Primeira leitura: 'Pequenos engasgos', de Alê Motta
Estreando em prosa, autora reúne microcontos sobre dores cotidianas que passam despercebidas nas esquinas e casas da cidade
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O portão está enferrujado, mas funciona bem.
Pedi a promoção do hambúrguer com batatas. O aplicativo indicou vinte minutos para a entrega. Deitei no sofá e abracei o gatinho que miou e arranhou meu cotovelo. Liguei a tevê.
Chorei com o beijo do casal. Chorei com o abraço dos velhinhos. Chorei com o gol do adolescente no jogo de futebol.
Desliguei a tevê. Não queria chorar mais. Nem lembrava o nome da série que estava assistindo, como podia chorar daquele jeito? Me levantei bruscamente. O gato se assustou e bateu a cabeça na parede. Desmaiou. Ou morreu. Ainda não sei, pois a campainha tocou.
Quando terminar o hambúrguer, eu vou conferir o gato. Provavelmente vou chorar.
Farmácia mais antiga do bairro.
Olhares de ódio, dedos na cara. Separo as pilhas de dorflex, novalginas, loratadinas, shampoos e chocolates, enquanto observo os dois pela janela entreaberta, do outro lado da rua.
Lamento que eles nunca venham comprar nada comigo. Começo a pensar que casamentos infelizes fazem bem à saúde.
Uma casa pequenina na rua das casas antigas.
Moro nesta casa espremida e acolhedora, com porta cor geleia de ameixa. Meu pai costumava pintá-la com a cor roxo profundo da Suvinil, mas o preço define minha escolha e eu troquei o tom, anos atrás. Sou um homem rabugento e irrelevante. Não tenho grande apreço por mim. Neste momento, eu espio pelo vidro da porta um rapaz fotografando as casas da rua para um documentário sobre arquitetura na nossa vila. Não posso permitir que ele capture meu rosto. Preparo uma ação de impacto e o seu sucesso depende do meu anonimato. Sairei para meu emprego medíocre, quando ele terminar as fotos. Quarta-feira que vem, ao meio-dia, tudo será alterado. O fotógrafo não estará presente. Ninguém registrará o ódio e o desespero, frutos da minha indescritível ação. Falta pouco. Estou tenso.
A casa mais silenciosa da rua.
Papai não balança na rede da varanda, quase não fala, não lembra de comprar sorvete de chocolate com creme e não quer ver filme comigo.
Nunca mais fomos visitar os primos. E ele não me deixa chamar nenhum amigo pra brincar aqui em casa.
Mostrei as filas compridas e tortas que as formigas fazem nas beiradas dos canteiros. Ele não riu. Eu não escovo os dentes todos os dias, e ele nem percebe. Mamãe cantava comigo na hora de escovar os dentes. A gente espirrava bolinhas brancas de espuma no espelho e dançava de pijama. Ela ria das formigas.
Todo dia eu sinto uma tristeza que não acaba.
Sobre o livro
Cíntia Moscovich - Especial para o Estado de Minas
"Valendo-se no início do relato de homem em situação de rua que é expulso com seu vira-latas da frente de uma loja de pneus, Alê Motta toma pela mão seu leitor e, em forma fragmentada e telegráfica, coloca aquele que lê diante de um painel de personagens desesperados e inconsequentes, gente esvaziada de vontade e de poder e mesmo da compreensão de sua humanidade mais essencial. Jogados em situações extremas, atos de um espetáculo que se desenha todos os dias em todos os cantos da cidade, os personagens de 'Pequenos engasgos' têm a vida entalada de dor e solidão."
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Depoimento da autora
"Eu gosto muito de escrever a partir do processo de observação, e com 'Pequenos engasgos' não foi diferente. Imaginei momentos, recortes do dia a dia, e situações que muitas vezes passam despercebidas nas ruas das cidades. Nem sempre paramos para pensar que coisas dolorosas acontecem ao nosso lado. E muitas vezes essas dores não estão escondidas. Mas elas incomodam. E o incômodo pode nos cegar e nos levar a fazer escolhas cruéis. Amenizamos, relevamos, e por fim, ignoramos."
"Pequenos engasgos"
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De Alê Motta
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Editora Faria e Silva
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80 páginas
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R$ 45,90 / e-book: R$ 32,10