RAÍZES DA CRISE
Envolvido pela mentira que alimenta a convicção sobre a inesgotável condição dos recursos da natureza, o ser humano não está sabendo lidar com limites
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Siga noA crise ecológica pode ser compreendida a partir de múltiplas raízes, a exemplo dos enraizamentos apontados pelo papa Francisco na Carta Encíclica Laudato Si’ sobre o paradigma tecnocrático e o humano. Singularidade que torna urgente a interpelação advinda do horizonte da Quaresma: o convite para a conversão ecológica.
Assim, os sintomas da crise atual requerem pertinente abordagem da sua raiz humana. O modo de se conceber e de viver a vida está incontestavelmente desordenado, produzindo descompassos que incluem as relações do ser humano consigo mesmo, com Deus Criador, com o próximo e com o meio ambiente, arruinando, consequentemente, a casa comum.
O caminho quaresmal propõe uma lúcida revisão a respeito do lugar que o ser humano tem ocupado no mundo, a partir do paradigma tecnocrático. O poder da tecnologia, com seus avanços incríveis e assustadores, representa um progresso que revela a velocidade e as incidências das mudanças, desafiando o ser humano a assumir novas posturas humanísticas, com permanente revisão de escolhas e de posicionamentos.
Reconhecidos os avanços da ciência e da tecnologia, reverencie-se a criatividade da inteligência humana, agraciada por Deus. A origem desta dádiva inclui o desafio existencial de se conquistar uma estatura que não seja engolida ou dizimada pelo que é próprio da ciência e da tecnologia. A superação natural, e necessária, de determinadas condições materiais não pode exercer uma hegemonia que apaga a singularidade do ser humano.
Importa muito e sempre a tecnociência como possibilidade de desenvolvimento de invenções valiosas, para melhorar a qualidade da vida de cada pessoa. Mas é o ser humano quem tem a condição de qualificar estes processos, ao dar beleza às coisas. A tecnociência transmite, pois, um enorme poder, particularmente, àqueles que detêm o recurso econômico.
Evidente que esse tremendo poder conquistado pela humanidade na contemporaneidade não dispensa a preocupação e o compromisso de seu uso adequado, para o bem de todos. Neste ponto, cabe reconhecer a necessidade de se avaliar o atual modo de se viver, apontando a inquestionável urgência de um novo estilo de vida.
O exercício do poder, advindo da tecnociência, levanta a preocupação em relação àqueles que têm em suas mãos este controle. Ilusório e perigoso nesta pauta é considerar que a realidade, o bem e a verdade podem desabrochar espontaneamente da própria tecnologia e da economia, adverte o papa Francisco na Laudato Si’.
O crescimento tecnológico não foi acompanhado pela maturação adequada do ser humano. Quanto menor a estatura humana e espiritual maior será o encantamento pelo poder em exercer altos cargos e receber titularidades, bastando-lhe, não raramente, um desempenho pífio de suas responsabilidades, produzindo ações sem alcances humanísticos ou com força de transformação de realidades sociais e institucionais. Atua-se, pela pequenez da estatura humana, de modo irrelevante, ao sabor de vaidades e de caprichos ideológicos perigosos.
Como sublinha o papa Francisco na Encíclica Laudato Si’, o ser humano não é plenamente autônomo, crescendo, assim, a possibilidade de mau uso do poder que se tem, abrindo espaço para a vivência de uma liberdade que adoece, entregue às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo e da violência brutal. Este despreparo humanístico, camuflado no uso de tecnologias e avanços, passa desapercebido, acentuando a crise ecológica de raiz humana.
A ação predatória na natureza alimenta a perspectiva de um crescimento infinito e ilimitado, atendendo a ilusão econômica de enriquecimento, própria do horizonte do mercado financeiro e tecnológico. Envolvido pela mentira que alimenta a convicção sobre a inesgotável condição dos recursos da natureza, o ser humano não está sabendo lidar com limites. Adota-se um modelo de compreensão que justifica a elaboração de metodologias e objetivos, com resultados que afetam a realidade humana e social, aceitando e perpetrando a degradação do meio ambiente. Somente em um caminho e em uma experiência de profunda conversão é que se conquistará grandeza humanística para o exercício do poder.
A conquista de clarividências humanísticas é indispensável, fruto de um processo de conversão e qualificação espiritual para desbloquear estilos de vida, apostando em novos modelos, exequíveis com mudanças profundas de mentalidade e do modo de estabelecer laços com o conjunto da criação.
Nesta direção, para reconfiguração da raiz humana da crise ecológica, é necessário acreditar, a partir de valores e princípios inegociáveis e consistentes, em uma nova perspectiva cultural, capaz de fazer usufruto do paradigma tecnocrático como mero instrumento, sem dominação, saindo da jaula de imposição hegemônica de sua lógica.
Sem virar as costas a esta realidade, ouse-se pensar uma saída pela dinâmica da contemplação, envolvendo um profundo silêncio, revelador da beleza da criação, fomentando estilos de vida mais libertos das lógicas tecnocráticas, fazendo valer mais a grandeza do sentido e, menos, os resultados econômicos e financeiros, fontes também de degradações sociais e humanísticas. A raiz humana da crise ecológica tem uma porta de saída na contemplação, alavancando um novo estilo de vida, sinalizado pela simplicidade, frugalidade e leveza.
DOM WALMOR OLIVEIRA DE AZEVEDO
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte