Em 9 meses deste ano, 1.666 pessoas morreram vítimas das estradas mineiras
A Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG), que registrou 243.528 sinistros entre janeiro e setembro de 2026
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“Eu tenho saudade. Tenho lembranças. Mas o que mais me dói é a impotência, a incapacidade de poder fazer alguma coisa pela morte do meu marido.
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A gente indo para o trabalho. Vêm duas pessoas irresponsáveis no trânsito, causam a morte de um pai de família e fica por isso mesmo.”
O desabafo da gestora hospitalar Paula Bernardes Marques, de 47 anos, é uma amostra de que o Dia de Finados leva muitos a revisitar sua história com pessoas amadas, remete à saudade e ao respeito. Mas o luto de quem teve alguém que ama arrancado de sua vida em desastres de trânsito provoca uma dor diferente, como mostra a reportagem do Estado de Minas.
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A dor se repete pela morte no trânsito de um pai, mãe, filho, parente ou amigo a cada quatro horas em Minas Gerais, segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG), que registrou 243.528 sinistros entre janeiro e setembro de 2026. Um total de 1.666 pessoas perderam suas vidas nas ruas e estradas mineiras nestes nove meses. Essa tragédia equivaleria à queda de 10 aeronaves de transporte comercial de grande porte com 170 pessoas a bordo, a exemplo de um Boeing 737-800 ou Airbus A320.
O luto da gestora hospitalar Paula Bernardes mistura saudade com indignação. Sua tristeza começou em 15 de dezembro de 2010, por volta das 7h30, na Curva do Ponteio, na MGC-356, no Belvedere, bairro nobre de Belo Horizonte. Ela e o marido foram atingidos por um carro que disputava corrida (racha) com outro, no caminho do casal para o trabalho - ela na garupa da motocicleta pilotada pelo gráfico Emerson Marques de Souza, então com 33 anos. “Um Gol e um Palio vieram por trás da gente depois de passarem em alta velocidade pelo radar. Um desses carros bateu na traseira da nossa moto, que foi arremessada e bateu no carro da frente, que era um Uno”, lembra Paula.
Emerson foi lançado para a esquerda e bateu com a lateral do capacete no asfalto. Paula foi arremessada por cima desse carro, cerca de sete metros para a frente, mas teve a queda atenuada por uma bolsa de viagem que tinha nas costas e deu sorte de não ter sido atropelada na sequência. Sofreu escoriações e luxações, mas conseguiu se levantar.
A força do impacto ao solo, mesmo de capacete, provocou severas lesões cerebrais no marido de Paula. Ele teve várias fraturas de face. Foi atendido pelo Samu e seguiu para o Hospital João XXIII, onde ficou em coma. Foram seis meses sem consciência até Emerson falecer. Os responsáveis pelo desastre nunca foram encontrados, mesmo se tratando de um local movimentado, com inúmeras testemunhas e câmeras.
“Meus filhos tinham 7 e 3 anos. Eu tinha um marido que estava em coma no hospital e tinha duas crianças pequenas para cuidar, trabalhar e ainda dar assistência a ele. Desde então, venho batalhando sozinha. Meu filho tinha idade para entender o que aconteceu e sofreu muito; inclusive na escola teve de ter assistência psicológica. Ele se fechou. Custou a se adaptar à vivência sem a figura paterna”, conta Paula.
“Emerson era um homem bom, muito trabalhador, um excelente pai, muito família, que tinha muito carinho. Ele foi retirado da gente e da sociedade, era uma pessoa muito bacana. Ninguém estava preparado para aquilo, foi arrancado de nós à força”, lamenta a viúva.
Embriaguez
A irresponsabilidade no tráfego marcou de forma diferente a vida da família da psicóloga perita em trânsito Valéria Marques Ferreira Campos, de 47 anos, moradora de Itaúna, no Centro-Oeste de Minas Gerais. O uso de álcool por motoristas levou à morte um primo amado, então com 19 anos, e, em outro acidente, uma amiga de 27 anos, que pediu para não ser identificada em respeito à dor dos pais e irmãos.
Aquele dia de 2001 era especial para o primo Eduardo Rocha. Neste dia, o irmão mais novo do adolescente comemorava aniversário e era também Festa de Nossa Senhora do Rosário, de muita devoção e comemorações no município. “Ele tinha saído para combinar com os amigos e parentes de se encontrarem para as festas mais tarde”, lembra Valéria Campos.
O adolescente estava parado, sentado em uma bicicleta, no acostamento da rodovia BR-381, em Itatiaiuçu, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Um homem dirigindo embriagado atropelou o meu primo. Fui uma das primeiras pessoas a chegar lá e nunca vou me esquecer do homem sem entender o que tinha ocorrido, completamente embriagado e dizendo que achava que tinha batido em alguma coisa. Ele tinha matado meu primo, com quem praticamente cresci junto”, recorda a psicóloga.
Os impactos sobre a família foram devastadores e persistem até hoje, segundo Valéria. “Minha tia vive de luto até hoje. No dia do aniversário de um filho, está enlutada pela morte do outro. Meu primo ficou muito revoltado e abalado com isso. Imagine perder seu irmão no dia do seu aniversário”, conta Valéria.
Já a amiga dela morreu em abril de 2012, quando estava com a irmã de Valéria e outras colegas em uma van alugada rumo a uma festa em Furnas. “Elas contrataram a van com motorista justamente para não dirigir. Mas, na volta, um motorista, também embriagado, estava procurando um local para passar a noite e bateu de frente com a van. Esse motorista e a minha amiga morreram na estrada, enquanto minha irmã e as amigas ficaram feridas”, comenta.
Raio-x dos desastres em BH e Minas
Dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) de Minas Gerais sobre os sinistros de trânsito de 2024 e 2025 (ocorrências da Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal e outros que invariavelmente são encerrados pela Polícia Civil) mostram diferenças entre as vítimas de desastres em Belo Horizonte e Minas Gerais e as tendências de riscos no tráfego entre os anos. A capital mineira concentra 28,35% de todos os sinistros de trânsito de Minas Gerais e responde por expressivos 41,57% de todas as ocorrências estaduais com ônibus. Os ônibus lideram o crescimento de sinistros tanto em BH (+7,09%) quanto no estado (+6,63%). (Veja a arte)
No período, ocorreu um salto de 4,39% nos sinistros com motocicletas em BH, ritmo de crescimento que representa quase o dobro da média observada no estado (+2,50%), impulsionado pela consolidação dos serviços de entrega por aplicativo e pelas viagens de passageiros em duas rodas.
Enquanto a capital apresenta uma participação de carros ainda maior nas colisões (88,27% contra 81,58% em MG), o interior e a malha rodoviária do estado concentram proporcionalmente muito mais ocorrências com caminhões (8,87% em MG contra 6,61% em BH).
Em 2024, foram 299.680 sinistros registrados pela Sejusp, dos quais 241.008 envolveram automóveis (80,42% do total de ocorrências), 75.888 envolveram motocicletas (25,32%), 26.905 envolveram caminhões (8,98%) e 15.877 foram ônibus (5,30%). (Nota metodológica: a soma dos percentuais supera 100% porque um mesmo sinistro pode envolver múltiplos veículos).
Em 2025, o número de sinistros disparou para 313.113, o que representou um aumento de 4,48% em relação a 2024 (13.433 acidentes a mais), sendo 255.436 automóveis (81,58% do total; alta de 5,99%), 77.783 motocicletas (24,84% do total; alta de 2,50%), 27.783 caminhões (8,87% do total; alta de 3,26%) e 16.929 ônibus (5,41% do total; avanço de 6,63%).
Em Belo Horizonte, a Sejusp registrou 84.660 sinistros em 2024, sendo 74.515 automóveis (88,02% do total), 20.255 motocicletas (23,93%), 6.571 ônibus (7,76%) e 5.668 caminhões (6,70%).
Crescimento em 2025
Um ano depois, os sinistros dispararam para 88.765, um aumento de 4,85% com relação a 2024 (4.105 sinistros adicionais). Destes, 78.349 eram carros (88,27% do total; um avanço de 5,15%), 21.144 eram motos (23,82% do total; uma alta de 4,39%), 7.037 eram ônibus (7,93% do total; um salto de 7,09%) e 5.865 eram caminhões (6,61% do total; um acréscimo de 3,48%).
Segundo os atestados de óbito por desastres de trânsito reunidos pelo Ministério da Saúde e que têm como dado mais recente o ano de 2024, 81% das vítimas em Minas Gerais foram homens, com média de 48 anos. Entre as vítimas, 50% eram considerados pardos, 41% brancos e 8% pretos. A maior parte das vítimas tinha de oito a 11 anos de escolaridade, uma categoria que abrange 35% das vítimas. Outros 21% estudaram de quatro a sete anos.
A maior parte das pessoas que morreram não chegaram a ser atendidas em hospitais, com 53% dos falecimentos tendo ocorrido em plena via pública. As mortes em estabelecimentos de saúde chegaram a 41% do total de vítimas. Os domingos foram os dias da semana com mais óbitos no tráfego mineiro, com 20% dos registros, seguido do sábado (16%) e das sextas-feiras (15%).
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Entre as pessoas que morreram e que tiveram o meio de transporte em que estavam divulgado, 1.081 (32,4%) estavam em carros ou caminhonetes; 975 (29,2%) pilotavam ou eram garupas de motos; 475 (14,2%) eram pedestres; 145 (4,3%) pedalavam bicicletas; e 120 (3,6%) conduziam ou eram passageiros de ônibus ou veículos de transporte de cargas pesados.