"Expansão imobiliária na Pampulha está fora de cogitação", diz urbanista
Coordenador do dossiê apresentado à Unesco que garantiu título de Patrimônio Mundial à Pampulha aponta caminhos para efetivar o potencial turístico do complexo
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São muitos os problemas existentes, os desafios no horizonte e as decisões a serem tomadas para a preservação da Pampulha. Coordenador técnico do dossiê de candidatura apresentado à Unesco e ex-administrador regional, o arquiteto e urbanista Flávio Carsalade não vê muitos avanços, do ponto de vista físico, na região que abriga o Conjunto Moderno unido pelo espelho d’água. Há gargalos, como a desativação do Comitê Gestor e o aproveitamento insuficiente do potencial turístico. Um ponto positivo é que a conquista dos títulos “aumentou muito a autoestima dos belo-horizontinos”.
Passados 10 anos da conquista dos títulos de Patrimônio Mundial e Paisagem Cultural, que avanços o senhor vê na Pampulha?
Na realidade, do ponto de vista físico, não há muitos avanços. A qualidade da água melhorou e já se vislumbra a possibilidade de esportes náuticos, e o “Capivarã” (nome do catamarã turístico) permite uma visão diferenciada do conjunto. Mas só. O Comitê Gestor, desativado no governo Bolsonaro, até hoje não foi reativado, o potencial turístico continua inexplorado e só agora foi retomada a restauração do Museu de Arte da Pampulha. No entanto, o título trouxe maior consciência sobre a importância do conjunto para a população em geral e um cuidado maior dos órgãos públicos quanto às intervenções no local. Também aumentou muito a autoestima dos belo-horizontinos.
E o que deve ser melhorado?
Basicamente, as mesmas questões de 10 anos atrás: a solução do Iate Tênis Clube, o desassoreamento, a gestão (já que o Comitê Gestor ficou inativo), a infraestrutura para os usuários da orla (sanitários, atrativos etc.), o aproveitamento do imenso potencial turístico subutilizado, a solução para a Praça Dino Barbieri e a mobilidade na orla.
Realmente, um gargalo ainda está no Iate Tênis Clube, que tem um anexo, construído na década de 1970, considerado um “corpo estranho” pelos arquitetos e pela própria Unesco. O que está sendo feito para resolver essa questão polêmica?
As negociações estavam muito adiantadas na administração do prefeito Fuad (Fuad Noman, 1947-2025), mas, com o período eleitoral e seu falecimento, foram interrompidas e tiveram de recomeçar. A atual administração municipal tem demonstrado sensibilidade para os acordos então firmados, mas isso demorou algum tempo até que seus integrantes tomassem conhecimento do problema e avaliassem as soluções dentro da nova governança. Como as propostas estão postas na mesa há mais de 10 anos, acreditamos que agora seja apenas uma questão de oficializar os acordos.
O Museu de Arte da Pampulha (MAP) tem sofrido sucessivos atrasos no cronograma de obras. Acha que a reabertura é um sonho cada vez mais distante?
As informações que temos são de que as obras estão liberadas e de que não teremos outras interrupções. Mas a questão do MAP não se encerra com a restauração do antigo cassino. Para que o museu funcione bem, é necessária a construção do anexo, que, na prática, vai ser o verdadeiro salão de exposições, pois o prédio projetado por Niemeyer é muito delicado para as exigências das exposições de arte contemporânea.
Recentemente, a Prefeitura de Belo Horizonte anunciou a criação do Grupo de Trabalho Intersetorial para acompanhamento e apoio à modelagem da concessão do Conjunto Moderno da Pampulha. Como o senhor vê essa iniciativa?
Vejo como uma excelente iniciativa. Acredito que temos de ter uma visão abrangente sobre a Pampulha e que só pensando grande podemos resolver os problemas do local, verificando todos os potenciais terrenos que a prefeitura tem na região, todos os equipamentos públicos existentes (centros culturais, zoológico, parque) e entendendo-os dentro de uma visão integrada e integradora.
Há pessoas que veem o entorno do espelho d’água como lugar de contemplação. Outras acreditam que a área é ideal para expansão imobiliária, investimentos no turismo e criação de opções de lazer. Como manter o equilíbrio?
Expansão imobiliária, penso, está fora de cogitação, sobretudo no que diz respeito à verticalização. Mas turismo, cultura e lazer devem ser incentivados, em harmonia com o uso amplamente residencial da região, e esse é um desafio importante. O caráter “vergel” (presença de muito verde) da Pampulha faz parte do espírito do lugar e deve ser respeitado.
Gostaria que o senhor nos explicasse a importância do Comitê Gestor da Pampulha e como é a atuação dessa instância.
O Comitê Gestor é uma exigência da Unesco para os patrimônios mundiais. Seu objetivo é monitorar o bem cultural e garantir a integração de todos os agentes que atuam na região, sejam eles públicos ou privados. A ideia é integrar órgãos federais (Iphan), estaduais (Iepha, Copasa, Cemig), municipais (Diretoria de Patrimônio Cultural, Regulação Urbana, Limpeza Urbana, BHTrans e tantos outros) e também a governança das bacias hidrográficas (o que inclui Contagem, na Grande BH). É também um espaço para representações da sociedade civil. Trata-se da visão integrada à qual nos referimos anteriormente.
Como o senhor imagina o futuro da Pampulha?
A Pampulha é uma das mais importantes áreas de lazer da Região Metropolitana de BH e também uma das mais sensíveis. Ela deve ser compreendida como um parque urbano conectado à malha urbana. É também uma de nossas maiores referências culturais e um de nossos maiores potenciais turísticos. Se conseguirmos fazer funcionar esses potenciais, interrompermos o assoreamento do lago e melhorarmos a qualidade das águas, seu futuro será brilhante e benéfico para a sociedade.
Se o senhor pudesse voltar no tempo e participar de uma reunião, no início da década de 1940, com Oscar Niemeyer e sua equipe, o que gostaria de sugerir ao arquiteto?
Vá em frente, rapaz, vai ser o maior sucesso
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