Brasil sob o desafio da longevidade
Sem a consciência coletiva de que a transição demográfica pode ser um momento de adaptações e oportunidades, cidades e pessoas tendem a caducar
compartilhe
SIGA
O tempo das pessoas e o das cidades seguem dinâmicas próprias. Mas, ao coexistirem, se encontram em aspectos que tendem a ser cruciais para todas elas. Levantamento recém-divulgado pelo IBGE é ilustrativo nesse sentido. A nova Pnad contínua revela que, de 2012 a 2025, a população de idosos no país subiu 58,7% – maior patamar da série histórica – e que o número de brasileiros que moram sozinhos mais que dobrou — com destaque para as mulheres. Trata-se de confluência que mexe com os indivíduos e as estruturas: se novas formas de existência se avolumam no país, espera-se que as urbes correspondam a elas.
De forma geral, o percentual de imóveis quitados vem caindo, os prédios vão se sobressaindo sobre as casas, e as cidades se veem diante do desafio de fazer adaptações seguindo o ritmo do envelhecimento dos moradores: de forma acelerada. Ao Correio, a arquiteta e urbanista Ivelise Longhi ressaltou que é imperioso que esses ajustes contem com a participação popular. “Você tem que trazer a sociedade para participar e fazer com que as pessoas se sintam protagonistas, porque uma cidade não acontece sem pessoas".
A mudança em curso da pirâmide etária exige do país reconfiguração da mobilidade urbana, dos serviços e dos produtos, a reestruturação do sistema de saúde, ajustes ao envelhecimento da força de trabalho e a sustentabilidade previdenciária, entre outros desafios. Isso considerando as múltiplas realidades sociais, econômicas e culturais que coabitam este país.
Enquanto há uma Região Norte que permanece com a população mais jovem e enfrenta o dilema de avançar economicamente sem ferir princípios de produções modernas e ambientalmente responsáveis, há um Sudeste com a maior concentração de idosos, grandes centros urbanos e dificuldades estruturais para garantir qualidade de vida em cenários de inchaço populacional. O mesmo Norte tem apenas 29,2% das pessoas vivendo em domicílios com esgotamento sanitário por rede coletora, pluvial ou fossa séptica ligada à rede. Realidade para 50,9% de quem vive no Nordeste; 65,8% no Centro-Oeste; 71,1% no Sul; e 90,4% no Sudeste. Cabe lembrar que sobram evidências científicas ligando o acesso ao saneamento básico ao aumento da expectativa de vida.
Também impulsiona a longevidade viver em espaços seguros; e, mais uma vez, a Pnad Contínua retrata a complexidade da realidade brasileira. Em uma sociedade em que homens jovens perdem a vida nas mais diversas expressões da violência urbana, as mulheres chegam em maior representatividade à velhice, mas sobrevivendo a uma escalada a violência de gênero e a outros tentáculos do machismo estrutural – elas também são maioria nas ocupações informais e as principais cuidadoras, incluindo na assistência a outros idosos.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
É intrincada a rede de fatores ligados ao envelhecimento da população brasileira, e seu enfrentamento não se dá apenas por decreto. Sem a consciência coletiva de que a transição demográfica pode ser um momento de adaptações e oportunidades, cidades e pessoas tendem a caducar, colocando em xeque a celebrada longevidade.