Flávio na Globo: "O maior ajuste fiscal a ser feito é tirar o Lula"
Candidato do PL à Presidência defendeu cortes de despesas, negou que pretenda reduzir direitos previdenciários e alterar os pisos constitucionais de saúde e educação. Em entrevista ao Jornal Nacional, também foi questionado sobre a escala 6x1, o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro e a atuação do Supremo Tribunal Federal
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O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, afirmou nesta sexta-feira (16), durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, que a principal medida para promover o ajuste fiscal no Brasil seria retirar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do governo. “O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula. Ele hoje é o maior problema para esse desencontro de contas”, declarou.
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A entrevista, conduzida pela jornalista Renata Lo Prete, começou com perguntas sobre as propostas econômicas do candidato e as medidas de contenção de gastos que vêm sendo discutidas por integrantes de sua equipe. A apresentadora lembrou que o governo brasileiro paga, em juros da dívida pública, quase o dobro do que gasta com educação e saúde somadas.
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Antes de apresentar suas propostas, Flávio foi questionado sobre três medidas que poderiam afetar despesas públicas. Ele afirmou que manterá os reajustes do salário mínimo acima da inflação, não desvinculará o reajuste das aposentadorias do salário mínimo e não pretende alterar a Constituição para eliminar os pisos de gastos com saúde e educação.
Ao explicar como pretende alcançar o ajuste fiscal, o candidato afirmou que o governo pode reduzir despesas sem atingir os grupos mais pobres da população. “Eu não vou fazer economia com as pessoas que mais precisam do governo, as pessoas mais pobres”, disse.
Flávio promete cortar ministérios e obter receitas com imóveis públicos
Flávio afirmou que pretende reduzir o número de ministérios dos atuais 39 para, no mínimo, 29. Ele reconheceu, porém, que a medida isoladamente não produziria economia suficiente para alcançar a meta de ajuste fiscal de R$ 200 bilhões anuais atribuída à sua equipe econômica.
O candidato também citou o desempenho das empresas estatais como uma das frentes para reduzir despesas. Segundo ele, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), as empresas estatais registraram R$ 18 bilhões de superávit ou lucro, enquanto, na gestão Lula, acumulam R$ 36 bilhões em prejuízos. Flávio atribuiu a diferença de R$ 54 bilhões à corrupção e à má gestão, sem apresentar, durante esse trecho da entrevista, os dados que sustentariam a comparação.
Outra proposta envolve imóveis da União. Flávio afirmou que o governo federal possui mais de 30 mil imóveis e que a avaliação desses bens, segundo ele desatualizada, chega a R$ 1,7 trilhão. O candidato disse que pretende reuni-los em um fundo de gestão e utilizar operações de securitização para obter receitas.
Ele também citou a possibilidade de securitizar créditos que a União tem a receber, estimados por ele em quase R$ 3 trilhões, além de explorar petróleo na Margem Equatorial, na costa do Amapá.
Ao contestar a viabilidade das propostas, Renata Lo Prete afirmou que há um consenso entre economistas, inclusive entre apoiadores do candidato, de que as principais despesas públicas precisariam ser enfrentadas para alcançar uma economia dessa magnitude. A jornalista também ponderou que, segundo informações da própria Petrobras, a exploração na Margem Equatorial não deve começar antes de 2033.
Flávio respondeu que pretende combater a corrupção, extinguir cargos comissionados e melhorar a gestão pública. Ele afirmou que o governo Bolsonaro eliminou mais de 20 mil cargos em comissão e acusou Lula de ter criado mais de 22,5 mil postos desse tipo.
Flávio explica mudança de posição sobre a escala 6x1
Questionado sobre a escala de trabalho 6x1, Flávio afirmou que respeitará o fim desse modelo, aprovado pelo Congresso Nacional, e negou que pretenda trabalhar para reverter a decisão caso seja eleito presidente.
O senador havia se posicionado contra a proposta, mas declarou que mudou de entendimento após percorrer o país e conversar com trabalhadores. “Eu resolvi seguir a vontade da maioria dos trabalhadores brasileiros”, afirmou.
O candidato disse defender mais liberdade para a organização das jornadas e citou o exemplo de mães que precisam conciliar o trabalho com os cuidados dos filhos. Como proposta complementar, prometeu garantir vagas em creches e oferecer vouchers para famílias que precisarem recorrer à rede privada quando não houver vagas na rede pública.
Renata Lo Prete, entretanto, lembrou que aliados de Flávio no Congresso pretendem trabalhar pela aprovação de uma proposta original do PL que prevê remuneração, férias e 13º salário proporcionais às horas trabalhadas. A jornalista perguntou se o candidato se empenharia para reverter o fim da escala 6x1.
“Não vou, Renata. [...] Foi uma decisão do Congresso Nacional. Então, da minha parte, nenhum questionamento com relação a isso”, respondeu.
Flávio acrescentou que pretende ampliar o poder de compra da população e melhorar a segurança pública. Segundo ele, a redução da jornada precisa vir acompanhada de condições para que os trabalhadores aproveitem o tempo livre sem enfrentar dificuldades financeiras ou violência.
Flávio promete mandato único e reforma do Judiciário
Na entrevista, o candidato também defendeu o fim da reeleição presidencial. Ele afirmou que, se o Congresso não aprovar mudanças constitucionais que impeçam a recondução ao cargo, abrirá mão voluntariamente de disputar um segundo mandato.
“Eu só preciso de um mandato. Eu só quero um mandato para começar a consertar o nosso país de verdade”, declarou.
Renata Lo Prete observou que a proposta de emenda à Constituição apresentada pelo senador não prevê a ampliação do mandato presidencial de quatro para cinco anos. Flávio respondeu que a duração do mandato dependerá da tramitação legislativa e afirmou que não pretende disputar a Presidência pensando na reeleição.
O candidato também defendeu mudanças no Judiciário. Entre as propostas mencionadas pela jornalista a partir do plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estão retirar do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento de processos criminais contra parlamentares, reduzir decisões individuais de ministros e restringir a atuação de familiares de integrantes da Corte em processos que tramitam no tribunal.
Flávio afirmou que os três Poderes precisam contribuir para a redução de despesas, inclusive com o combate aos chamados penduricalhos, benefícios que elevam a remuneração de agentes públicos. Ele estimou em R$ 24 bilhões por ano o custo desses pagamentos nos três Poderes.
O senador também voltou a criticar o ministro Alexandre de Moraes, a quem acusou de perseguir adversários políticos e de atuar politicamente em favor de Lula. Flávio defendeu a investigação e o impeachment do magistrado e afirmou que ministros do Supremo que descumprirem a lei devem responder por seus atos.
Ao ser questionado sobre o ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, diante de informações sobre pagamentos relacionados a um filho do magistrado e despesas atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio respondeu que todos devem estar sujeitos à lei. A pergunta de Renata Lo Prete buscava saber se o candidato defenderia a investigação também nesse caso.
Jornalista questiona financiamento de filme sobre Jair Bolsonaro
Um dos momentos mais longos da entrevista foi dedicado ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Renata Lo Prete afirmou que Flávio havia solicitado R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e que quase R$ 70 milhões foram repassados. A jornalista questionou o fato de o dinheiro ter sido destinado a um fundo nos Estados Unidos, administrado por um amigo de Eduardo Bolsonaro, em vez de ter sido transferido diretamente à produtora do filme.
Flávio corrigiu a descrição do fundo e afirmou que se trata de uma estrutura voltada à gestão do longa-metragem. Ele também sustentou que a produtora brasileira prestou contas de todos os gastos.
A jornalista contestou essa afirmação. Segundo informações apresentadas na entrevista, a perícia contratada pela produtora e encaminhada à Justiça não continha notas fiscais, recibos e extratos bancários que detalhassem todas as despesas. O perito também teria informado que não teve acesso aos dados do fundo Havengate, que concentrava parte expressiva dos recursos.
Renata Lo Prete perguntou por que Flávio havia solicitado R$ 134 milhões se a perícia citada apontava um custo de R$ 75 milhões para o filme. O candidato respondeu que o contrato não foi cumprido e que o longa foi concluído com recursos aportados por Vorcaro e outros investidores.
Ele negou irregularidades e classificou o financiamento como uma relação privada, sem contrapartidas relacionadas ao mandato de senador. Flávio também comparou o caso a relações comerciais entre o Banco Master e empresas de comunicação.
A jornalista esclareceu que a compra de espaços publicitários e os patrocínios na programação da TV Globo seguem regras próprias e não se confundem com o financiamento de uma produção cinematográfica. Ela acrescentou que essas operações comerciais não interferem na independência editorial do jornalismo da emissora. Sobre um ex-diretor do Grupo Globo que teve conversas com Vorcaro reveladas publicamente, afirmou que ele havia sido desligado da empresa após a divulgação do caso.
Renata também questionou por que Flávio procurou justamente Vorcaro entre as instituições financeiras e os bancos existentes no país. O senador respondeu que conversou com diferentes investidores e que o banqueiro aceitou participar do financiamento em uma época em que, segundo ele, não havia nada de errado.
Durante a discussão, Flávio citou uma denúncia sobre um suposto financiamento de um documentário sobre Lula e afirmou que a Polícia Federal havia confirmado as informações. A jornalista contestou a declaração e afirmou que o conteúdo não estava confirmado pelo jornalismo da TV Globo. Segundo informações mencionadas na entrevista, a própria Polícia Federal havia declarado que Vorcaro não prestou depoimento com o conteúdo descrito nem entregou documentos ou informações correspondentes à denúncia divulgada pela revista Veja.
Renata Lo Prete ressaltou que procurava basear as perguntas em fatos respaldados por investigações oficiais ou apurações jornalísticas da emissora. Flávio, por sua vez, insistiu nas acusações e defendeu que o caso fosse investigado.
Candidato é questionado sobre interferência de Bolsonaro na Polícia Federal
Outro tema abordado foi a atuação de Jair Bolsonaro na Polícia Federal durante seu mandato. Renata Lo Prete citou a reunião ministerial de 2020 em que o então presidente afirmou que trocaria integrantes da estrutura do governo caso não pudesse substituir diretamente pessoas que considerava necessário trocar. A jornalista lembrou que Bolsonaro substituiu o diretor-geral da corporação e um ministro da Justiça.
Ela perguntou se Flávio se sentia à vontade para cobrar uma atuação republicana da Polícia Federal, considerando as declarações e as medidas tomadas pelo pai.
O candidato negou que Bolsonaro tenha interferido na instituição para protegê-lo. Segundo Flávio, a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro ocorreu porque o então presidente considerava insatisfatórios os resultados apresentados.
Renata Lo Prete voltou a lembrar que Bolsonaro também trocou o ministro da Justiça. Flávio respondeu que o ministro pediu para sair e, em seguida, acusou o governo Lula de aparelhar a Polícia Federal. Ele afirmou que o atual presidente substituiu os 27 superintendentes regionais da corporação.
Flávio descarta pai no governo e Eduardo como chanceler
Perguntado se nomearia Jair Bolsonaro para algum cargo em um eventual governo, Flávio não apresentou uma indicação e afirmou que o assunto nunca foi discutido entre os dois. “Então, assim, não está no radar”, declarou.
O candidato também descartou a possibilidade de nomear o irmão Eduardo Bolsonaro para o Ministério das Relações Exteriores. A pergunta foi feita após a jornalista lembrar que Flávio já havia elogiado a atuação do deputado em relações internacionais e que Eduardo dissera que a decisão caberia ao pai.
“Não, ele não vai ser meu chanceler”, respondeu. Flávio classificou o irmão como perseguido político e elogiou sua atuação junto a lideranças conservadoras no exterior, mas disse que isso não significa que ele ocupará o cargo de ministro.
Segurança pública e 8 de janeiro
Ao falar sobre segurança pública, Flávio prometeu declarar guerra ao narcotráfico a partir de janeiro de 2027, caso seja eleito. Ele afirmou que pretende reunir os chefes das polícias estaduais e classificar o Comando Vermelho, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e milícias como organizações narcoterroristas.
O candidato também prometeu ampliar a atuação das Forças Armadas nas fronteiras e no combate ao tráfico internacional de drogas. Entre as medidas citadas estão a presença de uma tropa de elite da Marinha no Porto de Santos e operações do Exército e da Força Aérea na região amazônica e na fronteira com a Bolívia.
Flávio afirmou ainda que pretende ampliar o intercâmbio de informações e inteligência com os Estados Unidos e outros países para combater o terrorismo na região da Tríplice Fronteira.
No fim do trecho da entrevista, Renata Lo Prete abordou os atos de 8 de janeiro de 2023. A jornalista descreveu a invasão das sedes dos três Poderes, a depredação de instalações e obras de arte, os ataques a policiais e o roubo de armas do Gabinete de Segurança Institucional. Em seguida, perguntou ao candidato como deveriam ser punidas as pessoas que participaram dos atos.
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A pergunta abriu uma nova etapa da entrevista, que também tratava da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Ao comentar o processo do pai, Flávio havia classificado a condenação como uma farsa e criticado os ministros do STF responsáveis pelo julgamento.