O que os estudos em Brumadinho mostram sobre conhecer para proteger
Compreender como os ecossistemas estão organizados, como funcionam e o que está em risco permite antecipar problemas em vez de apenas reagir a eles
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CRISTIANE CÄSAR - Especialista em Biodiversidade da Vale
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RICARDO SOLAR - Professor de Ecologia da UFMG
Florestas, rios e campos funcionam graças à variedade de seres vivos que os compõem, e é desse funcionamento que dependemos para ter água, alimento e um clima estável. Ainda assim, espécies e habitats vêm desaparecendo em ritmo acelerado, e em muitos lugares, já não é suficiente conservar o que resta: é preciso também restaurar. Para as duas tarefas, o ponto de partida é o mesmo: saber o que existe em cada lugar. Sem esse conhecimento, não há como decidir o que restaurar, nem como.
Essa é uma das lições dos estudos realizados em Brumadinho e na bacia do Rio Paraopeba. Desde 2020, pesquisadores acompanham a fauna e a flora da região e reuniram um dos conjuntos de dados sobre biodiversidade mais amplos já produzidos ali.
Os levantamentos registraram mais de 830 espécies de plantas, mais de 200 espécies de aves, 110 espécies de peixes nativos, 38 de anfíbios, 32 de répteis e 77 de mamíferos. Deste total, 19 espécies de plantas e 23 de animais estão em alguma categoria de ameaça nas listas estadual, nacional e/ou global de espécies ameaçadas de extinção.
Os estudos ainda incluem o registro de mais de 600 espécies de insetos e outros invertebrados terrestres (entre abelhas, borboletas, besouros, cupins e formigas), e mais de 800 espécies de organismos aquáticos (macroinvertebrados aquáticos e algas, entre outros). São organismos muitas vezes pouco conhecidos pelo público, mas essenciais para o funcionamento dos ecossistemas.
Mais importante do que os números em si é o que eles revelam: uma extensa rede de relações entre os seres vivos. É por meio dela que flores são polinizadas, sementes se espalham, nutrientes retornam ao solo, populações se mantêm em equilíbrio e a água e o solo conservam sua qualidade.
Entender como essa rede funciona ajuda a definir prioridades, direcionar investimentos e decidir onde e como agir para aumentar as chances de sucesso da conservação e da restauração.
Na prática, os dados do monitoramento ajudam a responder perguntas como: quais espécies tendem a voltar primeiro às áreas em recuperação? Que habitats merecem prioridade? Onde é mais importante reconectar áreas naturais, para que fauna e flora voltem a circular entre elas? Quais estratégias têm mais chance de gerar resultados consistentes? É nesse ponto que a pesquisa de campo passa a orientar decisões.
O tema ganha ainda mais relevância porque a crise climática e a perda de biodiversidade estão intimamente ligadas. Ecossistemas conservados ou restaurados ajudam a regular o clima, protegem os recursos hídricos, mantêm a fertilidade do solo e tornam os territórios mais capazes de resistir a impactos e de se recuperar deles. Proteger a biodiversidade, portanto, é também proteger as condições de que as pessoas dependem para viver e produzir.
Mapear espécies, compreender como se relacionam e acompanhar suas respostas às mudanças no ambiente é o que permite definir prioridades com segurança. Isso vale para Brumadinho e para qualquer outra região.
Em Brumadinho, as pesquisas já orientam a restauração de ambientes, a proteção de espécies ameaçadas e a recuperação das conexões ecológicas entre diferentes áreas. Os resultados também subsidiam ações práticas, como a implantação de passagens de fauna e a seleção de espécies vegetais utilizadas na produção de mudas empregadas nos projetos de recuperação ambiental. Conhecer a biodiversidade local passou a fazer parte do próprio processo de reconstrução.
O desafio agora é garantir que esse conhecimento se converta em ação contínua, em que conhecer, conservar, restaurar e monitorar sejam etapas de um mesmo trabalho, e não iniciativas isoladas. Tudo começa, portanto, pela observação atenta da natureza.
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Compreender como os ecossistemas estão organizados, como funcionam e o que está em risco permite antecipar problemas em vez de apenas reagir a eles, além de planejar a recuperação com mais segurança e efetividade.