Yanomami a longa espera por justiça

Quase quatro anos após a emergência sanitária, comunidades ainda aguardam respostas sobre a crise que levou crianças e idosos à desnutrição grave. Novas denúncias de invasão mantêm o território sob ameaça

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A emergência apareceu nos corpos. Crianças chegaram aos serviços de saúde com desnutrição grave. Idosos também precisaram de atendimento. Nas comunidades yanomamis, a fome se somava à malária, à pneumonia e à diarreia, enquanto o avanço do garimpo e a precariedade da assistência tornavam mais difícil tratar quem adoecia. Em janeiro de 2023, a declaração de emergência sanitária deu dimensão nacional a uma crise que já havia deixado muitas mortes no território.

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Quase quatro anos depois, houve operações contra os invasores, reforço das equipes de saúde e melhora em parte dos indicadores. Mas ainda falta uma resposta sobre as responsabilidades pela tragédia. As investigações abertas naquele período não chegaram a uma conclusão. Para as comunidades, a espera ocorre ao mesmo tempo que o esforço para recuperar a saúde e proteger a terra.

Os registros oficiais contabilizaram quase 1.300 mortes de yanomamis entre 2019 e 2022, durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Gestores da saúde indígena apontam subnotificação. O número não permite, por si só, atribuir cada morte à ação ou à omissão de uma autoridade. É justamente essa relação que as apurações precisam esclarecer: o que o Estado sabia, quais providências tomou e quais deixou de tomar.

A presença de garimpeiros agravou a situação na maior terra indígena do país. Na época da declaração de emergência, estimava-se que cerca de 20 mil invasores estivessem no território. A exploração ilegal de ouro destruía áreas, contaminava cursos d’água e comprometia as condições de vida das comunidades. A deterioração da assistência médica ampliava os efeitos dessa pressão.

A distância também pesava. Em partes do território, chegar a uma unidade de saúde depende de transporte aéreo. Uma doença que exige atendimento rápido pode se agravar enquanto o socorro não chega. A desnutrição torna o organismo mais vulnerável; as infecções dificultam a recuperação. Foi nesse ambiente que crianças e idosos precisaram ser removidos para tratamento.

As operações para expulsar os garimpeiros começaram em fevereiro de 2023. O governo Lula ampliou a assistência médica e a vacinação, além de iniciar ações de recuperação de áreas degradadas. A presença do poder público voltou a crescer, sem que isso encerrasse a crise ou dispensasse a proteção permanente do território.

Os dados do Ministério da Saúde mostram avanços. O total de mortes caiu de 224 para 158 na comparação entre os primeiros semestres de 2023 e 2026. Os óbitos por desnutrição diminuíram 75,7%. Não houve registro de mortes por malária no primeiro semestre deste ano, embora tenham sido confirmados 6,8 mil casos da doença. A melhora convive, portanto, com uma demanda persistente por atendimento.

Alan Chaves/AFP


A resposta que não veio

A responsabilização criminal segue outro ritmo. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 27 de outubro revelou que o inquérito da Polícia Federal sobre a suspeita de genocídio não avançou. No Ministério Público Federal, a coleta de depoimentos continua, mas a expectativa é de que o procedimento não termine em 2026. Os dois tramitam sob sigilo.

A apuração do jornal também expôs divergências entre investigadores da PF. Em 2024, discutia-se como demonstrar a intenção de destruir o povo yanomami e qual seria o peso das omissões das autoridades. Até a publicação, não havia relatório conclusivo que atribuísse ou afastasse responsabilidades pela crise.

O inquérito passou por diferentes delegados. A possibilidade de alcançar o próprio Bolsonaro por suspeita de genocídio era apontada por pessoas ouvidas pelo jornal como uma das razões

para as mudanças na condução do caso. Não há, nesses relatos, uma conclusão sobre a responsabilidade criminal do ex-presidente.

No MPF, procuradores em Roraima ouviram indígenas de quatro regiões e ex-integrantes do governo anterior. Estão previstas visitas a outras duas regiões em novembro. Ainda será necessário reunir depoimentos de quem viveu a crise e examinar a atuação de quem tinha o dever de responder a ela.

Bolsonaro nega ter cometido crimes. Em janeiro de 2023, após a declaração de emergência, chamou as acusações de genocídio de “farsa da esquerda”. Afirmou que a saúde indígena havia sido prioridade de sua gestão, especialmente durante a pandemia. A ex-ministra dos Direitos Humanos Damares Alves também negou omissão naquele período e classificou a desnutrição de crianças indígenas como um “dilema histórico”.

Mulher yanomami e filhos no aeródromo de Surucucu, em Roraima, em janeiro de 2023, quando foi declarada emergência sanitária; quase quatro anos depois, investigações sobre a crise seguem sem conclusão
Mulher yanomami e filhos no aeródromo de Surucucu, em Roraima, em janeiro de 2023, quando foi declarada emergência sanitária; quase quatro anos depois, investigações sobre a crise seguem sem conclusão fotos Alan Chaves/AFP


O temor de novas invasões


Enquanto aguardam o desfecho das investigações, as comunidades voltam a relatar ameaças. Um documento da Urihi Associação Yanomami, encaminhado às autoridades em 22 de outubro, denuncia negociação e loteamento de áreas para exploração mineral ilegal, além de possíveis incursões em regiões já atingidas pelo garimpo.

Segundo a associação, os contatos e as ameaças se intensificaram depois do primeiro turno da eleição presidencial. Os envolvidos estariam agindo na expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL). A relação com o cenário eleitoral faz parte da denúncia indígena, não de uma conclusão policial sobre participação ou responsabilidade do candidato.


A Repórter Brasil, que teve acesso ao documento, informou que o relatório foi enviado à PF, ao MPF, à Funai e ao Ibama. Também registrou relatos de contatos com jovens indígenas para atividades ligadas à logística da mineração ilegal. As denúncias ainda precisam ser apuradas.

Em novembro, se o cronograma previsto for cumprido, procuradores chegarão a outras duas regiões para colher depoimentos. As comunidades terão mais uma oportunidade de contar o que viveram. A espera por uma conclusão continuará, acompanhada de uma necessidade que não pode aguardar o encerramento dos inquéritos: manter o atendimento de saúde e impedir novas invasões.

Criança yanomami com desnutrição é tratada no Hospital Santo Antônio, em Boa Vista, em  janeiro de 2024, um ano após a declaração de emergência sanitária no território
Criança yanomami com desnutrição é tratada no Hospital Santo Antônio, em Boa Vista, em janeiro de 2024, um ano após a declaração de emergência sanitária no território Alan Chaves/AFP

Tragédia persistente

2019 –2022

Crise se agrava
Garimpo e deterioração da assistência médica agravam a crise no governo Bolsonaro. Quase 1.300 mortes são registradas.

Janeiro de 2023

Emergência
O governo Lula declara emergência sanitária. PF e MPF iniciam investigações sobre a crise.

Fevereiro 2023

Retirada dos invasores
Começam as operações contra o garimpo e a ampliação da assistência aos indígenas. 435 mortes foram registradas no primeiro ano da resposta emergencial.

2024
óbitosdiminuem
As mortes caem para 347, mas a emergência continua.

2025
mortes aumentam
São registrados 356 óbitos. O acumulado desde 2023 chega a 1.138.

outubro de 2026

novas ameaças
A Urihi denuncia possível retorno de garimpeiros e negociação de áreas para exploração ilegal.

O ALERTA DA URIHI

Relatório alerta para retorno do garimpo e negociação de áreas ilegais

Possível volta de invasores

A Urihi Associação Yanomami reuniu informações de comunidades indígenas sobre possíveis movimentos de retorno de garimpeiros a áreas anteriormente utilizadas para exploração mineral. O alerta indica que a retirada de invasores não encerrou a pressão sobre o território.

Atenção à região de Xitei

O documento destaca a região de Xitei como uma das áreas sob ameaça. Os relatos obtidos pela associação apontam movimentações ligadas à retomada da exploração ilegal, em um território ainda submetido à emergência em saúde pública.

Loteamento e negociação de áreas


Além da atividade garimpeira identificada, o relatório menciona informações sobre um processo de loteamento e negociação de áreas destinadas à mineração ilegal. A denúncia aponta, portanto, para preparativos de ocupação e exploração, além da presença de invasores.

Expectativa de mudança no governo


Segundo a Urihi, as negociações estavam relacionadas à expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial. A associação atribui aos envolvidos a intenção de ampliar ou iniciar frentes de exploração a partir de janeiro de 2027.

Alerta encaminhado às autoridades

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Finalizado em outubro, o relatório foi enviado à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal, ao Ibama, à Funai e à Casa de Governo em Roraima, unidade responsável por liderar a retomada de áreas invadidas. As informações constituem denúncias da associação e dependem de apuração pelos órgãos competentes.

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