Lições de mais um verão
A tragédia brasileira não é uma fatalidade meteorológica, mas um projeto de urbanização que ignorou a geografia e as leis da natureza
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O encerramento do ciclo de verão no Brasil costuma ser acompanhado por um balanço de perdas humanas e materiais e prognósticos para futuras temporadas. Faltam 13 dias para o fim da estação chuvosa, que, em Minas Gerais, foi a mais letal das últimas duas décadas. Os dados mais recentes da rede MapBiomas mostram que a tragédia brasileira não é uma fatalidade meteorológica, mas um projeto de urbanização que ignorou a geografia e as leis da natureza. Em quatro décadas, o país não apenas cresceu: avançou sobre encostas e margens de rios com uma imprudência que passou a cobrar seu preço em vidas.
Desde 1985, as áreas urbanas no Brasil expandiram-se 2,5 vezes. A ocupação em locais de alta declividade – terrenos propensos a deslizamentos – cresceu mais de três vezes no mesmo período.
Minas Gerais emerge como o caso mais crítico do país. O estado lidera o ranking de área urbanizada em terrenos acidentados. O exemplo de Juiz de Fora, na Zona da Mata, onde foram confirmadas 65 mortes relacionadas aos temporais que atingiram a cidade desde 23 de fevereiro, é emblemático. Já é a terceira cidade do Brasil com maior ocupação em encostas, atrás apenas das metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo.
Mas o perigo não vem apenas do alto. A ocupação de áreas próximas a drenagens naturais – a menos de três metros de altura em relação a rios e córregos – aumentou 145% em 40 anos. Cidades como Brasília, que hoje ocupa a terceira posição nesse ranking de vulnerabilidade a enchentes, mostram que nem o planejamento urbanístico foi capaz de conter a pressão.
A capital federal aparece em outro recorte do MapBiomas, o do crescimento das favelas. Das cinco que mais expandiram sua área de ocupação entre 1985 e 2024, quatro delas estão em Brasília. Nessas comunidades pelo país, a ocupação de áreas de risco aumenta em um ritmo muito superior à média nacional. A expansão de 150% em áreas de alta declividade e de 200% perto de cursos d’água dentro das favelas demonstra que a falta de políticas habitacionais sólidas empurrou os mais pobres para as frentes de batalha das mudanças climáticas.
Os números são inequívocos e deixam algumas lições. A primeira: a geografia é soberana. Não se pode planejar cidades sem respeitar o fluxo das águas e a estabilidade das encostas. A segunda diz respeito à segurança hídrica: expandir municípios em áreas de escassez hídrica, como ocorreu em 25% do avanço urbano recente, é condenar a população ao racionamento e à sede. E a terceira pode ser resumida como uma questão de justiça climática. A urbanização das favelas precisa ser tratada como prioridade de defesa civil, não apenas de assistência social.
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O mapeamento do MapBiomas vai além de um conjunto de estatísticas; é um mapa da nossa negligência. Se não houver uma guinada radical no planejamento das cidades brasileiras, continuaremos a assistir, a cada fim de verão, ao mesmo roteiro de lama e luto.