Carrinhos e brincadeiras amenizam a tensão nas cirurgias infantis
Utilizados no percurso até o bloco cirúrgico, recursos lúdicos aliviam o estresse de pacientes pediátricos, de familiares e até das equipes na rotina dos hospitais
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Nem parecia que o pequeno Luka, de apenas 4 anos, estava prestes a passar por um procedimento de herniorrafia inguinal. Pelo contrário: ao ver o carrinho que o levaria até a sala de cirurgia, o menino abriu um largo sorriso. Animado, logo ficou à vontade na direção do veículo, que é impulsionado por um motor elétrico e tem design que remete ao modelo Jeep Wrangler. Com a ajuda de Luciana Simões, coordenadora de enfermagem do centro cirúrgico do Hospital Infantil São Camilo, o jovem paciente afivelou o cinto, ligou o rádio e até chamou o pai para dar uma volta. “Entra aí”, disse ele, com o olhar fixo para o genitor.
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O papel dos carrinhos é justamente esse: transformar o clima de tensão em brincadeira, de modo a tornar a cirurgia mais tranquila tanto para a criança quanto para os familiares. Luciana explica que, anteriormente, a equipe já utilizava alguns brinquedos com os pacientes, e que houve uma evolução com a chegada do novo veículo. “A vinda do carrinho elétrico foi um ganho sensacional, porque quem não gosta de brincar de carrinho?”, sintetiza.
“Quando tem a separação da mãe e do filho, para adentrar na sala de cirurgia para o procedimento, a mãe fica com o coração na mão: eu estou dando meu bem mais precioso, entregando para uma outra pessoa, para fazer um procedimento nele. E isso humaniza, deixa mais lúdica a entrada deles para o centro cirúrgico”, explica Luciana. “É isso que a gente ganha com essas crianças, com essa parte lúdica. Hoje, a gente vê muitos hospitais, não só em Belo Horizonte, mas no Brasil, que já usam (o carrinho)”, complementa a profissional.
A coordenadora de enfermagem explica que crianças um pouco mais velhas são capazes de dirigir o carrinho, que transporta um único ocupante de até 45kg de peso. Porém, no caso de pacientes muito jovens, como Luka, ela mesma guia o veículo por meio de radiocontrole. Isso, porém, não parece ter prejudicado nem um pouco a brincadeira, tanto que o menino pediu um igual para a mãe, Stefane Gomes Bueno, de 25 anos, enquanto passeava, motorizado, pelos corredores.
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Stefane, por sinal, aprovou o clima lúdico criado para o filho. “Fica mais leve para eles, pois ficam mais tranquilos”, avalia. O pai, Caio Marques da Silva, 26, tem opinião parecida. “A gente fica mais calmo, o coração fica até mais menos agitado; a gente fica feliz com tudo isso, com a felicidade que ele fica”, relata. “Toda vez que vem ao médico, ele fica assustado. Aqui, ele nem quer sair dali de dentro mais”, acrescenta.
De acordo com a Unimed, devido à boa aceitação do carrinho, ele passou a fazer parte de outras situações além da ida e do retorno ao bloco cirúrgico. O equipamento também pode ser utilizado em situações como altas hospitalares, após internações de longa permanência, ou ainda na transição da UTI para a unidade de internação, ou até em casos de dificuldade de locomoção, desde que o paciente pediátrico se enquadre no perfil eletivo.
Humanização e acolhimento
Entre os hospitais de Belo Horizonte que adotaram os carrinhos elétricos para pacientes infantis, estão os da rede Mater Dei. O pediatra Ricardo Godinho, que atende nas unidades do grupo, também destaca que esse tipo de iniciativa ajuda a humanizar as unidades de saúde e, consequentemente, a reduzir o estresse tanto da criança quanto dos familiares. “A gente tenta amenizar esse momento da chegada do paciente ao bloco cirúrgico”, pontua.
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Ricardo pondera que o emprego dos brinquedos pode variar de acordo com o perfil da criança: se ela for mais mais agitada, ou mais jovem, a sedação pode ser feita ainda na brinquedoteca: até sentir o efeito do medicamento, o paciente fica se divertindo. Já meninas e meninos mais velhos, ou mais cooperativos, entram com o carrinho e são sedados dentro do bloco cirúrgico. Há ainda procedimentos para casos mais específicos: “A gente opera muitas crianças especiais, como autistas, e na hora que elas chegam no hospital, os pais já entram em contato, e o anestesista já dá o remédio antes de ela sair do carro (da família)”, esclarece.
O médico salienta que os ambientes pediátricos têm se tornado mais acolhedores para as crianças, e que o carrinho elétrico não é a única iniciativa desse tipo. Ele exemplifica dizendo que os hospitais onde atende já têm brinquedotecas e salas ambientadas com plotagens nas paredes. “Todas as iniciativas são para tornar o ambiente mais parecido com o que ela (a criança) tem na escola ou em casa. Assim, ela tende até a se recuperar mais rápido”, elucida. “São iniciativas simples, mas que fazem a diferença. Fazem a diferença até para nós, que trabalhamos lá dentro e vivemos o dia a dia do hospital”, conclui.
Ação afetiva
A humanização no ambiente hospitalar é uma diretriz reconhecida nas políticas públicas de saúde. A publicação “O brincar nos hospitais pediátricos”, produzida pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira e pela Fundação Oswaldo Cruz, destaca que a atividade lúdica tem valor nos processos de adaptação, socialização e redução da dor da criança hospitalizada, além de favorecer o desenvolvimento cognitivo, motor, social e afetivo.
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O documento também aponta que brincadeiras podem facilitar a comunicação entre criança, profissionais de saúde e acompanhante, contribuindo para que o paciente participe de forma mais ativa do próprio cuidado. Os brinquedos não substituem protocolos técnicos, preparo cirúrgico ou orientações clínicas, mas funcionam como apoio para reduzir a ansiedade e criar vínculo entre paciente, familiares e profissionais de saúde.