Terno de Congada de cidade mineira é reconhecido como Ponto de Cultura
Grupo que mantém viva há mais de quatro décadas a Festa de Nossa Senhora do Rosário passa a integrar a rede de Pontos de Cultura do Ministério da Cultura
compartilhe
SIGA
O Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário, de Silvianópolis, no Sul de Minas, passou a integrar a rede de Pontos de Cultura do Ministério da Cultura (MinC). A homologação, anunciada pelo Governo Federal, reconhece o trabalho desenvolvido pelo grupo na preservação da cultura afro-brasileira, da memória ancestral e das tradições populares da região.
Além da certificação federal, a congada também foi incluída no Cadastro do Patrimônio Cultural dos Reinados e Congados de Minas Gerais, mantido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG).
O reconhecimento representa um novo capítulo para um grupo que, há mais de 40 anos, atua na preservação de uma manifestação cultural que atravessa gerações. Fundado em 1980, o Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário é o mais antigo em atividade em Silvianópolis e está diretamente ligado à tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosário, celebração que completou 246 anos em 2026.
A certificação como Ponto de Cultura faz parte do Programa Cultura Viva, política pública do Ministério da Cultura voltada ao fortalecimento de iniciativas comunitárias que promovem, preservam e difundem a cultura brasileira. Com o reconhecimento, o grupo passa a integrar uma rede nacional de coletivos e instituições culturais, podendo participar de intercâmbios, formações, encontros e projetos desenvolvidos em parceria com outros Pontos de Cultura espalhados pelo país.
Além do reconhecimento federal, o grupo recebeu a declaração do Iepha-MG que confirma sua inclusão no Cadastro do Patrimônio Cultural dos Reinados e Congados de Minas Gerais. O cadastro reúne grupos responsáveis por manter vivos os Caminhos, Expressões e Celebrações do Rosário reconhecidos como Patrimônio Cultural de Minas Gerais, conforme a Deliberação Conep nº 03/2024.
Capitão do Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário, Marco Aurélio Valentim afirma que o título demonstra a importância de manter viva uma tradição herdada dos antepassados.
"É uma alegria enorme ser reconhecido pelo Ministério da Cultura do Brasil como Ponto de Cultura. Isso mostra que nosso congado é vivo. Temos histórias e um grande legado dos nossos ancestrais e seguimos mantendo esta tradição, que é patrimônio cultural de Minas Gerais e do Brasil", destaca.
Patrimônio vivo da cultura afro-brasileira
O congado reúne elementos de fé, música, dança, ancestralidade e resistência cultural. A tradição nasceu da organização das irmandades negras durante o período colonial e permanece presente em diversas cidades mineiras, preservando práticas transmitidas oralmente entre mestres e novos integrantes.
Segundo o pesquisador de congados e folias de reis Rafael Huhn, a certificação representa o reconhecimento de uma manifestação que preserva conhecimentos históricos e identitários da população negra brasileira.
"O congado é uma das mais legítimas expressões da cultura do povo preto escravizado no Brasil e hoje é considerado patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais e do Brasil. Ser reconhecido como Ponto de Cultura, dentro do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, é referendar que o Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário mantém vivas as práticas, os saberes e a memória dos nossos ancestrais", afirma.
Ao longo de sua trajetória, o grupo consolidou presença não apenas na Festa de Nossa Senhora do Rosário de Silvianópolis, mas também em encontros de Congadas realizados em diferentes municípios mineiros.
A atuação inclui ensaios permanentes, ações comunitárias e participação em produções culturais, como os documentários Respirando a Fé e A Congada de Nossa Senhora do Rosário de Silvianópolis. O terno também integrou iniciativas voltadas à valorização da cultura popular, entre elas o projeto Roda de Almas, Vozes de Mestres.
Leia Mais
Cultura que atravessa gerações
Desde 2005, sob a liderança de Marco Aurélio Valentim, a congada ampliou sua atuação para além das celebrações religiosas. O grupo desenvolve atividades em escolas, instituições de ensino e projetos de educação patrimonial, apresentando a estudantes a história do congado, suas raízes afro-brasileiras e a importância da preservação das tradições populares.
O trabalho reúne crianças, jovens, adultos e idosos em um mesmo espaço de convivência. O aprendizado acontece principalmente por meio da oralidade, da observação dos mestres mais antigos e da participação nas celebrações, permitindo que os conhecimentos sejam transmitidos de geração em geração.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Além da dimensão cultural, a Congada exerce papel social na comunidade. O grupo acolhe jovens da zona rural e da periferia, promove o fortalecimento da identidade da população negra e incentiva a participação de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que encontram nas atividades musicais e nas celebrações um ambiente de inclusão, convivência e pertencimento.