Além da nota: o que faz as campeãs do Ideb na rede municipal de BH brilhare
Corpo docente estável, uso inteligente de dados de aprendizagem e capacidade de engajar o aluno compõem o tripé do êxito das campeãs na avaliação do ensino na rede municipal
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Subir degraus no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) exige mais do que a aplicação rotineira de provas. Os resultados dependem de uma gestão presente, professores engajados e estratégias bem definidas para cada etapa do desenvolvimento infantil e juvenil. Na rede municipal de ensino de Belo Horizonte – que atende da Educação Infantil ao Ensino Fundamental –, duas unidades se consolidaram como as principais referências no indicador no ciclo de 2025: a Escola Municipal Presidente João Pessoa, na Região Centro-Sul, e a Escola Municipal Monsenhor Arthur de Oliveira, na Regional Noroeste da capital mineira.
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Criado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em 2007, o Ideb é um indicador da qualidade do ensino fundamental e médio para as redes públicas e privadas. Ele é calculado a partir das médias de desempenho no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) – prova padrão de matemática e língua portuguesa aplicada a cada dois anos – e das taxas de aprovação e reprovação disponíveis no Censo Escolar. Considerando esses dois aspectos, o Ideb mostra em uma escala de 0 a 10 em que medida os estudantes estão aprendendo e passando de ano.
Na capital mineira, apesar de atenderem fases diferentes da vida escolar, as duas instituições revelaram ao Estado de Minas que a fórmula do êxito passa por elementos comuns: corpo docente estável, uso inteligente de dados de aprendizagem e a capacidade de fazer do estudante o protagonista da própria rotina.
A primeira delas, a Escola Municipal Presidente João Pessoa, localizada no Bairro Santo Antônio, atende turmas dos anos iniciais (1º ao 5º) e ficou em segundo lugar entre as unidades que mais subiram em relação ao índice de 2023. A nota passou de 5,8 para 7,60. Para a diretora Line Luciane Lessa Machado, o resultado reflete o amadurecimento de projetos pedagógicos focados na base da aprendizagem, como a alfabetização reforçada e o incentivo permanente à leitura por meio de cantinhos temáticos e projetos na biblioteca.
“Quando a gente recebeu a nota de 7,6 foi uma festa mesmo, todos ficaram entusiasmados: professores, funcionários e alunos. Mas esse resultado vem de um trabalho muito intenso”, destacou ela. Um dos pilares da unidade é a redução da evasão escolar e do absenteísmo. Para garantir a presença em sala de aula, a escola conta com a atuação direta de um monitor de busca ativa, responsável por acompanhar de perto a frequência dos estudantes. A extensão do tempo na escola também desempenha papel crucial, segundo a gestora. Com o aumento das vagas na Escola Integrada, muitas crianças passam o dia todo na instituição participando de oficinas criativas, apoio no dever de casa e reforço pedagógico.
Além disso, Line aponta a estabilidade do corpo docente, formado por professores efetivos e concursados, e o acompanhamento. Conforme a diretora, reuniões pedagógicas quinzenais garantem formações voltadas às demandas reais da escola, como atualizações no Plano de Trabalho Pedagógico (PTP), que requer criatividade para manter os alunos engajados.
Para integrar a tecnologia à rotina sem dispersão – respeitando a proibição do uso de celulares –, a escola investe em laboratório de informática, data show, telas interativas e o uso guiado de tablets em projetos específicos. As famílias acompanham de perto esse processo em reuniões trimestrais e eventos comunitários. “Trabalhamos para manter ou melhorar ainda mais essa marca. A expectativa e a satisfação de todos são enormes”, pontuou a diretora.
“Quando a gente recebeu a nota de 7,6 foi uma festa mesmo. Todos ficaram entusiasmados: professores, funcionários e alunos. Mas esse resultado vem de um trabalho muito intenso”
Line Luciane Lessa Machado
Diretora da Escola Municipal Presidente João Pessoa
SIMULADOS E CONSCIENTIZAÇÃO
O desafio da rede municipal nos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º) também passa por manter os estudantes motivados. Foi nesse ponto que a Escola Municipal Monsenhor Arthur de Oliveira, no Bairro Caiçaras, construiu o caminho até a nota 6,3, alcançando a maior pontuação da capital no ciclo. À frente da gestão há quase dois anos – e com bagagem prévia na coordenação geral da unidade –, a diretora Natália Gomes Pedra de Oliveira explica que o resultado reflete um processo contínuo de amadurecimento que se intensificou na preparação para o exame. “O resultado do Ideb 2025 não tem um único dono. Ele tem vários autores: o envolvimento dos professores, o acompanhamento pedagógico e a conscientização dos estudantes”, afirmou.
O diferencial na preparação dos alunos do 9º ano passou pela aplicação frequente de simulados baseados em descritores e habilidades específicas cobrados no exame oficial, dando previsibilidade e confiança aos estudantes no momento da avaliação do Saeb. Além do reforço para alunos com defasagem, a escola adotou turmas de aprofundamento para estudantes de alto desempenho, o que possibilitou elevar a média geral da instituição.
A metodologia ativa aplicada em sala de aula deu o tom do aprendizado. Em disciplinas como língua portuguesa e matemática, os professores atuaram como mediadores, estimulando os adolescentes a encontrarem soluções e a construírem raciocínios de forma autônoma. A gestão ainda trabalhou a importância da avaliação com os próprios jovens.
“Mostramos a eles por que essa nota é importante, já que elevar o índice traz benefícios tanto para a escola quanto para a cidade. Quando trazemos a responsabilidade para eles, os estudantes entendem e se engajam de verdade”, concluiu a gestora.
Os dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que, em relação aos anos iniciais, a Rede Municipal de Educação de BH alcançou a nota de 6,2. O dado é o melhor desde 2017. Nos anos finais, os alunos das escolas municipais da capital mineira alcançaram a nota de 5,2. Na medição anterior a nota tinha sido de 4,7.
“Mostramos a eles por que essa nota é importante (…). Quando trazemos a responsabilidade para eles, os estudantes entendem e se engajam de verdade”
Natália Gomes Pedra de Oliveira
Diretora da Escola Municipal Monsenhor Arthur de Oliveira
AVANÇO NACIONAL
Nacionalmente, o Ideb 2025 registrou a maior evolução acumulada em 20 anos. As três etapas do ensino avaliadas (anos iniciais e finais do ensino fundamental e o ensino médio) atingiram o maior valor de toda a série histórica, iniciada em 2005, segundo dados do Ministério da Educação (MEC) divulgados em agosto. “Após 20 anos, a escola brasileira conseguiu ao mesmo tempo melhorar o acesso; melhorar a trajetória desses estudantes, melhorando o fluxo desses estudantes; e melhorar a proficiência”, avaliou o ministro da Educação, Leonardo Barchini, em entrevista à Agência Brasil.
De 2023 a 2025, o índice dos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) passou de 6 para 6,3, superando a meta (6). Em 2005, era 3,8. Esta foi a etapa da educação básica que registrou o avanço mais expressivo na série histórica de 20 anos. Quando considerados os anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano), o desempenho subiu de 5 para 5,3, mas ficou abaixo da meta de 5,5. Em 2005, o Ideb era de 3,5. Segundo o MEC, a melhora demonstra o crescimento contínuo das médias de proficiência e a redução das reprovações.
O indicador do ensino médio cresceu de 4,3, em 2023, para 4,5, no ano passado. No entanto, a meta para a etapa é 5,2. Desde 2013, a meta não é atingida. A etapa encerrou o ciclo de 20 anos com seu patamar mais elevado, após subir dos 3,4, registrados em 2005.
Especialistas consideram que a etapa final representa o maior desafio para ganhos no indicador. Também em entrevista à Agência Brasil, o vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, Felipe Proto, avaliou que os resultados de 2025 são avanços importantes, mas mostram também um ritmo menor nos anos finais do que nos anos iniciais do ensino fundamental.
“Esse fato pode ser explicado por um possível acúmulo da defasagem. Isto é, quando os estudantes não aprendem nos anos iniciais conhecimentos muito básicos, eles poderão ter dificuldades ao longo de toda trajetória escolar. Além disso, o cotidiano escolar muda bastante nos anos finais: os alunos passam a ter mais de um professor por disciplina, por exemplo, o que pode dificultar a criação de vínculos.”
Para o especialista, além do investimento na etapa de alfabetização, é necessário ter atenção aos anos finais do ensino fundamental, fase em que os alunos, entre 11 e 14 anos, passam por importantes transformações cognitivas, físicas, emocionais, sociais e identitárias.
“Precisamos superar o estigma cultural que associa essa fase a conflito e desinteresse, e precisamos de escolas mais conectadas com os interesses dos estudantes, aumentando o engajamento dos jovens, e de mais tempo na escola", afirmou Felipe Proto.
Nas escolas públicas, o Ideb passou de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais em 2025. O indicador para os anos finais também subiu: de 4,7, em 2023, para 5, em 2025. E no ensino médio, de 4,1 para 4,3, em igual período. (Com Agência Brasil)
ENSINO EM DESTAQUE
Confira as escolas municipais de BH com melhores notas no Ideb em 2025
Anos finais
1. Escola Municipal Monsenhor Arthur de Oliveira
Regional Noroeste:
6,3
2. Escola Municipal Lídia Angélica
Regional Pampulha:
6,2
3. Escola Municipal Professor Lourenço de Oliveira
Regional Norte:
6,2
4. Escola Municipal Dom Bosco
Regional Noroeste:
6,1
5. Escola Municipal Governador Carlos Lacerda
Regional Nordeste:
6,0
Anos iniciais
1. Escola Municipal Presidente João Pessoa
Regional Centro-Sul:
7,6
2. Escola Municipal Emídio Berruto Regional Leste:
7,3
3. Escola Municipal Minervina Augusta Regional Norte:
7,3
4. Escola Municipal Professora Isaura Santos
Regional Barreiro:
7,3
5. Escola Municipal Ana Alves Teixeira Regional Barreiro:
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Fonte: Inep