editorial

Diante do abismo nuclear

Estamos assistindo ao mundo trocar a estabilidade previsível da diplomacia pela volatilidade do cálculo militar puro

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A história registrou nesta quinta-feira (5/2) um daqueles silêncios ensurdecedores que antecedem as grandes tempestades. O fim oficial da vigência do acordo de controle de armas nucleares entre os Estados Unidos e a Rússia – conhecido como New Start – desmorona o último pilar que sustentava a arquitetura de segurança global herdada da Guerra Fria.

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A partir de hoje, sem que um tratado sucessor tenha sido assinado, as duas maiores potências militares do planeta estão, pela primeira vez em décadas, livres de qualquer amarra legal para expandir seus arsenais estratégicos.


A extinção das inspeções mútuas e dos limites para a implantação de ogivas deixa o mundo à beira de um abismo perigosíssimo. O princípio do “confie, mas verifique", que norteou as relações entre o Kremlin e a Casa Branca nas últimas décadas, agora cede lugar à paranoia estratégica. Sem a transparência dos dados compartilhados, cada movimento de um lado será interpretado pelo outro como uma ameaça existencial iminente, alimentando uma corrida armamentista baseada não na dissuasão racional, mas no medo do desconhecido.


Este vácuo normativo não poderia ocorrer em momento pior. O cenário internacional já se encontra convulsionado pela agressividade geopolítica no Ártico, pela tensão pré-bélica no Irã e no Golfo Pérsico, pela interminável guerra entre Rússia e Ucrânia, pelo conflito em Gaza e pelo enfraquecimento sistêmico de organismos como a ONU e a OEA. A queda do tratado nuclear funciona, portanto, como um acelerador do caos. Ela envia um sinal desastroso para potências nucleares intermediárias, como a China, a França e o Reino Unido, e para aspirantes atômicos, como o Irã: se as superpotências não respeitam mais regras, por que os outros deveriam?


O risco imediato é a exacerbação da “lei da selva” nas relações internacionais. Sem instituições multilaterais e tratados que orientem a conduta das nações, a força bruta torna-se a única moeda de troca válida. Estamos assistindo ao mundo trocar a estabilidade previsível da diplomacia pela volatilidade do cálculo militar puro. Além disso, a introdução de novas tecnologias, como mísseis hipersônicos e armas autônomas geridas por inteligência artificial, num ambiente sem regulação, torna o equilíbrio do terror muito mais frágil do que era no século passado. O tempo de reação para evitar um cataclismo acidental, que antes era de minutos, agora pode ser questão de segundos.


Para o Brasil, signatário do Tratado de Tlatelolco – que criou na América Latina e no Caribe a primeira zona livre de armas nucleares em uma região povoada – e defensor histórico do desarmamento e da não proliferação, esse retrocesso civilizatório deve ser observado com apreensão. O fim do acordo bilateral russo-americano é uma derrota para toda a humanidade, pois retira o “lastro” que impedia o sistema internacional de virar completamente de cabeça para baixo.

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A comunidade global não pode aceitar a fatalidade desse divórcio nuclear. É urgente que as potências regionais, a União Europeia e o Sul Global pressionem Washington e Moscou a retornarem à mesa de negociações. Não por simpatia ideológica, claro, mas por instinto de sobrevivência. A partir desta quinta-feira, o mundo ficou inegavelmente mais perigoso, menor e mais sombrio. Reconstruir as pontes de diálogo é um imperativo para a segurança do planeta.

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