Aos 90 anos, ele ainda tem muitas histórias para contar
Clarinetista Vicente Paulo Sandim atravessou gerações, ajudou a preservar tradições de Santa Luzia, na Grande BH, e agora prepara álbum com 22 composições próprias
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A inspiração não pede licença nem consulta a idade. Pode surgir durante uma conversa, em um momento de descanso ou quando o pensamento parece distante da música. Aos 90 anos, Vicente Paulo Sandim conhece bem esses encontros inesperados. Quando uma melodia aparece, ele começa a assoviar, procura o caminho das notas e passa tudo para a partitura. É assim que continua compondo, quase oito décadas depois de ter aprendido a tocar clarinete. E é dessa disposição que nasceu seu projeto mais recente: um álbum com 22 músicas próprias.
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Morador do Centro Histórico de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Vicente completou nove décadas de vida em junho. A idade não diminuiu seu interesse pela música nem a vontade de compartilhar o que cria. Das 22 composições reunidas para o novo trabalho, 13 já foram gravadas. São 20 chorinhos, uma valsa e um xote. O lançamento ainda não tem data definida, mas ele já pensa em como apresentar as músicas ao público.
“A música é engraçada. Você tem que ter inspiração. Às vezes, a gente está sentado em algum lugar e a melodia surge de repente na cabeça. Aí eu passo para a partitura, vou assoviando e escrevendo”, conta.
O hábito de transformar ideias em notas acompanha uma história que começou na infância e se estendeu por diferentes fases da vida. Vicente ingressou na Banda de Música Benício Moreira em 1948, sob orientação do maestro Pedro Paulo. Permaneceu ligado à instituição até 2006 e estudou durante três anos no Conservatório de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Ao longo desse percurso, o clarinete o levou a participar de celebrações religiosas, festas populares e encontros musicais. Também o tornou um dos personagens ligados à preservação das tradições culturais de Santa Luzia.
Muito além do clarinete
Vicente participou da fundação do Coro Angélico e da Orquestra Sacra de Santa Luzia. Criou o grupo carnavalesco Malandros, em 1958, e o conjunto de seresta Chuteira Calçada. Em 1994, fundou o Sovaco de Cobra, que permaneceu em atividade até 2015.
A relação com a música, entretanto, dividiu espaço com uma rotina profissional distante dos palcos. Durante 38 anos, trabalhou no setor bancário, chegando a ocupar cargos de gerência no Itaú e no BEMGE. Formado em Direito, exerceu também a advocacia por 19 anos.
Entre o trabalho, a família e as apresentações, encontrou maneiras de manter o instrumento por perto. A dedicação atravessou mudanças de profissão, diferentes compromissos e o passar das décadas.
Hoje, a composição ocupa lugar especial nessa rotina. Vicente organizou um álbum com as partituras e a história das músicas que pretende lançar. Entre elas está Uma Valsa para Iria, dedicada à esposa. A obra nasceu instrumental e ganhou letra depois que um músico o ouviu executá-la em Belo Horizonte e se interessou pela melodia.
Embora tenha interpretado baiões, boleros, serestas e outros ritmos, Vicente mantém uma preferência que ajuda a explicar o repertório do novo CD. “Eu gosto de todas as músicas, porque sou chorão. Toco todo tipo de música, mas gosto mesmo é de choro”, afirma.
Planos para o lançamento
A família já discute como será o lançamento. Uma audição informal aconteceu em Santa Luzia, mas ainda falta definir a apresentação oficial. A filha do músico, Ângela Sandim, sugeriu um teatro municipal. Vicente considera também um bar, onde o encontro poderia acontecer de maneira mais descontraída.
Outra possibilidade é reunir antigos integrantes do Sovaco de Cobra para interpretar as composições ao vivo. Alguns vivem em Belo Horizonte, e a participação dependerá da disponibilidade de cada um.
A ideia de voltar a reunir companheiros de música dá ao projeto um significado que vai além da gravação de um CD. Representa a continuidade de vínculos construídos durante décadas e a oportunidade de apresentar suas criações a um novo público.
Aos 90 anos, Vicente não se limita a recordar o que fez. Ainda tem músicas para gravar, um lançamento para organizar e parceiros que gostaria de reencontrar. Sua trajetória reúne experiências de um bancário, advogado, instrumentista e compositor que encontrou espaço para diferentes atividades sem abandonar sua maior paixão.
Em Santa Luzia, sua história também se mistura à de grupos e manifestações culturais que ajudou a manter vivos. Mas o que chama a atenção agora não é apenas o passado que carrega. É a disposição de continuar criando.
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O tempo lhe acrescentou experiências, lembranças e nove décadas de vida. Não levou embora a inspiração.
E, enquanto uma nova melodia puder surgir, Vicente terá mais uma história para contar. Nota por nota.