A Pampulha, por um de seus moradores: vivendo entre o caos e o paraíso
Vizinho da lagoa, arquiteto destaca paisagem, mas vê problemas que se acumularam e espera mudanças à altura do título mundial da Unesco, que completa 10 anos
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Imagine conseguir avistar a Casa do Baile, parte do Conjunto Moderno da Pampulha, às margens da lagoa, da varanda da sua casa. Ou andar pelo jardim e conseguir admirar o Museu de Arte que também integra o complexo declarado há 10 anos Patrimônio Mundial pela Unesco. Essas são visões de que desfruta o arquiteto e professor universitário David Prado Machado, de 58 anos, que mora diante do espelho d'água mais famoso de Belo Horizonte desde que nasceu.
“A Pampulha é um lugar realmente privilegiado. Não tenho vizinhos na frente, mas a lagoa. É um privilégio morar em um lugar assim”, define. Mas nem tudo são flores para os moradores da região, explica. Machado diz que muitos têm deixado a Pampulha pelo alto custo para manter os imóveis.
“As famílias que viviam nas casas foram se desfazendo desses imóveis. Os filhos cresceram, casaram-se, mudaram-se. E, muitas vezes, ficam só os pais. Há muitas casas à venda; outras foram transformadas em lares de idosos. Existem famílias que resistem; a minha é uma delas”, pontua.
O morador também fala do trânsito intenso no início da manhã e no fim da tarde. Porém, para ele, o principal problema a ser enfrentado é o barulho dos bares, das casas de festas e espaços de eventos. “No fim de semana, eles são muito movimentados. Tem música alta, música ao vivo. Além dos shows, que acontecem na área externa do Mineirão e do Mineirinho. Os dois são muito mais usados pelo lado de fora do que internamente”, observa.
Infraestrutura
O arquiteto avalia, ainda, que pouca coisa mudou desde o título concedido pela Unesco, há 10 anos. “Não vejo muita mudança. Tem um museu que está fechado há anos, esperando restauração, e, até hoje, nada. O problema da qualidade da água também continua sem solução”, frisa.
“É claro que o reconhecimento é importante para o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, mas não vimos nenhum benefício. A Pampulha atrai muita gente, principalmente nos fins de semana. As pessoas querem ir para desfrutar; é um lugar bonito, tem natureza. Mas não tem infraestrutura para acolhê-las. Faltam banheiros e locais de descanso”, opina.
PROGRAMAÇÃO
Celebração dos 10 anos do reconhecimento da Pampulha como Patrimônio da Humanidade
>> Viva Pampulha – 10 anos de Patrimônio Mundial
Ao longo do dia, uma ocupação artística e cultural vai convidar cidadãos e visitantes a viver e se apropriar dos bens do Conjunto Moderno da Pampulha e da paisagem da orla da lagoa, para celebrar uma década do título de Patrimônio Mundial.
Data: Domingo, 12 de julho
Horário: 11h às 20h
14h - Abertura oficial
Onde: Casa do Baile
Debate: Viva Pampulha: apropriação, memória e pertencimento
Especialistas e representantes da comunidade debatem as múltiplas formas de vivenciar a Pampulha.
Horário: 15h às 17h
Onde: Casa do Baile
Show musical: Chama o Síndico convida Augusta Barna.
Inspirado na obra de Tim Maia e Jorge Ben Jor, o tradicional bloco carnavalesco belo-horizontino apresenta um espetáculo marcado pela mistura de ritmos brasileiros, metais, cordas, vocais e uma potente bateria, em uma apresentação especialmente concebida para dialogar com a paisagem cultural da Pampulha.
Horário: 17h às 18h
Onde: Capivarã, espelho d’água
Iluminação especial
Utilizando a técnica de laser mapping, feixes de luz irão redesenhar as curvas da arquitetura concebida por Oscar Niemeyer e criar conexões visuais entre bens que compõem o conjunto: Museu de Arte da Pampulha (MAP), Casa do Baile, Igreja São Francisco de Assis, Casa Kubitschek e Iate Tênis Clube.
Horário: 18h à 0h
Onde: Monumentos do conjunto
>> Exposição “Vivências na Pampulha”
Inaugurada em junho, celebra os 10 anos da inscrição do Conjunto Moderno da Pampulha na lista do Patrimônio Mundial, a partir de uma reflexão que não se restringe à excepcionalidade de seus edifícios, jardins e obras de arte integradas, mas à importância da humanidade que sustenta esse patrimônio.
Dias: de quarta a domingo
Horário: 10h às 18h
Onde: Museu Casa Kubitschek – Av. Otacílio Negrão de Lima, 4188 – Bandeirantes (Pampulha), Belo Horizonte
>> Expedições do Patrimônio – Edição Especial “Chancelas da Unesco em BH” e relançamento do livro “Conjunto Moderno da Pampulha: Paisagem Cultural Mundial”
Mesa abordará os processos de inscrição, gestão e monitoramento das três chancelas da Unesco que BH possui: o Conjunto Moderno da Pampulha, inscrito na Lista do Patrimônio Mundial; a documentação da Comissão Construtora da Capital, inscrita no Programa Memória do Mundo; e o título de Cidade Criativa da Gastronomia, além da apresentação da proposta da quarta chancela pleiteada pelo município: o Parque das Mangabeiras como Bioparque. Haverá também o relançamento do livro comemorativo dos 80 anos do Conjunto Moderno da Pampulha.
Data: 17 de julho
Onde: Casa do Baile – Av. Otacílio Negrão de Lima, 751 – Pampulha, Belo Horizonte.
>> Casa 360° – Especial – 10 anos do Conjunto Moderno da Pampulha na Lista do Patrimônio Mundial
Às sextas-feiras do mês de julho, o Educativo da Casa do Baile permitirá o acesso do público a áreas geralmente não visitáveis, com destaque para a “varanda”, que oferece uma vista da lagoa com o belo pôr do sol. Nesta edição especial, as visitas terminarão com uma apresentação musical de solistas de instrumentos, como flauta, saxofone, violino e outros. Haverá também distribuição do livro-maquete para os participantes.
Datas: 10, 17, 24 e 31 de julho, das 17h às 18h
Onde: Casa do Baile – Av. Otacílio Negrão de Lima, 751 – Pampulha, Belo Horizonte.
>> Seminário sobre o processo de restauração do Museu de Arte da Pampulha (MAP)
Apresentação geral do conceito e palestras técnicas com especialistas que participaram da elaboração do projeto de restauração, reunindo a Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura, a coordenação do museu, a Sudecap e o coordenador do projeto, Rogério Palhares.
Data: 6 de agosto de 2026, das 9h às 16h (quinta-feira).
Onde: Casa do Baile – Av. Otacílio Negrão de Lima, 751 – Pampulha
Museu Casa Kubitschek – Av. Otacílio Negrão de Lima, 4188 – Bandeirantes (Pampulha)
Museu de Arte da Pampulha – Av. Otacílio Negrão de Lima, 16585 – Pampulha
CRONOLOGIA
A Pampulha em 10 tempos
1938 – Inauguração da Barragem da Pampulha, idealizada para fornecimento de água à população. Construída na primeira administração (1935 a 1938) do prefeito Otacílio Negrão de Lima (1897-1960), a estrutura tinha 20 metros de altura.
Década de 1940 – Implantação do conjunto arquitetônico moderno projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012).
1954 – Em 20 de abril, a barragem arrebenta, inunda o aeroporto vizinho e atinge toda a região do Vale do Ribeirão do Onça. BH tinha, então, 50 mil habitantes.
Entre 1977 e 1984 – Construção de um anexo (4 mil metros quadrados) no Iate Tênis Clube (pertencente à iniciativa privada). Segundo especialistas, ele fere todo o projeto original de Niemeyer. Antes da conquista do título, a Unesco recomendou a demolição do “puxadinho”, como é popularmente chamado.
1980 – Poluição e aguapés, entre outros fatores de risco, como o esgoto, afastam os passeios e campeonatos náuticos antes existentes na represa. Nas margens, pescadores mantêm seu lazer.
2016 – Em 17 de julho, o Conjunto Moderno da Pampulha é reconhecido como Patrimônio Mundial e Paisagem Cultural, títulos concedidos pela Unesco.
2017 – Em 18 de setembro, sob escolta policial, são retirados da “Igrejinha” os 14 quadros da via-sacra pintados por Portinari. Foram levados para o Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (Cecor/EBA/UFMG).
2019 – Em 4 de outubro, a Igrejinha da Pampulha, construída entre 1943 e 1945, foi reaberta, após dois anos fechada. Os quadros da via-sacra retornam ao templo.
2023 – Em 16 de maio, começa a programação oficial para a comemoração dos 80 anos do Conjunto Moderno da Pampulha.
2025 – Em 5 de outubro, o prefeito Álvaro Damião anuncia a volta da navegabilidade à Lagoa da Pampulha e os passeios a bordo de um catamarã.
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FONTE: Pesquisa EM