x
Editorial

Redes, direitos humanos e educação dos filhos

Pessoas de todas as idades mantêm subculturas pautadas pelo ódio, misoginia, racismo, antissemitismo e até mesmo a defesa do neonazismo, sem qualquer disfarce

Publicidade
Carregando...

Para além do seu potencial artístico e de entretenimento, o audiovisual, a partir de filmes e séries, tem como premissa o relevo de pautas relevantes para a sociedade. A importância de produções como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, está justamente no seu diálogo com a realidade que vivenciamos, discutindo passado – como no caso do longa brasileiro vencedor do Oscar –, presente e até o futuro.


Campeão de audiência da Netflix neste ano, a minissérie britânica “Adolescência” – dirigida por Philip Barantini e criada pelo também ator na trama, Stephen Graham – traz à tona uma pauta de urgente discussão em nosso espaço social, como já abordamos neste espaço. Sem spoilers aqui, a produção evidencia o assassinato de uma adolescente pelo seu colega de escola, Jamie Miller (Owen Cooper), de apenas 13 anos.


Ao contrário da maioria das séries policiais, a trama não se concentra na tentativa de descobrir o autor do crime. Pelo contrário, logo no primeiro episódio, os investigadores apresentam provas contundentes de que Miller tirou a vida de sua colega. O enredo se desenvolve a partir do motivo que levou o adolescente a cometer o feminicídio.


O ponto principal discutido pela minissérie gira em torno do potencial destruidor que a internet tem quando mal utilizada, sobretudo por pessoas em período de formação da ética e dos valores, como adolescentes. Em um mundo cada vez mais conectado, famílias, escolas e todas as instâncias da nossa sociedade têm a obrigação de acompanhar o que os jovens consomem na palma da mão.


Em primeiro lugar, é preciso entender que o problema não se resume mais somente à deep web, camada restrita da internet, não acessada por navegadores convencionais, onde pessoas de todas as idades, mas principalmente jovens, mantêm subculturas pautadas pelo ódio, misoginia, racismo, antissemitismo e até mesmo a defesa escancarada do neonazismo, sem qualquer disfarce.


A partir da flexibilidade dos termos de uso das redes sociais, essas subculturas, cada vez mais, ocupam espaços nunca antes habitados por elas. Essa expansão dos tentáculos da deep web captura jovens vulneráveis a esse tipo de linguagem, quase sempre muito direta e simplória, usando o humor como gatilho para atrair adolescentes conectados.


Não é difícil citar exemplos. Desde que foi adquirido por Elon Musk, o X (antigo Twitter) se tornou campo fértil para núcleos virtuais pautados pelo ódio. A rede social hoje exibe significativamente mais conteúdos segregadores de todo tipo, diante da defesa da alegada “liberdade de expressão”, que, na verdade, somente é usada para justificar o apoio à degradação humana. O mesmo vale para o compartilhamento de pornografia no mesmo site.


Problema semelhante acontece na rede social chinesa TikTok, essa com potencial ainda mais destruidor pela sua maior aderência com o público jovem. Na prática, ambos funcionam com algoritmos bem definidos, que apresentam ao seu consumidor, independentemente da idade, conteúdos com maior potencial de engajamento.


Assim, é muito mais eficiente, pela ótica da audiência e do lucro, apresentar ao usuário um conteúdo polêmico, porém raso o suficiente para seduzir o usuário a dar like ou compartilhar. Com o passar do tempo, aquele usuário passa a conviver em bolhas sociais, entendendo aquele espaço como extensão e representação do mundo real. Neste contexto, o famoso meme entra como peça-chave para apresentar a crianças e adolescentes pensamentos misóginos de toda forma, que, posteriormente, podem abrir portas para outros tipos de preconceito.


A saída para o problema passa por uma linha tênue e bastante desafiadora para pais, comunidade escolar e autoridades. Todos têm a responsabilidade de intervir neste processo, ainda que haja a essencial necessidade de assegurar privacidade a esses jovens, principalmente aqueles na fase da puberdade.


Ainda que a privacidade seja fundamental, o diálogo sobre os direitos humanos se faz necessário em qualquer idade. Independentemente do algoritmo das redes sociais – que também devem ser responsabilizadas neste processo, como se prevê na elementar revisão do Marco Civil da Internet pelo STF –, crianças e adolescentes bem educados quanto à obrigação de respeitar as diferenças tendem a ser uma presa mais difícil para as subculturas citadas.

Tópicos relacionados:

redes

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay