VIOLÊNCIA

O lado sombrio de Milagres: 19 jovens somem no paraíso de Alagoas

Em São Miguel dos Milagres (AL), turismo de luxo convive com outro lado, em que trabalhadores ficam à mercê de facções criminosas

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A quatro minutos da praia Porto da Rua, em São Miguel dos Milagres (AL), turistas e moradores se preparavam para uma noite de alta gastronomia, música ao vivo e boa conversa. Pouco antes das 18h, um restaurante de alto padrão ajustava os últimos detalhes do serviço. Naquele 5 de dezembro de 2025, os garçons estavam a postos, menos Glauco Gabriel Omena, de 20 anos. Ele não chegou ao trabalho e não foi mais visto. Três dias depois, Maria Vitória Chaves, de 22, também sumiu. Em outubro, outros dois casos. Em pouco mais de dois anos, 19 jovens desapareceram na região. Mas a localidade luxuosa, que atrai turistas do Brasil e do exterior, tem um outro lado, no qual se age a engrenagem do tráfico de drogas e atuam facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV).

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São Miguel dos Milagres integra a chamada Rota Ecológica, junto a Porto de Pedras e Passo de Camaragibe. O trecho do litoral alagoano tem pouco mais de 32 mil habitantes, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ali, desfrutar o sol e a praia é a preferência de 62% dos visitantes, de acordo com o Ministério do Turismo. Um destino que faz parte do ranking das casas mais exclusivas e luxuosas para alugar no réveillon. A pousada Alagoas Villa 2, à beira-mar, tem diárias que chegam a R$ 60 mil. Esse é o lado do luxo.

No outro, em que vivem pessoas modestas e trabalhadores locais, que em boa parte dependem da indústria do turismo, era onde Glauco mantinha uma rotina comum de vida. Trabalhava das 18h às 22h no restaurante. Percorria cerca de 11km entre a Barra de Camaragibe — onde morava — e o serviço.

Na véspera do desaparecimento, em 4 de dezembro de 2025, ele esteve em uma clínica para exames admissionais. Ao sair, foi abordado por adolescentes armados, que levaram sua motocicleta. Glauco prestou queixa, a polícia apreendeu os menores e recuperou o veículo. Os suspeitos, porém, saíram pela porta da frente da delegacia.

A última notícia sobre Glauco surgiu pouco antes do expediente. O irmão mais novo do garçom combinou com ele a entrega de um carregador de celular em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Pegou-o e depois disso nunca mais apareceu.

Na companhia de três homens

A movimentação turística em São Miguel dos Milagres levou a recifense Maria Vitória a se mudar para a região. Garota de programa, trabalhava em um bar no Centro da cidade. Conciliava os atendimentos noturnos com um relacionamento descrito como "estranho" por amigas, que preferiram não se identificar na conversa que tiveram com o Correio.

Horas antes de desaparecer, em 8 de dezembro de 2025, Maria Vitória publicou uma sequência de vídeos no WhatsApp, obtida pelo Correio, que assustou as colegas. Em um deles, postado às 22h48, ela aparece na companhia de três homens, incluindo aquele com o qual ela saía. O grupo bebe, fuma, canta e faz o gesto em "V" com os dedos, uma alusão ao CV.

Investigações preliminares indicam que dois desses jovens são suspeitos de envolvimento no desaparecimento de Glauco. Um deles é apelidado de "Terror dos Milagres".

Uma amiga que esteve com Maria Vitória naquele dia relatou à polícia que o homem com quem ela saía a convidou para uma área de mata próxima ao bar para "usar drogas ou manter relação sexual" — disse, sem convicção. Maria Vitória aceitou.

Minutos depois, quatro homens, em duas motocicletas, seguiram pelo mesmo caminho. Todos retornaram — incluindo o homem com quem ela saía. Maria não voltou. Outra colega afirma que, dias depois, o rapaz teria se gabado de tê-la assassinado.

"Dizia para todos que a matou, pois mulher dele não ia ser prostituta. Mas não deu em nada", lamenta a colega. A família de Maria Vitória viajou a Alagoas duas vezes em busca de pistas do desaparecimento. "A mãe [dela] entregou nas mãos de Deus", resumiu a amiga.

Antes do desaparecimento de Maria Vitória, cinco casos semelhantes notificados em 2024 intrigaram as autoridades locais. Os episódios saíram do âmbito litoral e chegaram à cúpula do estado. Poucas foram as ações tomadas a respeito, afirmam parentes em um grupo restrito de WhatsApp.

Número pode ser bem maior

Há um ano à frente da recém-inaugurada Coordenação de Desaparecimento de Pessoas de Alagoas, o delegado Ronilson Medeiros e mais três agentes acompanham as estatísticas de desaparecimento naquela região de turismo de endinheirados. Relatórios, tabelas, gráficos e estudos de caso são serviço diário. São Miguel dos Milagres acendeu o alerta.

"É altamente preocupante, tendo em vista a extensão do município, quantidade de habitantes e as suspeitas por trás dos desaparecimentos, que indicam, na maioria dos casos, o que chamamos de desaparecimento criminoso", afirma.

No quadro investigativo, estão alinhadas as fotos dos 19 jovens. Embaixo de cada rosto, um conjunto seco de informações: nome completo, idade, local e data de desaparecimento. Os perfis mostram traços comuns: todos têm entre 14 e 27 anos, moram em áreas de baixa renda reconhecidas pela precariedade.

Em 2024, quatro pessoas sumiram. Em 2025, foram 11 e, de janeiro a abril deste ano, mais três. O número verdadeiro, porém, pode ser bem maior, conforme explica o delegado.

"Sabemos que há subnotificação por parte das famílias das vítimas. Os parentes temem e evitam até o registro da queixa", explica.

Dos 19 desaparecidos, apenas 15 tiveram as fotos divulgadas pelos familiares
Dos 19 desaparecidos, apenas 15 tiveram as fotos divulgadas pelos familiares Lucas Pacífico/CB/D.A Press

Desaparecimentos criminosos

Há um padrão nos desaparecimentos, conforme apontam as investigações. Os casos são tratados como desaparecimento criminoso. Os jovens entraram no radar do tráfico. Seriam usuários de drogas, integrantes de grupos rivais ou, até mesmo, mantiveram vínculos considerados indevidos.

A hipótese ganha corpo com a localização de dois dos desaparecidos. Andreas Denicio Borges Barros tinha 14 anos quando sumiu no Centro de São Miguel dos Milagres, em 27 de fevereiro. Vinte dias depois, foi encontrado em uma cova rasa na Fazenda Salema, a 7km do ponto onde foi visto pela última vez. A polícia trata como execução ligada ao "tribunal do crime".

João Victor Pinto, de 18, servente de pedreiro, desapareceu em 6 de abril de 2025, em Porto de Pedras. Nove dias depois, o corpo apareceu no Rio Manguaba, em estado avançado de decomposição. A identificação levou quase um mês. Peritos da Polícia Científica recorreram à técnicas avançadas de análise genética, cruzando o material coletado do corpo com amostras biológicas fornecidas pela mãe.

"Podemos concluir, com o achado desses dois corpos, que há vestígios de execução, o que indica possível desaparecimento criminoso. Pode se dar por facções criminosas ou pelo próprio estado. Este é o grande desafio das autoridades de segurança pública, que é investigar e apresentar às famílias e à sociedade uma resposta eficiente. A dor do desaparecimento de um filho, de um pai, de um companheiro, ocasiona um ciclo de luto permanente, desestruturando uma família, uma comunidade, promovendo medo, insegurança e desesperança", destacou a promotora Marluce Falcão, coordenadora do Programa de Localização e Identificação de Pessoas Desaparecidas (PLID), do Ministério Público de Alagoas (MP-AL).

O PLID atua em duas frentes: a primeira, no apoio familiar e na integração entre os órgãos de segurança, assistência social e saúde; a segunda, na organização e municiamento de um banco de dados unificado para cruzar informações de registros policiais, hospitais e abrigos, facilitando a identificação e o reencontro com parentes. Segundo a promotora, a Secretaria de Segurança Pública do estado (AAP-AL) foi demandada para uma investigação aprofundada em torno dos casos.

Vigilância de drones

O Mirante Alto do Cruzeiro, um pequeno morro no Alto da Boa Vista, é parada quase obrigatória para turistas em busca da melhor imagem de São Miguel dos Milagres. Em sites de viagem, a descrição é precisa: o acesso é gratuito, a estrutura simples e a vista é panorâmica.

A paisagem não interessa apenas aos visitantes. Ao contrário dos viajantes que recorrem à câmera do celular ou à máquina fotográfica, faccionados utilizam drones para monitorar a área. A atividade é divulgada pelo próprio grupo nas redes sociais. "Eles ficam com roupas camufladas e têm muitas armas", relata uma moradora.

Do alto, disfarçados, os criminosos identificam alvos, definem pontos de desova e trocam informações com lideranças do CV no Rio de Janeiro, berço e onde fica a chefia da facção. Entre mensagens, selam o método de execuções. Matar e ocultar o corpo é estratégia para reduzir rastros, dificultar o avanço das investigações e preservar a engrenagem do tráfico.

Com drones, criminosos observam a movimentação na região e identificam alvos
Com drones, criminosos observam a movimentação na região e identificam alvos (foto: Redes sociais)

"A não localização dos corpos alimenta a impunidade. Busco sempre obter informações da população sobre possíveis pontos, mas muitas denúncias chegam vazias", afirma o delegado Ronilson.

O poder dos assassinos torna reféns os próprios parentes dos desaparecidos. Há resistência até no registro de boletim de ocorrência. Dos 19 jovens com paradeiro incerto, somente familiares de 15 deles permitiram a divulgação do cartaz de busca.

A ausência do estado é motivo de reclamação dos parentes. A mãe de um dos jovem desaparecidos afirmou não saber a quem recorrer. "Me parece que as autoridades são coniventes. Já tentei várias conversas e nada", critica.

"Falamos de pessoas pobres e vulneráveis. Precisamos de uma integração do poder público e avanço nas políticas públicas para incentivar o registro policial e fazer com que os casos saiam da vala comum. O governo como um todo precisa ver o desaparecimento com outro olhar", enfatiza o delegado Ronilson.

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Dois dos corpos encontrados seguem no necrotério à espera de material genético para identificação. O impasse é a distância das possíveis famílias e a falta de recursos para chegar aos dois pontos de coleta, um em Maceió e outro em Arapiraca. Enquanto isso, há mães que não sabem o que sepultar.

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