fenômeno cultural".

Uma brincadeira que saiu do controle 

Em Cametá, no nordeste do Pará, o frentista Gabriel Almeida, de 29 anos, organizou uma das competições que mais repercutiram nas redes sociais. Ao Correio, ele contou que a ideia surgiu depois de acompanhar a movimentação criada por um campeonato realizado em Juazeiro do Norte (CE), mas imaginava que o evento teria alcance restrito ao município.

"Eu fiz mesmo pensando que seria algo interno, algo aqui nosso, da minha cidade mesmo."

A expectativa foi rapidamente superada. Ainda na noite em que publicou os primeiros vídeos, o campeonato começou a ser reproduzido por perfis de grande alcance e veículos de comunicação, impulsionando novas iniciativas em diferentes regiões do país.

Gabriel acredita que a simplicidade da proposta ajuda a explicar o interesse do público.

"Foi um ambiente totalmente respeitoso, várias pessoas sorrindo e brincando. Todo mundo que tava lá, eu tenho certeza que foi por curiosidade e uma boa parte porque já sabia o que seria."

De espectador desconfiado a colaborador

Em Juazeiro do Norte, no Ceará, o influenciador Rubens de Jesus, de 39 anos, viveu o fenômeno por outro ângulo. Ele disse que compareceu à primeira edição do campeonato sem sequer entender o significado da expressão e motivado mais pela curiosidade do que pelo entusiasmo.

Na época, tinha pouco mais de 100 seguidores no TikTok, mas o vídeo gravado durante o evento ultrapassou 4 milhões de visualizações e acabou aproximando Rubens da organização da segunda edição do campeonato.

Ao chegar no evento, ele encontrou um público formado por adolescentes, famílias e curiosos de diferentes idades tentando entender a movimentação. Segundo disse ao Correio, a impressão inicial mudou ao acompanhar os competidores. 

"O sucesso ocorre porque esses jovens retraídos têm a oportunidade de se expressar."

Na avaliação dele, o campeonato funciona como um espaço de acolhimento para jovens que compartilham interesses semelhantes.

"Lá eles se sentem à vontade porque sabem que ninguém vai criticar, mas sim aplaudir."

Rubens também acredita que a possibilidade de ganhar visibilidade nas redes ajuda a impulsionar o fenômeno, mas ressalta que o ambiente vai além da busca por viralização e cria oportunidades para que muitos participantes demonstrem personalidade diante de uma plateia.

Muito além de um meme

Para o sociólogo Thalles Graciano, mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a popularização desses encontros mostra como as fronteiras entre o mundo virtual e o presencial se tornaram cada vez menos definidas para as gerações que cresceram conectadas.

"Há uma dinâmica interessante de trazer essa onipresença do virtual para experiências analógicas."

Segundo ele, isso não significa que os jovens estejam substituindo o convívio presencial pelas redes sociais.

"A necessidade de sociabilidade se transforma em sua forma, mas nunca desaparece."

O pesquisador avaliou que os campeonatos também brincam com a lógica da busca por reconhecimento nas plataformas digitais. Ao mesmo tempo em que ironizam a ideia de construir uma personalidade "perfeita" para a internet, acabam criando novos símbolos de pertencimento.

"Há, sim, um tensionamento satírico", afirmou ao Correio. Com o tempo, porém, "a brincadeira vai se perdendo e dando lugar a um código de pertencimento, à interpretação do tecido social por essa geração através da linguagem e dos seus símbolos".

Na avaliação do sociólogo, enxergar essas competições apenas como um meme significa ignorar o que elas revelam sobre as novas gerações.

"Esses elementos são centrais para que a gente compreenda como essas gerações interpretam o mundo."

Para ilustrar a mudança de repertório entre diferentes gerações, Graciano lembrou dos memes popularizados pelo programa Pânico na TV nos anos 2000, como o personagem Zina, referências que marcaram uma época, mas que hoje deram lugar a novos códigos compartilhados entre adolescentes e jovens adultos.

"Seus filhos, irmãos, sobrinhos e primos criaram novos códigos, assim como eles o fizeram anteriormente."

A velocidade com que os campeonatos se espalharam pelo país acompanha o próprio ciclo das tendências nas redes sociais. Ainda é cedo para saber quanto tempo a brincadeira continuará mobilizando participantes e público, mas a repercussão das primeiras edições já inspirou novos eventos e levou a expressão "farmar aura" para além das telas.

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