editorial

O labirinto de Havana

A administração Trump oscila entre o discurso de libertação do povo cubano e a lógica punitiva do indiciamento

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Irmão do ex-ditador Fidel Castro, o ex-presidente de Cuba Raúl Castro tem 94 anos, não governa o país desde 2021 e passa, segundo relatos, boa parte do tempo em recolhimento. Que a administração Trump tenha escolhido esse homem como alvo de um indiciamento formal pelo abate de aviões civis americanos – crimes ocorridos há mais de 30 anos – não é um ato de justiça. É um gesto sem destinatário claro, que revela que os Estados Unidos não sabem o que querem de Cuba e não possuem qualquer estratégia coerente para a ilha.

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A aposta não é clara. Washington tem se dividido entre o estrangulamento econômico do país, com o aprofundamento do embargo, e o assédio político, de olho em uma ruptura iminente do regime cubano. As duas estratégias ignoram a complexidade estrutural de Cuba, e abrem precedentes perigosos para a segurança global. Ao emular a tática de cerco judicial aplicada contra Nicolás Maduro na Venezuela, o governo americano confunde espetáculo com diplomacia, tratando uma nação em colapso como peça descartável no tabuleiro internacional.


Comparar Cuba à Venezuela, porém, é um equívoco estratégico. Caracas operava sobre os remanescentes de uma riqueza petroleira; Havana lida com um modelo estatal exaurido por décadas de estagnação, embargo e dependência externa. O cidadão cubano, que enfrenta apagões crônicos, inflação alimentar e escassez de medicamentos, precisa de reconstrução econômica, não de pressão militar em suas fronteiras marítimas. Além disso, uma operação para a retirada de Raúl Castro não causaria efeito algum no regime, tocado desde 2021 por Miguel Díaz-Canel.


O que torna a situação ainda mais desconcertante é a ausência de uma estratégia para o dia seguinte. Washington não sinalizou o que espera de Cuba após um eventual colapso do regime – nem se espera algo. A administração Trump oscila entre o discurso de libertação do povo cubano e a lógica punitiva do indiciamento, sem que as duas narrativas se conectem em qualquer plano concreto. É o retrato de uma política externa que se satisfaz com o gesto e delega as consequências ao improviso.


No plano geopolítico, o avanço americano testa o limite de atores incontornáveis. Rússia e China mantêm interesses enraizados na ilha e não devem assistir passivamente a uma versão atualizada da Doutrina Monroe executada pela via coercitiva. Mais grave: se os Estados Unidos endossam o direito de intervir diretamente em seu hemisfério sob a justificativa de segurança regional, transferem um argumento perigoso para as potências rivais. Torna-se inviável condenar a pressão de Moscou sobre a Ucrânia e os Países Bálticos, ou o assédio de Pequim sobre Taiwan, quando a principal democracia ocidental opta pelos mesmos atalhos.

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O cerco a Cuba pode render dividendos eleitorais imediatos na Flórida, terra do secretário de Estado Marco Rubio, descendente de cubanos. Mas falha em oferecer previsibilidade ou estabilidade. Quando a maior potência militar do mundo age sem clareza sobre seus próprios objetivos, as consequências raramente ficam contidas na área de influência pretendida.

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