O poder (agora renovado) dos sobrenomes na política mineira
Dinastias históricas, clãs regionais e novas famílias políticas reorganizam alianças e renovam a disputa por territórios na corrida eleitoral de 2026 em Minas
Secretário estadual de Governo, Marcelo Aro personifica a influência renovada dos clãs na política mineira, como articulador da chamada "família Aro" crédito: Leandro Couri/EM/D.A Press - 20/10/2025
A eleição de 2026 em Minas Gerais começa a ser decidida muito antes da formalização das candidaturas. Nos bastidores, partidos negociam palanques, lideranças ampliam bases e redes políticas se reorganizam. Mas, em comum entre diferentes campos ideológicos e regiões do estado está um elemento que atravessa a história da vida pública mineira: a força das famílias.
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Mais do que coincidência de sobrenomes, o cenário revela estruturas organizadas em torno de vínculos familiares capazes de influenciar disputas proporcionais e majoritárias, mobilizar eleitorado e negociar espaços institucionais. A corrida pelo governo estadual, pelo Senado e pelas cadeiras no Congresso e na Assembleia Legislativa deve ser marcada pela presença simultânea de dinastias históricas, grupos regionais consolidados e novos clãs em ascensão.
Na capital, um dos núcleos mais organizados é o liderado pelo secretário de Governo de Minas Gerais, Marcelo Aro (PP), que trabalha para viabilizar candidatura ao Senado. A chamada “família Aro” reúne a vereadora professora Marli (PP) e o deputado estadual Zé Guilherme (PP), pais do secretário, além de aliados próximos, como a deputada federal Nely Aquino (Podemos), que busca a reeleição, o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Juliano Lopes (Podemos), e o vereador Wagner Ferreira (PV), com projetos eleitorais para a Assembleia Legislativa (ALMG). Aro lidera o maior grupo político estruturado na Câmara da capital e mantém interlocução direta com prefeitos em diversas regiões.
Em entrevista ao Estado de Minas, o secretário afirmou que o rótulo surgiu como tentativa de desgaste político e acabou sendo apropriado pelo próprio grupo. “Quando falam da família Aro em Belo Horizonte, essa história começou com um jornal que gostava de falar mal de mim. Tentaram dizer que vereadores que tinham ligação política comigo faziam parte de uma família para descredibilizar a relação.”
Segundo ele, a expressão acabou consolidando a identidade do bloco. “Os vereadores começaram a brincar com isso na tribuna e a se autointitular 'familiares'. E aí pegou. Virou um grupo político sólido, que caminha junto e tem compromisso com Belo Horizonte”, afirma.
No interior, a lógica da política familiar também se mostra decisiva. No Alto Paranaíba, o prefeito de Patos de Minas, Luiz Eduardo Falcão (Republicanos), e a deputada estadual Ludmila Falcão (PP) articulam a expansão de um grupo que ganhou projeção a partir de uma base municipalista.
Respeitado entre prefeitos e lideranças regionais, Falcão foi convidado no sábado pelo senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) para compor com ele chapa majoritária ao governo. Lud construiu mandato com foco em saúde regional, assistência social e políticas para a primeira infância e ganhou visibilidade após divergências políticas com o Executivo estadual, comandado, a partir do próximo dia 22, pelo vice-governador Mateus Simões.
Outro núcleo em ascensão é o chamado clã Azevedo. Cleitinho desponta como pré-candidato ao governo, liderando levantamentos iniciais de intenção de voto. O prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Novo), é cotado para disputar vagas no Senado ou na Câmara dos Deputados, enquanto o deputado estadual Eduardo Azevedo (PL) trabalha pela reeleição.
Também em entrevista ao EM, o parlamentar afirmou ver com naturalidade o rótulo atribuído ao grupo. “Clã Azevedo vem sendo um termo popular. A gente é isso. Veio de uma origem muito humilde e mantém essa essência. A política é uma ferramenta para transformar a vida das pessoas.”
Na Região Metropolitana de BH, a família Pinheiro mantém presença simultânea no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa. O deputado federal Pinheirinho, atual presidente estadual do PP, articula a montagem de chapas proporcionais e busca a reeleição.
A deputada estadual Ione Pinheiro (PP) também deve disputar novo mandato. O grupo carrega herança política associada ao ex-deputado federal Toninho Pinheiro e ao ex-presidente da Assembleia Legislativa Dinis Pinheiro, consolidando tradição eleitoral em Ibirité e cidades do entorno.
Outro clã territorializado é o da família Teixeira Dias. O deputado federal Marcelo Álvaro Antônio (PL), ex-ministro do Turismo, a deputada estadual Amanda Teixeira Dias (PL) e a vereadora Janaína Cardoso (União-Brasil) mantêm influência eleitoral no Barreiro, reduto político estruturado a partir da liderança comunitária de Teixeira Dias, homenageado recentemente com uma estátua pela Câmara Municipal. A estratégia envolve atuação coordenada nas três esferas do Legislativo para preservar a base eleitoral urbana.
Também na Grande BH, a família Portela representa um caso de continuidade geracional. O deputado federal Lincoln Portela (PL), com trajetória iniciada na Câmara de BH e com sucessivos mandatos em Brasília, articula a projeção política da filha, Alê Portela (PL), integrante do primeiro escalão do governo estadual e pré-candidata à Assembleia Legislativa. A mãe da parlamentar, Marli Portela (PL), é vereadora da capital. O irmão, Léo Portela, é ex-deputado federal.
No Triângulo Mineiro, a presença de famílias tradicionais segue determinante. Em Uberlândia, o prefeito Odelmo Leão mantém protagonismo após décadas de atuação parlamentar e administrativa, enquanto a deputada estadual Ana Paula Leão (PP) representa a continuidade do grupo. Na mesma região, os irmãos Weliton Prado (Solidariedade), deputado federal, e Elismar Prado (PSD), deputado estadual, consolidaram a base eleitoral ligada à defesa de serviços públicos e pautas sociais.
Na Zona da Mata, a família Varella construiu influência a partir da atuação parlamentar combinada com projetos nas áreas de saúde e educação. O ex-senador e ex-deputado federal Lael Varella (PSD) permanece como referência política regional, enquanto o deputado federal Misael Varella (PSD) busca manter protagonismo no Congresso e ampliar articulações municipais.
Poder, política e economia
No Leste do estado, a família Coelho Diniz representa a convergência entre poder econômico e influência política. Os empresários André, Alex, Fábio, Elton e Henrique Diniz consolidaram rede supermercadista regional e ganharam projeção nacional ao ampliar investimentos no varejo. A inserção política ocorre por meio do deputado e líder do governo Romeu Zema (Novo), Hercílio Coelho Diniz Filho (MDB), e da suplência ao Senado do cargo de Cleitinho, ocupada por Alex Diniz.
Outros grupos mantêm presença simultânea em diferentes esferas institucionais. É o caso da família Biondini, formada pelo deputado federal Eros Biondini (PL) e pela deputada estadual Chiara Biondini (PL), com atuação vinculada a pautas conservadoras e eleitorado religioso. Episódios administrativos envolvendo Mauro Biondini, indicado ao conselho fiscal da Cemig, ampliaram a exposição pública do grupo.
No campo progressista, a família Patrus segue como referência histórica em Belo Horizonte. O deputado federal Patrus Ananias (PT) mantém trajetória associada à formulação de políticas sociais de alcance nacional, enquanto o vereador Pedro Patrus (PT) representa a renovação geracional na Câmara.
Também se destacam sobrenomes com influência regional difusa, como o da família Ângelo. O deputado federal Miguel Ângelo (PL) e o ex-deputado estadual Durval Ângelo atuam em diferentes regiões e campos ideológicos, mantendo presença institucional ao longo do tempo. Atualmente, Durval é conselheiro do Tribunal de Contas de Minas Gerais.
As dinastias
Ao lado desses grupos mais recentes ou regionalizados, dinastias tradicionais continuam exercendo peso simbólico e político no estado. Sobrenomes como Andrada, Neves, Perrella, Braz, Doorgal e Tropia permanecem associados à formação histórica do poder mineiro e seguem presentes em articulações partidárias e disputas eleitorais.
Para o cientista político Carlos Ranulfo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, o fenômeno combina tradição e adaptação. “O que se observa é a convivência entre dinastias políticas antigas e novos clãs que se estruturam rapidamente a partir de bases regionais, econômicas ou digitais. Em um sistema partidário fragmentado, o capital político familiar pode funcionar como elemento de identidade e mobilização do eleitorado”, afirma.
Na avaliação do especialista, a eleição de 2026 deve ser marcada por alianças inesperadas e disputas territoriais. “Famílias políticas funcionam como marcas eleitorais. Elas garantem reconhecimento público e estrutura de campanha, algo que partidos nem sempre conseguem oferecer.”
Com o cenário ainda em formação, a corrida eleitoral mineira tende a ser definida tanto por projetos de governo quanto pela capacidade dessas redes familiares de mobilizar bases, negociar alianças e ocupar espaços institucionais. Em Minas Gerais, mais uma vez, a política se organiza em torno de sobrenomes que atravessam gerações e continuam determinando o rumo das urnas.
RAIO-X DO PODER
Quem são as famílias que se articulam para 2026 em Minas
Capital e Região Metropolitana
Marcelo Aro Marcos Vieira /EM/DA. Press
Família Aro
Marcelo Aromira o Senado enquanto articula base de vereadores e deputados. Professora Marli, Zé Guilherme, Nely Aquino, Juliano Lopes e Wagner Ferreira integram o grupo político.
Pinheirinho, presidente do PP em Minas, e a deputada estadual Ione Pinheiro trabalham pela reeleição mantendo tradição política iniciada por Toninho Pinheiro e Dinis Pinheiro.
Marcelo Álvaro Antônio TSE/Reprodução
Família Teixeira Dias
Marcelo Álvaro Antônio, Amanda Teixeira Dias e Janaína Cardoso preservam reduto eleitoral no Barreiro, construído a partir da liderança comunitária de José Teixeira Dias.
Lincoln Portela TSE/Reprodução
Família Portela
Lincoln Portela busca novo mandato na Câmara enquanto projeta a filha Alê Portela para a Assembleia Legislativa.
Patrus Ananias Marcos Vieira/EM/D.a press
Família Patrus
Patrus Ananias mantém trajetória ligada a políticas sociais nacionais. Pedro Patrus representa a nova geração no Legislativo de BH.
Eros Biondini Gladyston Rodrigues/EM/D.a press
Família Biondini
Eros Biondini e Chiara Biondini atuam com base em pautas conservadoras e eleitorado religioso.
Durval Ângelo Alexandre Guzanshe/EM/D.a press
Família Ângelo
Miguel Ângelo, Leonardo Ângelo, Ângelo Chequer e Durval Ângelo mantêm presença política difusa entre capital e interior.
Interior e polos regionais
Cleitinho Jefferson Rudy/Agência Senado
Família Azevedo
Cleitinho lidera pesquisas para o governo.Gleidson Azevedo e Eduardo Azevedo ampliam presença eleitoral no Centro-Oeste.
Lud Falcão Gladyston Rodrigues/EM/D.a Press
Família Falcão
Luiz Eduardo Falcão articula prefeitos e foi convidado para compor chapa majoritária. Lud Falcão consolida mandato na Assembleia.
Ana Paula Leão TSE/Reprodução
Família Leão
Odelmo Leão mantém liderança histórica em Uberlândia.Ana Paula Leão representa continuidade política.
Weliton Prado TSE/Reprodução
Família Prado
Weliton Prado e Elismar Prado preservam base eleitoral ligada a pautas sociais no Triângulo Mineiro.
Misael Varella TSE/Reprodução
Família Varella
Lael Varella e Misael Varella combinam atuação parlamentar com influência nas áreas de saúde e educação na Zona da Mata.