Golpe com inteligência artificial atinge tutores de animais perdidos em BH
Página Nala, voltada à divulgação de cães e gatos desaparecidos, relata aumento de fraudes e orienta famílias a desconfiar de pedidos de dinheiro e ameaças
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Perder um animal de estimação já é, por si só, um momento de angústia. Em Belo Horizonte e na Região Metropolitana, no entanto, muitos tutores passaram a enfrentar um problema adicional: golpistas que se aproveitam do desespero para tentar extorquir dinheiro.
Segundo Mara França, administradora da página Nala, especializada na divulgação de animais perdidos e encontrados, criminosos têm recorrido até mesmo à inteligência artificial para criar imagens falsas e convencer vítimas de que o animal foi localizado. A orientação é nunca fazer pagamentos, exigir provas de que o animal realmente está com quem entrou em contato e denunciar as tentativas de fraude.
Os relatos chegam com frequência à Mara, que há cerca de três anos dedica parte da rotina à divulgação gratuita de cães e gatos desaparecidos em Belo Horizonte e cidades da Região Metropolitana. De acordo com ela, foi justamente o crescimento da página que fez aumentar também o número de pessoas procurando orientação após serem abordadas por criminosos.
"Hoje eles usam inteligência artificial. Pegam a foto do cachorro e fazem montagens como se ele estivesse atrás de um carro ou em cima de um sofá. A pessoa acredita porque parece real", conta.
Segundo ela, o golpe mudou ao longo dos últimos anos. Antes, criminosos utilizavam fotografias aleatórias e afirmavam ter encontrado o animal, pedindo dinheiro para cobrir supostos gastos com combustível ou alimentação antes de devolvê-lo ao tutor.
Agora, afirma, as abordagens se tornaram mais sofisticadas. Com ferramentas de inteligência artificial, os estelionatários manipulam a fotografia do próprio animal desaparecido, criando imagens que simulam um resgate.
A administradora orienta que, diante de qualquer contato, o tutor peça um vídeo atualizado do animal, faça perguntas específicas sobre o local onde ele estaria e nunca realize qualquer transferência financeira.
"Quando a pessoa pede um vídeo ou questiona mais detalhes, muitos começam a ameaçar. Dizem que sabem onde ela mora, que vão matar o cachorro ou fazer alguma coisa. Eu sempre explico que isso faz parte do golpe. A orientação é bloquear e denunciar".
Ela conta que recebe frequentemente capturas de tela das conversas entre tutores e golpistas. O material é arquivado e utilizado para produzir alertas publicados nas redes sociais, numa tentativa de evitar que outras pessoas caiam no mesmo tipo de fraude.
Página nasceu de uma busca que nunca terminou
A história da página Nala também começou a partir de um desaparecimento. Em 2021, o cachorro do sobrinho de Mara sumiu. Durante as buscas, ela passou a divulgar informações nas redes sociais, entrou em contato com protetores independentes e participou da procura por diversos animais encontrados nas ruas.
"Muitas vezes a gente ia verificar se era o cachorro do meu sobrinho. Não era. Mas acabávamos ajudando aquele animal, procurando os donos ou dando o encaminhamento necessário", lembra.
O cachorro da família nunca foi localizado, mas a experiência aproximou Mara da causa animal.
Dois anos depois, ela recebeu o convite para assumir a administração da página Nala. O perfil havia sido criado para localizar uma cadela com esse nome, que acabou sendo encontrada. Depois disso, a página ficou praticamente sem utilização.
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Quando Mara assumiu o trabalho, em 2023, o perfil reunia cerca de 263 seguidores no Instagram e aproximadamente 4 mil no Facebook. Hoje, segundo ela, as redes somam quase 64 mil seguidores.
Ela explica que, pelo alcance conquistado ao longo dos últimos anos, a página se tornou uma das principais redes de divulgação gratuita de animais perdidos e encontrados na Grande BH.
Trabalho é voltado ao reencontro entre animais e tutores
Apesar de atuar diariamente na causa animal, Mara faz questão de delimitar o objetivo da página. O Nala não divulga campanhas de adoção nem pedidos de resgate. Também não publica casos de cidades fora da Grande BH.
O foco é reunir animais perdidos e seus tutores. Quando recebe uma solicitação, ela procura reunir o maior número possível de informações. Se o animal ainda estiver solto, a publicação informa que ele não foi recolhido, descreve o local onde foi visto com o máximo de precisão - utilizando endereço, número ou ponto de referência - e inclui os contatos do responsável.
As postagens também são atualizadas conforme surgem novas informações. "Eu peço para as pessoas me avisarem de tudo. Se o animal foi visto novamente, mudou de lugar ou voltou para casa, eu atualizo a publicação. Isso ajuda quem está acompanhando e evita informações desencontradas", diz Mara.
O volume de solicitações é alto e exige acompanhamento praticamente diário. Além dos pedidos enviados diretamente pelos tutores, ela monitora grupos de moradores, páginas da causa animal e mantém contato com protetores independentes, que frequentemente informam sobre animais encontrados nas ruas.
Alerta para quem procura um animal
A administradora afirma que muitos tutores chegam à página justamente depois de receber mensagens suspeitas. Em alguns casos, o medo provocado pelas ameaças faz com que as pessoas pensem até em retirar as publicações das redes sociais.
Por isso, além da divulgação dos desaparecimentos, a página passou a desempenhar também um papel de orientação. A principal recomendação é desconfiar de qualquer pessoa que peça dinheiro para devolver um animal supostamente encontrado.
Também é importante solicitar vídeos recentes, confirmar informações sobre o local onde o animal estaria e interromper imediatamente a conversa caso o interlocutor passe a fazer ameaças ou pressione por pagamentos.
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"A gente quer que o animal volte para casa. Mas também quer que a família não passe por um segundo sofrimento, que é cair em um golpe num momento de tanta fragilidade".