Mortes maternas são sinal de alerta
Quatro de cada cinco países estão cada vez mais afastados das metas globais de melhoria da sobrevivência materna
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Siga noO risco de uma mulher morrer por causas relacionadas à maternidade em países em desenvolvimento é 120 vezes maior se compararmos com mulheres na mesma situação em países onde a renda é melhor. Em todo o mundo, 99% das mortes maternas ocorrem nos países de baixa renda. Todos os dias, cerca de 830 mulheres morrem em todo o mundo por complicações relacionadas à gravidez ou parto, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
De posse desses dados, a partir de 7 de abril, Dia Mundial de Saúde, uma campanha começa a ser divulgada em todo o país durante os próximos 365 dias. Com o slogan “Inícios saudáveis, futuros esperançosos”, o objetivo é chamar a atenção de governos, da comunidade da saúde e da sociedade para a importância de se investir em políticas que reduzam drasticamente tanto as mortes maternas quanto as neonatais. No caso dos bebês, mais de dois milhões morrem no primeiro mês de vida e milhões “nascem” mortos.
O Brasil está a anos-luz de distância das metas propostas pelas Nações Unidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Até 2030, a meta do país é reduzir a razão de mortalidade materna (RMM) para, no máximo, 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos.
Mas como reduzir essa estatística se, em anos anteriores, os índices brasileiros giraram em torno de 110 mortes de mulheres a cada 100 mil nascidos vivos (2021), 71,9 (2020) e 57,9 mortes (2019)? Ou seja, estamos em uma crescente quando deveríamos estar diminuindo esses números. Mesmo se repetíssemos os índices de 2019, estaríamos ainda trabalhando praticamente com o dobro de mortes de mulheres do que o acordado para 2030.
O mais triste disso é que aproximadamente uma morte é evitável a cada sete segundos e estamos desperdiçando essa chance. Quatro de cada cinco países estão cada vez mais afastados das metas globais de melhoria da sobrevivência materna. No caso do Brasil, de acordo com informações da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) do Ministério da Saúde, aproximadamente 15% das gestantes são diagnosticadas com pré-eclâmpsia, complicação da gravidez caracterizada por pressão alta e presença de proteína na urina, uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal, sendo responsável por cerca de 80 mil mortes maternas e 500 mil mortes infantis no mundo.
Fato é que falar em sobrevivência materna é tocar em temas caros aos governos ou que, pelo menos, deveria ser prioridade nas rodas de discussão das instituições e em organizações não-governamentais. Mas o que se vê é a escassez de consultas de pré-natal, que devem ser de, no mínimo, seis, a falta de apoio físico e emocional às parturientes, antes, durante e no pós-parto, bem como aos recém-nascidos.
Além disso, é importante priorizar o bem-estar de longo prazo das mulheres, seja investindo na estrutura dos serviços – maternidades, hospitais pós-parto (puerpério), casas que promovem a doação de leite materno – assim como nos profissionais de saúde que prestam assistência médica a esse público: ginecologistas, obstetras, pediatras, equipes de enfermagem, psicólogos etc. O compromisso precisa ser coletivo. Caso contrário, vamos assistir à elevação no número de mortes maternas e neonatais, índice que já se apresenta alto em grande parte dos países em desenvolvimento.