Editorial
Cooperação policial deve ser política de Estado
Em vez de importar a retórica da "guerra ao terror" ou o populismo penal de inspiração bukelista, o país precisa de uma estratégia de Estado
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04/07/2026 02:00
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A operação da Polícia Federal (PF) desta sexta-feira, deflagrada na esteira das sanções e das investigações conduzidas pelos EUA sobre a lavagem de dinheiro do PCC em território americano, expõe duas verdades sobre o crime organizado: as facções brasileiras já operam como redes transnacionais de negócios ilícitos, capazes de mover recursos entre países, empresas de fachada, criptomoedas, contas bancárias e laranjas com notável sofisticação; e o combate a esse fenômeno depende, cada vez mais, de cooperação internacional estreita, tecnicamente qualificada e politicamente protegida do ruído ideológico que hoje contamina as relações entre Brasília e Washington. Deve ser política de Estado.
A ação da PF foi acelerada depois de o Departamento do Tesouro dos EUA anunciar sanções contra Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, apontados como operadores de lavagem de recursos ligados ao PCC. Segundo o Tesouro, Shimada atuava como elo entre integrantes do PCC na Flórida e o núcleo paulista da facção, tendo movimentado mais de US$ 30 milhões em dinheiro ilícito, inclusive por meio de criptomoedas.
Entretanto, a PF fala em uma estrutura financeira muito mais ampla, com análise preliminar de mais de R$ 10 bilhões em transações vinculadas ao esquema. O dado mais relevante é a natureza da operação: trata-se de uma organização dedicada a transformar dinheiro sujo em capital aparentemente lícito, por meio de brechas do sistema financeiro e assimetrias de jurisdição entre os países. Esse ponto é central.
A expansão internacional do PCC e do Comando Vermelho não se resume à exportação da violência das periferias brasileiras para outros mercados. O centro de gravidade dessas facções é econômico. O narcotráfico continua sendo o motor principal, mas ele já se conecta a uma constelação de atividades criminosas – entre ela, contrabando, roubo de cargas, exploração de combustíveis, mineração ilegal e infiltração em contratos públicos.
A facção não busca apenas dominar territórios; busca controlar fluxos de caixa, canais logísticos, proteção institucional e influência política. É isso que torna insuficiente tanto a leitura romântica que ainda subestima o problema quanto a tentação de enquadrar automaticamente toda organização criminosa como grupo terrorista. Isso pode até produzir instrumentos úteis de estrangulamento financeiro, sobretudo ao ampliar o alcance de sanções e o monitoramento de redes empresariais associadas nos EUA, mas também acarreta riscos.
O primeiro é diplomático: sem coordenação entre autoridades brasileiras e norte-americanas, medidas unilaterais podem atrapalhar investigações em curso. O segundo risco é jurídico e político: o rótulo de terrorismo, quando aplicado a organizações cujo objetivo central é o lucro e não a ação político-ideológica típica do terrorismo clássico, abre margem para abusos, para extraterritorialidade excessiva e até para pressões indevidas sobre bancos e empresas brasileiras que não dispõem de capacidade investigativa comparável à de um Estado.
O Brasil tem um interesse objetivo em aprofundar a cooperação com os EUA sem terceirizar sua política de segurança nem aceitar tutelas. A agenda correta é a integração de inteligência financeira, o compartilhamento tempestivo de dados, o rastreamento de criptoativos, a cooperação policial e judiciária, entre outras medidas. Em vez de importar a retórica da “guerra ao terror” ou o populismo penal de inspiração bukelista, o país precisa de uma estratégia de Estado para desarticular as economias do crime dentro das balizas constitucionais. Livre da partidarização e do efeito tóxico das disputas eleitorais, aqui e nos Estados Unidos.