Editorial

Guerras sem tiros nem vitrine

A preocupação levada ao G7 pelo governo brasileiro expõe uma das faces da fissura, que se aprofunda e se alarga, entre as potências econômicas

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A reunião de cúpula do G7 em Évian, na França, colocou aos olhos de quem acompanha o noticiário internacional um punhado de conflitos que, na ausência de bombardeios, destruição e mortes desfilando pelas telas, acaba passando algo despercebido. E, em muitos casos, é nessas disputas que se desenha o futuro da humanidade, quando se pensa no longo prazo.

A ameaça ambiental, concentrada no impacto devastador das mudanças climáticas, frequenta há algum tempo as atenções da mídia e dos governantes. Neste ano, porém, a pauta das grandes economias industriais foi tomada de assalto pelo tema premente da revolução digital, com suas incógnitas e desafios. Até pelas afinidades com a ficção científica – a vida tem o costume arraigado de imitar a arte –, as discussões públicas em torno do assunto se concentram na inteligência artificial (IA).

Por trás dela, no entanto, trafega um tanto ofuscada a queda de braço sobre a regulamentação das big techs, as gigantes do setor, cuja riqueza e influência econômica e sociopolítica avançam talvez com rapidez maior que a exibida pelos supercomputadores e data centers. Foi nelas que o presidente Lula focalizou seu discurso, na qualidade de convidado do anfitrião, Emmanuel Macron. "O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial", comparou.

A preocupação levada ao G7 pelo governo brasileiro expõe uma das faces da fissura, que se aprofunda e se alarga, entre as potências econômicas dominantes e o numeroso bloco de países hoje identificado sob a etiqueta de Sul Global. Não por acaso, em mais de um tópico, a fala de Lula encontrou eco nas posições colocadas pela China. Segunda economia do planeta, a caminho de disputar com os Estados Unidos o alto do pódio, o gigante comunista levou a Évian sua plataforma para um reordenamento da governança global.

É, em boa parte, na abordagem dessas questões que se demarcam os campos na arena internacional. Em particular, é com os Estados Unidos de Donald Trump que se concentram as divergências e disputas – desde logo, pela afinidade pública e notória do presidente com os principais executivos das big techs, como Elon Musk, Tim Cook e Jensen Huang, que o acompanharam na recente visita a Pequim.

Ademais de prevenir a exposição generalizada dos usuários aos crimes digitais – especialmente, de crianças e adolescentes –, a posição assumida na França pelo Brasil aponta para os riscos da interferência descontrolada dos gigantes da IA na vida doméstica dos países. Desde logo, nos processos eleitorais, como o que se avizinha por aqui, com a disputa pelo Planalto e a renovação do Congresso.

Garantir que os destinos de uma nação se definam pelo pronunciamento livre e consciente da sociedade, moldado no debate democrático de ideias e expresso na instituição insuperável do voto, é o desafio que se apresenta. Para agora, enquanto é tempo para manter confinadas ao leito natural as águas de um rio que se avoluma e, em algum momento, não mais respeitará margens nem limites.

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