O dilema moderno brasileiro e as eleições

O que está em disputa não é apenas quem ocupará a Presidência da República, mas qual linguagem política será capaz de interpretar uma sociedade que se transformou mais rapidamente do que suas instituições

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Victor Missiato

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Professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré, doutor em História e analista político

A história da modernidade pode ser compreendida a partir de uma ideia recorrente: a substituição de uma velha estrutura por uma nova ordem. Essa relação temporal entre passado, presente e futuro aparece em diferentes autores que procuraram interpretar os grandes momentos de transformação histórica.


Hegel, ao escrever a "Fenomenologia do Espírito", encontrava-se diante de um dos principais momentos de ruptura da modernidade. A Revolução Francesa havia colocado em questão as estruturas do Antigo Regime e, posteriormente, a trajetória de Napoleão Bonaparte representou, em sua interpretação, a materialização de parte das ideias e práticas desencadeadas por aquela ruptura. Uma antiga estrutura monárquica e estamental encontrava-se diante de uma nova experiência política, ainda em processo de formação.


Alexis de Tocqueville, ao viajar aos Estados Unidos, identificou outra expressão dessa transformação. A democracia norte-americana apresentava uma sociedade que se organizava de maneira distinta das tradições aristocráticas e monárquicas europeias. Antonio Gramsci, por sua vez, depois da Primeira Guerra Mundial, percebeu que o mundo também atravessava uma transformação estrutural. O fordismo, associado ao que chamou de americanismo, representava uma nova forma de organização econômica, social e cultural, capaz de confrontar estruturas absolutistas, patriarcais e nobiliárquicas ainda presentes na Europa.


A interpretação do Brasil também foi construída sob essa chave. Sérgio Buarque de Holanda procurou compreender uma sociedade em que o passado permanecia presente enquanto novas formas de organização social avançavam. O Brasil aparecia, assim, como uma experiência marcada pela tensão entre aquilo que estava se desestruturando e aquilo que ainda não havia adquirido forma definitiva.


É justamente essa perspectiva que pode ajudar a interpretar as eleições de 2026. Para além da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, o país parece atravessar um novo interregno moderno. A polarização atual não expressa apenas uma divergência entre esquerda e direita. Ela também revela a dificuldade de dois campos políticos consolidados traduzirem, em suas respectivas linguagens, as transformações que ocorreram na sociedade brasileira.


A esquerda chega a esse momento carregando o peso de uma longa experiência de poder. Seus valores históricos continuam presentes, mas encontram dificuldades para produzir uma renovação capaz de dialogar com um eleitorado que mudou profundamente. Em determinados setores, a linguagem política parece recorrer mais à memória do passado do que à construção de uma perspectiva de futuro.


Do outro lado, o bolsonarismo conseguiu expressar parte importante da reação a esse processo, mas também enfrenta seus dilemas. Apesar de representar uma ruptura com determinadas estruturas políticas tradicionais, ainda não encontrou necessariamente uma linguagem moderna capaz de traduzir as transformações que acontecem na base da sociedade brasileira.


O Brasil mudou. A expansão do protestantismo, a urbanização, a valorização do empreendedorismo, a emergência de valores mais individualizados e a transformação das relações profissionais modificaram a estrutura social do país. Ao mesmo tempo, permanecem fortes tradições associadas à presença do Estado, às carreiras públicas e ao que Luiz Werneck Vianna identificou como dimensões do iberismo.


É nessa contradição que se encontra o interregno. O velho não desapareceu, mas também já não consegue explicar sozinho o presente. O novo, entretanto, ainda não encontrou uma liderança política capaz de traduzi-lo integralmente.


Por isso, as eleições de 2026 talvez não sejam capazes de dissolver esse impasse. Elas podem, ao contrário, torná-lo ainda mais visível. O que está em disputa não é apenas quem ocupará a Presidência da República, mas qual linguagem política será capaz de interpretar uma sociedade que se transformou mais rapidamente do que suas instituições.

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Talvez seja esse o principal significado das eleições deste ano. Mais do que apresentar uma solução definitiva para as contradições brasileiras, elas podem revelar o tamanho da crise de transição que o país atravessa. A eleição, portanto, será menos uma resposta do que um diagnóstico. Mais do que solucionar esse interregno, poderá apenas revelar seus sintomas, de uma vez por todas.

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