A incômoda contenção da Europa diante da guerra no Irã fez Trump chamá-la de covarde crédito: MANDEL NGAN / AFP
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Há cerca de um ano, líderes europeus driblavam as bravatas de Donald Trump sobre o continente com afagos e presentes. Nas últimas semanas, o presidente americano acrescentou insultos às ameaças e frases de efeito.
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A incômoda contenção da Europa diante da guerra no Irã fez Trump chamá-la de covarde. Em um dos piores momentos da relação transatlântica, a única certeza é que ela promete piorar ainda mais.
A situação é complexa do lado europeu. Cinco semanas após o início dos bombardeios israelenses e americanos, os europeus não dão mostras de que irão participar de um conflito que consideram dispendioso, extemporâneo e impopular. Nem as franjas populistas locais, alinhadas ideologicamente a Trump, encaram o ônus de se envolver na guerra.
Na Alemanha, por exemplo, a AfD olhou para as pesquisas de opinião, que lidera, ao decidir não apoiar publicamente a ação do presidente americano. No mesmo período, mais de um analista notou o fato de a ultradireita ter amargado derrotas eleitorais na França e na Itália.
Da simples recusa a uma tentativa de reorganizar o fluxo comercial no estreito de Hormuz via ONU, a Europa andou de lado na discussão, mais preocupada com o preço da gasolina nos postos e com potenciais novas ondas de imigração e terrorismo do que com as provocações de Trump. O premiê britânico, Keir Starmer, por exemplo, fingiu não ter ouvido que não era "um Winston Churchill".
Nesta semana, Emmanuel Macron finalmente elevou o tom após ter seu nome citado em um jantar na Casa Branca. Na quarta-feira (1°), o presidente americano lembrou do tapa que o colega francês recebeu da mulher, Brigitte, em flagrante que ocupou as redes sociais no ano passado. Comentários que não são "nem elegantes nem apropriados" e que "não merecem resposta", declarou Macron durante visita à Coreia do Sul.
O plano pessoal, porém, veio depois do político. "Quando levamos as coisas a sério, não dizemos o contrário do que dissemos no dia anterior", afirmou o presidente francês das ameaças de Trump, renovadas "a cada manhã", sobre os EUA deixarem a Otan. "Estamos falando de guerra. Estamos falando hoje de mulheres e homens que estão em combate, de mulheres, homens e civis que estão sendo mortos."
Sublinhar a falta de seriedade na fala de Trump é um passo para Macron e para o continente. Até então, líderes europeus absorviam a virulência do americano, apenas sugerindo o custo geopolítico de aderir à guerra patrocinada por ele e Binyamin Netanyahu, de Israel.
O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, foi morto em um ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel no dia 28 de fevereiro de 2026. O anúncio, feito por autoridades americanas e israelenses, foi posteriormente confirmado pela mídia estatal iraniana, que declarou o líder “martirizado” e divulgou luto nacional
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O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, foi morto em um ataque militar conjunto dos Estados Unidos e de Israel no dia 28 de fevereiro de 2026. O anúncio, feito por autoridades americanas e israelenses, foi posteriormente confirmado pela mídia estatal iraniana, que declarou o líder “martirizado” e divulgou luto nacionalkhamenei.ir/Wikimédia Commons
O ataque aconteceu quando mísseis e aeronaves das forças dos EUA e de Israel bombardearam alvos na capital e em outras partes do Irã como parte de uma grande ofensiva militar que marcou uma escalada inédita no conflito entre Teerã, Washington e Tel Aviv.
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O ataque aconteceu quando mísseis e aeronaves das forças dos EUA e de Israel bombardearam alvos na capital e em outras partes do Irã como parte de uma grande ofensiva militar que marcou uma escalada inédita no conflito entre Teerã, Washington e Tel Aviv. Reprodução de vídeo TV Globo
Ali Khamenei, nome completo Ali Hosseini Khamenei, nasceu em 19 de abril de 1939 em Mashhad, no Irã, e foi uma das figuras centrais da política iraniana nas últimas décadas.
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Ali Khamenei, nome completo Ali Hosseini Khamenei, nasceu em 19 de abril de 1939 em Mashhad, no Irã, e foi uma das figuras centrais da política iraniana nas últimas décadas. Domínio Público/Wikimédia Commons
Religioso xiita de formação, Khamenei participou ativamente das mobilizações que derrubaram a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi e impulsionaram a Revolução Islâmica de 1979, que estabeleceu a República Islâmica do Irã sob liderança clerical.
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Religioso xiita de formação, Khamenei participou ativamente das mobilizações que derrubaram a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi e impulsionaram a Revolução Islâmica de 1979, que estabeleceu a República Islâmica do Irã sob liderança clerical. khamenei.ir/Wikimédia Commons
Durante os anos 1960 e 1970, antes da Revolução Islâmica, Ali Khamenei foi preso várias vezes pela polícia secreta do regime monárquico em razão de suas atividades políticas e de sua pregação crítica ao governo do xá.
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Durante os anos 1960 e 1970, antes da Revolução Islâmica, Ali Khamenei foi preso várias vezes pela polícia secreta do regime monárquico em razão de suas atividades políticas e de sua pregação crítica ao governo do xá. khamenei.ir/Wikimédia Commons
Durante os anos de formação da nova república, ele ocupou cargos importantes, incluindo o de membro do Conselho Revolucionário e de liderança militar nos primeiros anos do regime.
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Durante os anos de formação da nova república, ele ocupou cargos importantes, incluindo o de membro do Conselho Revolucionário e de liderança militar nos primeiros anos do regime.khamenei.ir/Wikimédia Commons
Em 1981, após o assassinato do presidente Mohammad-Ali Rajai por agentes da Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano, que tinha o apoio dos Estados Unidos, Khamenei foi eleito presidente do Irã.
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Em 1981, após o assassinato do presidente Mohammad-Ali Rajai por agentes da Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano, que tinha o apoio dos Estados Unidos, Khamenei foi eleito presidente do Irã.Domínio público/Wikimédia Commons
Khamenei consolidou sua posição política nesse período e intensificou seu papel dentro das instituições revolucionárias.
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Khamenei consolidou sua posição política nesse período e intensificou seu papel dentro das instituições revolucionárias. khamenei.ir/Wikimédia Commons
Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini (foto), líder máximo da Revolução Islâmica, morreu em 1989, Khamenei foi escolhido pela Assembleia de Especialistas para sucedê-lo como líder supremo do Irã, o cargo político e religioso mais alto do país conforme a constituição teocrática iraniana.
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Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini (foto), líder máximo da Revolução Islâmica, morreu em 1989, Khamenei foi escolhido pela Assembleia de Especialistas para sucedê-lo como líder supremo do Irã, o cargo político e religioso mais alto do país conforme a constituição teocrática iraniana.
Apesar de inicialmente não possuir o mesmo nível formal de hierarquia clerical que Khomeini, Ali Khamenei tornou-se o segundo líder supremo da República Islâmica, mantendo autoridade sobre as Forças Armadas, o judiciário e o poder político em geral.
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Apesar de inicialmente não possuir o mesmo nível formal de hierarquia clerical que Khomeini, Ali Khamenei tornou-se o segundo líder supremo da República Islâmica, mantendo autoridade sobre as Forças Armadas, o judiciário e o poder político em geral. khamenei.ir/Wikimédia Commons
Ao longo de seus quase 37 anos como líder supremo, Khamenei foi uma figura-chave na formulação da política interna e externa do Irã.
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Ao longo de seus quase 37 anos como líder supremo, Khamenei foi uma figura-chave na formulação da política interna e externa do Irã. khamenei.ir/Wikimédia Commons
Ele supervisionou o fortalecimento da Guarda Revolucionária Islâmica como instrumento de controle interno e de projeção de poder regional, apoiou redes de milícias e grupos aliados em países como Síria, Líbano, Iraque e Iêmen, e manteve uma postura de forte oposição aos Estados Unidos e a Israel.
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Ele supervisionou o fortalecimento da Guarda Revolucionária Islâmica como instrumento de controle interno e de projeção de poder regional, apoiou redes de milícias e grupos aliados em países como Síria, Líbano, Iraque e Iêmen, e manteve uma postura de forte oposição aos Estados Unidos e a Israel. khamenei.ir/Wikimédia Commons
Sua administração foi marcada por uma rígida repressão a dissidências internas, o endurecimento de políticas sociais conservadoras e a promoção de um programa nuclear estatal que levou a décadas de sanções e isolamento internacional.
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Sua administração foi marcada por uma rígida repressão a dissidências internas, o endurecimento de políticas sociais conservadoras e a promoção de um programa nuclear estatal que levou a décadas de sanções e isolamento internacional.Reprodução de vídeo CNN Brasil
Internamente, Khamenei enfrentou movimentos de protesto populares e críticas crescentes, especialmente após eleições controversas e crises econômicas prolongadas.
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Internamente, Khamenei enfrentou movimentos de protesto populares e críticas crescentes, especialmente após eleições controversas e crises econômicas prolongadas. Reprodução de vídeo CNN Brasil
Sua liderança foi ao mesmo tempo venerada por partes da população xiita e vista como autoritária e repressiva por opositores e observadores internacionais.
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Sua liderança foi ao mesmo tempo venerada por partes da população xiita e vista como autoritária e repressiva por opositores e observadores internacionais.Reprodução de vídeo CNN Brasil
Ali Khamenei tinha interesses culturais e intelectuais que surpreendiam alguns observadores por contraste com sua imagem austera. Desde jovem, ele demonstrou paixão por literatura, poesia e história. Relatos dão conta de que livros como â??Os Miseráveisâ?, clássico do francês Victor Hugo, foram marcantes para ele, considerados obras de grande-Reprodução de vÃdeo CNN Brasil"
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Ali Khamenei tinha interesses culturais e intelectuais que surpreendiam alguns observadores por contraste com sua imagem austera. Desde jovem, ele demonstrou paixão por literatura, poesia e história. Relatos dão conta de que livros como â??Os Miseráveisâ?, clássico do francês Victor Hugo, foram marcantes para ele, considerados obras de grande Reprodução de vÃdeo CNN Brasil
A morte de Khamenei, no contexto da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel, constitui um ponto de inflexão histórico para o Irã e para a dinâmica geopolítica regional, abrindo uma fase de incertezas sobre sucessão e futuras políticas internas e externas de Teerã.
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A morte de Khamenei, no contexto da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel, constitui um ponto de inflexão histórico para o Irã e para a dinâmica geopolítica regional, abrindo uma fase de incertezas sobre sucessão e futuras políticas internas e externas de Teerã. Reprodução de vídeo CNN Brasil
A ausência da Europa na guerra também é uma meia-verdade. Enquanto Trump chamava a Otan de "tigre de papel" no Truth Social, sua rede social, aviões americanos eram abastecidos no Reino Unido, e a ilha de Lajes, nos Açores portugueses, revivia seu papel logístico histórico em operações militares transatlânticas. Em Ramstein, na Alemanha, a coordenação de drones e ataques aéreos de longa distância era rotina em uma das maiores bases americanas fora dos EUA.
Bem mais do que "ações defensivas", como chegou a defender Starmer, no começo do conflito, tentando traçar um limite para o envolvimento europeu. Ou, como lembrou o jornal americano The Wall Street Journal, um lembrete do "preço que os EUA pagariam se retirassem totalmente sua presença militar do continente".
Até então, na visão de diplomatas europeus, "administrar o homem" era a saída que restava aos principais políticos do bloco, preocupados com as consequências de uma Otan sem os EUA para dissuadir a Rússia na guerra da Ucrânia. "Talvez os europeus devessem ter um plano", escreveu Grégoire Ross, diretor dos Programas de Europa, Rússia e Eurásia da Chatham House, em artigo sobre o silencioso papel de Vladimir Putin no Oriente Médio.
Desde o começo do conflito, Moscou viu parte de sua frota fantasma ser liberada para conter o preço do petróleo, assim como sanções americanas temporariamente suspensas, amenizando o risco de colapso econômico no país, antes evidente. O Kremlin, de acordo com a imprensa europeia, ainda tentou barganhar com Washington o apoio de inteligência que dá ao Irã em troca de favor semelhante na Ucrânia. Não teve sucesso.
No xadrez europeu ainda há a sombra de Putin e Trump na eleição parlamentar húngara, em 12 de abril, que, segundo levantamentos, podem tirar Viktor Orbán do poder após quase 16 anos. O primeiro-ministro húngaro vetou um empréstimo de EUR 90 bilhões da União Europeia à Ucrânia e transformou a guerra no país vizinho em plataforma eleitoral.
Uma vitória do opositor Péter Magyar preocupa a Casa Branca a ponto de o vice-presidente americano, J.D. Vance, desembarcar em Budapeste para eventos de campanha na terça-feira (7). A questão ideológica parece detalhe perto da possibilidade de o governo mais pró-Rússia da União Europeia mudar de lado neste momento.
Uma Europa menos refém dos EUA, por óbvio, não interessa a Trump, assim como um presidente americano mais acuado representa, no fim das contas, mais risco ao continente. A distância entre os dois lados do Atlântico em raros momentos foi tão grande.