Igreja histórica de Minas volta a receber missa após 15 anos fechada
Processo de restauração evitou colapso da estrutura e recuperou raro conjunto artístico do século 18, um dos mais importantes da arquitetura religiosa mineira
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Depois de mais de 15 anos com as portas fechadas por risco de desabamento, a histórica Igreja de São José, em Itapanhoacanga, distrito de Alvorada de Minas, Região Central do estado, voltou a realizada no último dia 5, às 10h, marcando o reencontro dos moradores com um dos principais símbolos de fé e patrimônio histórico da região.
O retorno das atividades religiosas ocorre após quase cinco anos de obras que envolveram um delicado trabalho de engenharia, arquitetura e restauração artística para salvar um dos mais importantes exemplares da arquitetura religiosa mineira do século 18.
A recuperação da igreja foi conduzida pelo Instituto Cultural Flávio Gutierrez (ICFG), pela Construtora Total e pela Oficina de Restauro, com apoio técnico de órgãos de preservação e financiamento viabilizado em diferentes etapas por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e, posteriormente, pela Lei Rouanet.
Além de restaurar um edifício histórico, a intervenção devolve à pequena comunidade de Itapanhoacanga um espaço que durante gerações esteve no centro da vida religiosa, cultural e social do distrito.
Segundo a empresária e presidente do ICFG, Ângela Gutierrez, quando a equipe assumiu a obra, a situação era crítica.
"A igreja estava caindo. Ela tinha toda a estrutura comprometida. Quando chegamos, estava literalmente inclinada para um dos lados. Era uma situação muito grave, resultado de anos de abandono e também de intervenções inadequadas feitas ao longo do tempo", afirma.
Ângela explica que o primeiro desafio foi impedir que a construção ruísse completamente. "A prioridade era garantir que a igreja permanecesse em pé. Se ela desabasse, não haveria mais patrimônio artístico para preservar. Foi necessário executar novas fundações em uma igreja que permanece de pé há cerca de 200 anos, um trabalho extremamente delicado do ponto de vista da engenharia."
Obra exigiu reconstrução estrutural
O estado de deterioração da Igreja de São José exigiu uma intervenção muito além da recuperação estética. Conforme Ângela, a estrutura apresentava sérios comprometimentos e demandou uma série de soluções técnicas para estabilizar o imóvel antes que qualquer trabalho artístico pudesse começar.
Ela lembra que o projeto foi assumido pelo Instituto após uma tentativa anterior de restauração ter sido interrompida.
"Fomos procurados antes mesmo da pandemia para avaliar se seria possível retomar uma obra que havia sido abandonada. Depois vieram todas as restrições impostas pela Covid-19, o que atrasou significativamente os trabalhos. Quando foi possível retomar, iniciamos um processo muito cuidadoso."
A primeira etapa foi executada por meio de um TAC. Em seguida, o projeto foi aprovado pela Lei Rouanet, garantindo a continuidade da restauração.
"Foi uma obra muito difícil, que exigiu coragem, conhecimento técnico e, principalmente, muita paixão. Tivemos apoio do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do Ministério Público, dos patrocinadores e, sobretudo, da comunidade, que nunca perdeu a esperança de ver aquela igreja novamente aberta", detalhou Ângela.
Forro raro foi desmontado peça por peça
Se por fora o maior desafio era impedir o colapso da construção, no interior da igreja a missão era salvar um conjunto artístico considerado singular no patrimônio religioso mineiro.
Responsável pela restauração dos elementos artísticos, Adriano Ramos, dono da Oficina de Restauro, explica que o destaque do templo é o forro da nave, composto por 12 grandes painéis que retratam episódios da infância de Cristo e da vida de São José.
"Em Minas, existem muitas representações de São José, mas um conjunto iconográfico tão completo quanto esse é extremamente raro. É um patrimônio de enorme valor histórico e artístico."
O estado de conservação, entretanto, era alarmante.
"O telhado já não protegia mais o interior da igreja. A chuva, o sol, os cupins e o tempo provocaram danos muito severos. O forro estava completamente comprometido."
Diante do risco de perda definitiva, foi necessária uma medida incomum: desmontar integralmente a estrutura.
"Foram cerca de 130 tábuas retiradas cuidadosamente e levadas para nosso ateliê em Nova Lima. Enquanto a equipe de engenharia trabalhava na recuperação da igreja, nós restaurávamos cada uma das peças durante aproximadamente dois anos. Somente depois da conclusão da cobertura o conjunto voltou ao seu lugar", explicou Ramos.
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Segundo ele, o processo exigiu extrema precisão. "Restauração não permite pressa. Cada decisão precisa ser tomada com muito conhecimento e muita paciência. Como dizia um professor meu, restaurar exige paz e ciência. Dessa união nasce a paciência."
Além do forro, também passaram por intervenções altares, elementos decorativos, ornamentos, talhas e demais componentes internos da igreja.
Comunidade preservou peças durante o período de interdição
Embora o prédio tenha permanecido fechado por mais de uma década e meia, Adriano Ramos faz questão de destacar que a comunidade teve papel fundamental para que boa parte do patrimônio pudesse ser recuperada.
"Mesmo sem condições financeiras, os moradores sempre tiveram muito cuidado. Tudo o que se desprendia era guardado com carinho. Eles se tornaram verdadeiros guardiões daquele patrimônio."
Segundo ele, esse cuidado facilitou significativamente o trabalho dos restauradores. "A comunidade preservou muitas peças que poderiam ter sido perdidas. Isso fez toda a diferença."
Ao longo dos quase cinco anos de convivência durante a obra, a relação entre os profissionais e os moradores foi se fortalecendo.
"Fomos recebidos com um carinho enorme. Todos os profissionais envolvidos criaram um vínculo muito forte com o lugar. Quando o trabalho terminou, saímos de lá com o coração apertado."
Entrega das chaves emocionou moradores
Na semana passada, a igreja voltou oficialmente às mãos da comunidade por meio de uma cerimônia simbólica de entrega das chaves ao pároco responsável pela região e aos moradores.
O momento foi marcado pela participação da Guarda de São José, do Congado e de fiéis que aguardavam há muitos anos pela reabertura do templo.
Segundo Ângela, a emoção tomou conta da celebração. "Foi um momento inesquecível. Ver o padre abrindo as portas e as pessoas entrando cantando foi algo muito emocionante. A alegria e a gratidão da comunidade mostraram que a restauração vai muito além da preservação de um edifício histórico."
Durante a cerimônia, também foi instalado um novo cruzeiro em frente à igreja, substituindo a antiga estrutura, que já estava completamente deteriorada.
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Embora a inauguração oficial da obra esteja prevista apenas para o fim do ano, por questões administrativas relacionadas aos recursos públicos utilizados no projeto, a igreja já voltou a funcionar normalmente para celebrações religiosas.