Gerações ameaçadas pelo machismo
Além dos impactos individuais, dos emocionais aos socioeconômicos, há o risco de uma normalização coletiva das práticas de violência
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Siga noEntre março de 2015 e fevereiro deste ano, ocorreram 215 feminicídios no Distrito Federal. No último fim de semana, em menos de 48 horas, mais dois casos foram registrados. Em um deles, os filhos da vítima testemunharam o pai executar a mãe na madrugada de segunda, no Recanto das Emas.
Essa perversa realidade não é restrita ao Distrito Federal. Em 2024, Minas Gerais ocupava a segunda posição, atrás apenas de São Paulo. Em todo o país, 92% dos atos de violência contra mulher têm testemunhas. Nos últimos 12 meses, 21,4 milhões de mulheres foram agredidas das mais diferentes formas, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, sem qualquer tipo de constrangimento. Amigos ou conhecidos presenciaram 47,3% dos casos de agressões; filhos, 27%; outros parentes, 12,4%.
A violência testemunhada pelos filhos da vítima (crianças ou adolescentes) eleva a gravidade do fato. Os danos emocionais em jovens que presenciam as cenas de violência exigem uma forte rede de apoio. Além dos impactos individuais, dos emocionais aos socioeconômicos, há o risco de uma normalização coletiva das práticas de violência. "A criança ou o adolescente que assiste à morte da mãe pelo pai precisa desse cuidado para que não se torne um jovem misógino, homicida, feminicida ou entregue-se a uma depressão severa", alerta a psicóloga Kleytiane da Silva de Oliveira.
A possibilidade de repetição e, consequentemente, perpetuação das práticas de violência de gênero se torna ainda mais desafiante em um momento de aumento de crimes do tipo. Diante da escalada dos casos, em outubro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 14.717, que estabelece pensão para os órfãos do feminicídio. A medida vale para menores de idade que vivem em famílias com renda mensal per capita de 25% do salário mínimo. É bem-vinda, mas não suficiente, considerando que os desdobramentos de um feminicídio não são apenas financeiros.
Da mesma forma, benefícios sociais, medidas protetivas e aumento da pena para os feminicidas são necessários, mas não transformam o comportamento dos homens. “Os homens criaram uma estrutura em que crescem com uma relação de poder e de desmerecimento do gênero feminino”, diz a advogada Andreia Lima Aires, especialista em violência doméstica intrafamiliar e ex-presidente da Comissão de Violência Doméstica da OAB-DF. Para ela, esse comportamento, presenciado, em muitos casos, desde a infância, “resulta de uma situação histórica do patriarcado e “até mesmo da objetificação da mulher”.
As providências do poder público têm sido insuficientes para conter a ira dos machistas. As políticas públicas também não são capazes de impedir os assassinatos de mulheres, uma vez que os crimes ocorrem, em sua maioria, na casa da vítima. Iniciativas para conter o ímpeto agressivo dos homens não têm êxitos expressivos. Essa frustração poderá ser permanente enquanto não houver uma educação que elimine a falsa concepção de que os homens são superiores às mulheres. Há gerações de jovens crescendo no Brasil convencidas desses valores e presenciando a colocação deles em prática. O combate à violência de gênero não pode fechar os olhos para isso.