Um terço dos brasileiros com doenças oculares graves abandona o tratamento
Com o envelhecimento populacional e o crescimento de casos de diabetes no país, previsão é de que 1,7 milhão de pessoas tenham essas doenças em cinco anos
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Siga noA degeneração macular relacionada à idade (DMRI) do tipo úmida e o edema macular diabético (EMD) são duas condições oculares graves, que afetam cerca de 1,4 milhão de pessoas no Brasil atualmente. A questão é que, com o envelhecimento populacional e o crescimento de casos de diabetes no país, a previsão é de que esse número chegue a 1,7 milhão nos próximos cinco anos.
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Um levantamento feito pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com a ONG Retina Brasil, associação de pessoas com doenças da retina, e apoio da Roche Farma Brasil, mostrou que quase um terço dos entrevistados admite que já desistiu do tratamento em algum momento, o que pode contribuir para a piora dos sintomas e na evolução clínica da doença, segundo a oftalmologista Patricia Kakizaki, especialista em Retina Clínica e Cirúrgica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
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“A DMRI e o EMD são condições que afetam a área central da retina - a mácula, responsável pela nitidez da visão - e prejudicam atividades de rotina como dirigir, ler ou até fazer compras no supermercado. O tratamento pode exigir a aplicação de injeções intravítreas (dentro do olho) até uma vez por mês, representando um peso grande para os pacientes e familiares”, explica a médica.
Outra questão é que, assim como em outras patologias, o diagnóstico tardio e a falta de adesão ao tratamento podem contribuir para o crescimento do número de pacientes com esses quadros graves. “Estamos acompanhando o desenvolvimento de inovações capazes de impedir a progressão dessas doenças, estabilizando ou muitas vezes até melhorando a visão dos pacientes, além de proporcionar mais comodidade, diminuindo a frequência do tratamento e a necessidade de deslocamento até os consultórios e as clínicas”, comenta.
Não menos impactantes são outros aspectos que atuam negativamente na vida do paciente com doenças oculares graves - a condição financeira, impactada pelas despesas com tratamentos e medicamentos; e a saúde mental, já que o psicológico dessas pessoas é afetado de alguma forma.
Ainda segundo o estudo da FGV, seis em cada 10 pacientes tiveram impactos financeiros importantes no cotidiano, e quase metade (47%) declaram que têm, tiveram ou gostariam de ter apoio psicológico para lidar com a condição. Comorbidades como hipertensão, artrose, diabetes, problemas renais, hipotireiodismo, entre outras.
QUALIDADE DE VIDA
O estudo com 155 pessoas de todas as regiões do país para entender a percepção dos pacientes sobre a doença, o processo de reabilitação, a situação atual de qualidade de vida e as principais mudanças que o convívio com a condição têm causado. Sessenta e cinco por cento dos entrevistados são mulheres, a maioria (59%) com 60 anos ou mais. Cerca de um terço dos pacientes estavam em tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no momento da entrevista.
Em Minas Gerais, 71% dos entrevistados declararam que o médico não informou os detalhes sobre a doença e o tratamento na primeira consulta, porcentagem muito superior da amostra global, de 33%. Assim como não informou sobre a doença, 73% dos entrevistados no estado declararam que o médico não informou que se tratava de uma doença crônica ou só informou muito tempo depois.
Na amostra global da pesquisa, esse percentual foi de 26%. Coincidentemente, 53% dos entrevistados mineiros declararam que já deixaram o tratamento alguma vez. Na amostra global da pesquisa esse indicador é de 35%.