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Curar um mundo ferido

As discórdias, as violências, as injustiças e a degradação ambiental não são o resultado apenas de sistemas ou estruturas insuficientes, também têm relação com o desequilíbrio que se radica no coração humano

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A Igreja Católica, no mundo inteiro, celebrou o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a criação, na abertura do mês de setembro. Instituído pelo Papa Francisco, o Dia de Oração tem um tom convocatório e um propósito de sensibilização: o ser humano, eleito regente da criação e o amor maior do Criador, é chamado a rever os descompassos no tratamento dedicado ao planeta e a corrigir rumos. Curar um mundo ferido é projeto desafiador que exige grandes mudanças nas lógicas regentes da sociedade, responsáveis pelas feridas impostas à casa comum e por suas consequências. Um relevante ponto de partida é o encontro dialogal e místico entre a criatura regente e o autor da criação, capaz de ajudar na geração de uma indispensável consciência ecológica. Esse encontro ilumina o desenvolvimento de processos e dinâmicas essenciais à cura de um mundo ferido.

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Especialmente preocupante é a ausência da temática ecológica-ambiental na discussão política envolvendo aqueles que se candidatam a cargos executivos e legislativos. O desenvolvimento sustentável é um desafio permanente na sociedade brasileira, pois aqueles que ocupam as instâncias de poder atrelam e submetem essa temática, muitas vezes cegamente, a lógicas perversas de interesses econômicos. Urge-se, assim, o que propõe o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação: contemplar o dom da vida e valorizar a terra que a sustenta, pois essas são formas concretas de louvar o Criador, explica o Papa Leão XIV, em sua mensagem para celebrar a data. Essa contemplação e valorização levam a um melhor entendimento sobre a realidade sociopolítica. Há iniciativas semelhantes que buscam inspirar sensibilização ecológica, com o propósito de incidir na realidade, com repercussões na economia, no desenvolvimento integral e na agenda sociopolítica. Um dos destaques é o Junho Verde, Lei aprovada e sancionada pelas instâncias competentes, que convoca a sociedade a investir na educação ecológica. No entanto, ainda há pouco investimento nessa direção.


Prescindir do itinerário que leva à educação ecológica tem como consequência o enfraquecimento da humanidade para enfrentar muitas crises e para tratar tantos sofrimentos da atualidade. A falta da sensibilidade ecológica explica a perturbação acelerada do equilíbrio harmonioso da criação. Essa situação, explicitada na degradação ambiental, pede um forte apelo à cura e à paz. O Papa Leão XIV, na sua mensagem, se refere ao Profeta Isaías, que anunciava um tempo em que as nações “transformarão as suas espadas em relhas de arados”, tornando tudo que destrói a vida naquilo que a sustenta. Adverte o Pontífice que se vê o contrário no mundo contemporâneo: os esforços são direcionados à violência e à guerra. Os confrontos bélicos deixam feridas que vão além do campo de batalha, lembra o Papa, por ceifar vidas, separar famílias e obrigar milhões de pessoas a fugir para longe de seus lares, aumentando, assim, o medo, a injustiça e a divisão, além de, gravemente, provocar destruição social e a degradação ecológica que perdura por gerações.


A interação entre conflitos armados e a degradação ambiental cria um ciclo vicioso que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais como o ar e a água, comprometendo a segurança alimentar, um direito humano que deve ser tratado como prioridade. Tudo isso faz crescer a pobreza, a desigualdade e novas tensões sociais, contribuindo para o surgimento de mais conflitos, assevera a mensagem pelo XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação. Afirma o Papa que os conflitos armados e a degradação ambiental revelam a incapacidade humana de se reconhecer imagem e semelhança de Deus, com o dever de respeitar a vida e de cuidar da terra dada por Deus. Sinalizam, assim, para um fracasso político, também moral e espiritual. As guerras são uma negação dos princípios do Evangelho da paz.


Curar o mundo ferido exige responsabilidade e a conversão do coração, a partir da fidelidade a Deus, cultivando o amor mútuo e o respeito pelo dom da criação. As discórdias, as violências, as injustiças e a degradação ambiental não são o resultado apenas de sistemas ou estruturas insuficientes, também têm relação com o desequilíbrio que se radica no coração humano, lugar onde acontecem as lutas fundamentais e se revela a condição humana decaída. O coração não é apenas a sede das emoções, mas o centro da pessoa, lugar onde convergem razão, desejo, vontade e consciência. A mensagem do Papa afirma assertivamente que a luta entre desejos contraditórios fecundados pelo amor e pela indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça habita o coração. Consequentemente, diz que as feridas da guerra e da degradação da terra estão intimamente ligadas à condição do coração humano.

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Os conflitos que atormentam a humanidade são expressão exterior da divisão e das discórdias interiores. Quando o coração está deformado, adverte Papa Leão XIV, as relações sofrem e as estruturas exteriores começam a refletir essa desordem. Conclui o Pontífice: para construir uma sociedade pacífica é preciso não apenas reformar as estruturas, mas renovar os corações. Completa afirmando que as causas profundas dos conflitos e da exploração da Criação têm origem em uma crise ética e cultural que inclui a perda do sentido de limites, a vontade de exercer dominação, a busca do lucro imediato e ilimitado, a incapacidade de reconhecer a dignidade concedida por Deus a cada pessoa. É hora de transformar relhas em arados, começando pelas mudanças no coração, para se poder curar um mundo ferido.

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