Combate a facções: onde Minas tem falhado e qual nova tática de combate?
Estudo da UFMG e da Sejusp indica fragilidades no cerco a organizações criminosas em MG e aponta mudanças que incluem asfixia financeira e isolamento de líderes
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Duas ações ocorridas em abril em Minas Gerais dão indícios de uma mudança de padrão nas estratégias de enfrentamento às organizações criminosas no estado – um tema sobre o qual autoridades chegaram a ser alvo de críticas dos próprios agentes de Justiça e segurança pública, por não atingirem com eficiência a cúpula dos criminosos, não integrarem instituições e falharem no controle prisional.
Na Operação Luxury (15/4), a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Minas Gerais (Ficco/MG), que envolve as polícias Federal, Militar, Civil e Penal, conseguiu prisões, apreensões e bloqueios de R$ 61 milhões do tráfico entre o território mineiro, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Paralelamente, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) isolou líderes de facções em segurança máxima e reorganizou o sistema prisional para combater ações desses grupos.
Em pesquisa sobre a segurança pública do estado, as críticas de agentes foram duras. Indicavam uma visão de que Minas Gerais tirava de circulação os pequenos traficantes, expostos no varejo do tráfico, mas não conseguia atingir a cúpula do crime organizado.
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A falta de compartilhamento de inteligência entre as instâncias de Estado que combatem a criminalidade impediria de se anteciparem às organizações nacionais e internacionais de tráfico e domínio territorial, que são bem estruturadas e estão em guerra entre si, em Minas Gerais e em todo Brasil.
Essas foram as principais observações sobre o enfrentamento às facções atuantes em Minas, de acordo com a percepção de agentes dos órgãos penais, de Justiça e de segurança pública, na pesquisa conduzida pelo Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG (Crisp/UFMG) e pela Sejusp-MG, publicada em dezembro de 2025.
Parte do 1º Diagnóstico da Segurança Pública do estado, realizado pelas instituições e com foco nos agentes que lidam diretamente com o crime, o estudo contou com 1.085 formulários respondidos por servidores do Corpo de Bombeiros, Defensoria Pública, Ministério Público, Tribunal de Justiça, polícias Civil (PCMG), Militar (PMMG) e Penal, bem como outros órgãos municipais e do sistema socioeducativo, além de reuniões com cinco grupos de 14 integrantes – desde profissionais de base até o nível gerencial.
O que dizem os agentes?
No estudo concentrado apenas em temáticas ligadas ao crime organizado em atuação em Minas Gerais, os agentes apontam que faltam ações decisivas contra lideranças locais das facções, com o Estado chegando apenas aos criminosos que agem na ponta. A Operação Luxury, por outro lado, mostrou um outro paradigma, mobilizando 160 policiais para desarticular uma rede interestadual de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Mirando diretamente a cúpula financeira e logística da quadrilha, a força-tarefa cumpriu 27 mandados de prisão e bloqueou R$ 61 milhões em bens, incluindo imóveis e carros importados. O grupo criminoso utilizava empresas de fachada e “laranjas” para lavar o lucro ilícito gerado pelo transporte de toneladas de maconha que abasteciam o Triângulo Mineiro por meio da chamada “rota caipira“.
Na visão dos agentes ouvidos na pesquisa, realizada antes da operação, o combate ao crime organizado em Minas Gerais vinha se limitando a um “trabalho de formiguinha”, que prendia no varejo, mas deixava as cúpulas criminosas intactas, como apontou análise do estudo a partir dos depoimentos dos profissionais. A falta de articulação estratégica e de inteligência integrada é um dos motivos citados para as ações falharem em alcançar os “chefões do tráfico”.
“Impunidade naturalizada”
“O crescimento do crime organizado e das violações sistemáticas de direitos humanos contribuem para a manutenção de um cenário de impunidade generalizada e naturalizada. Os casos que chegam na etapa de condenação são, majoritariamente, aqueles que contam com prisão em flagrante (...) longe de qualquer resposta às dinâmicas de crime organizado (que demandam operações de inteligência, mirando as redes de influência, corrupção, fluxos de capital e lavagem de dinheiro dos criminosos), (...) as maiores responsáveis pelo crescimento dos homicídios dolosos no país“, avalia o Crisp/UFMG.
Ao se concentrar no varejo do tráfico, o combate às organizações criminosas sofreria com a manutenção da estrutura do crime organizado, contribuindo para o crescimento de violações e para a impunidade generalizada das cúpulas criminosas, segundo a pesquisa. Esforços isolados e fragmentados das corporações e instituições também gera uma sobreposição de esforços e impede uma resposta coordenada e estrutural, na percepção dos agentes.
Entre os profissionais, 72% concordam plenamente que é indispensável adotar um sistema de informações integrado, robusto e unificado. A avaliação é de que isso traria segurança jurídica, evitaria o desencontro de dados nas investigações e garantiria que o trabalho deixasse de ser fragmentado, segundo ouviram os pesquisadores. Justamente o tipo de trabalho que a operação da Ficco/MG conseguiu realizar em meados de abril.
Atuação conjunta facilitaria combate
De acordo com o levantamento, falta uma inteligência integrada, que auxiliaria no foco em “alvos de maior importância” (como líderes de facções e homicidas contumazes), unindo o trabalho ostensivo da Polícia Militar à investigação da Polícia Civil e à atuação do Ministério Público e Judiciário. Foi muito citada a necessidade de formação de Grupos de Integração Estratégica (GIE), ao mesmo tempo em que foi frisada a ausência sistemática de integrantes do Poder Judiciário nessas reuniões em algumas regiões, o que “quebra a cadeia de solução de problemas“, limitando a colaboração apenas para aturam em “apagar incêndios” e não para desarticular o crime de forma estrutural.
A forte influência dos sindicatos do crime paulistas e fluminenses teve sua origem indicada e traçada com clareza na pesquisa, vinda dos estados vizinhos através das divisas mineiras. Não foram citadas outras facções em disputa além do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital.
“As amplas fronteiras de Minas Gerais com São Paulo e Rio de Janeiro se tornaram a porta de entrada para a influência direta do crime organizado, reconfigurando o mapa da violência no estado”, aponta o estudo.
O desafio nas cidades médias
No grupo de pesquisa que incluiu agentes atuantes nas cidades de médio porte de Barbacena, Caratinga, Curvelo, Formiga, Itaúna, Lavras, Patos de Minas, Pirapora, Poços de Caldas, Pouso Alegre, Teófilo Otoni e Unaí, foi destacada a interiorização das facções. Nessas cidades, que são de “grande fluxo migratório”, a criminalidade atua com uma “complexidade cada vez mais aprimorada, exigindo uma cooperação interinstitucional que o Estado ainda tem dificuldades em fornecer”.
Os profissionais que atuam em cidades menores (referidas como “cidades do interior“) relataram desafios específicos e estruturais. Entre eles, a escassez de profissionais e de recursos materiais básicos (viaturas, sistemas, equipamentos de informática, gasolina etc.). Devido a essa carência, as instituições estaduais muitas vezes acabam dependendo de convênios e repasses das prefeituras para que o serviço possa, de fato, ser prestado.
Outro grande obstáculo apontado foi a constante troca de pessoal. A rotatividade é alta, especialmente devido ao sistema de promoções adotado pelas instituições do sistema de Justiça, em que os profissionais iniciam a carreira no interior, mas tendem a se transferir para a capital ou cidades maiores assim que progridem.
Devido à falta de infraestrutura própria (como a ausência de unidades prisionais em muitos municípios pequenos), os profissionais frequentemente precisam recorrer a cidades maiores da região para encaminhar os casos mais complexos ou para efetivar prisões. Esse desafio é agravado pela própria dificuldade de transporte.
Integração apenas de modo informal
Diante da escassez de recursos e da falta de protocolos formais bem estabelecidos, a pesquisa indica que a integração no interior acontece quase que exclusivamente de maneira informal, baseada em relações pessoais de amizade e conhecimento entre os profissionais, evidenciando fragilidade estrutural. A cooperação se torna dependente da boa vontade e do relacionamento interpessoal dos indivíduos, por falta de política institucional formalizada e perene.
Um dos efeitos mais cruéis descritos pelos profissionais sobre o crime organizado é a ampliação da violência contra as mulheres. Algo referendado pelas delegacias especializadas de atendimento à mulher e destacado como urgente para que a violência cometida no ambiente doméstico não se agrave. “A maior parte ocorre no lar, mas há também um crescimento acentuado desse tipo de violência em outros ambientes, inclusive junto ao crime organizado”, destacou a avaliação dos pesquisadores.
Para melhorar a integração de dados entre as instituições do Sistema de Segurança Pública, Justiça Criminal e execução penal, os profissionais sugeriram diversas medidas (veja algumas das principais no quadro da página).
Prisões viraram ‘incubadoras’ para o crime organizado
O 1º Diagnóstico da Segurança Pública de Minas Gerais, realizado pelo Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG (Crisp/UFMG) e pela Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG), lançado em dezembro de 2025, mostra claramente que as unidades prisionais do estado se transformaram em motores para o fortalecimento do crime organizado, segundo a percepção de agentes dos órgãos penais, de Justiça e segurança pública ouvidos. Esse foi justamente um dos pontos atacados em abril pela nova política de isolamento dos internos faccionados, adotada pela Sejusp.
“Em vez de solução, o sistema prisional tornou-se o epicentro do fortalecimento das facções criminosas”, destaca a pesquisa. Enquanto o Estado aposta na prisão como resposta rápida à violência, as cadeias aprofundam as desigualdades e amplificam dinâmicas criminais, como o domínio do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). A avaliação é de que o resultado se torna um ciclo vicioso de reincidência, que dita o aumento de homicídios nas ruas e o colapso da gestão carcerária.
Para asfixiar o comando das facções a partir do sistema carcerário, a Sejusp implementou a Resolução 718/2026, que impõe isolamento para líderes criminosos em seis presídios de segurança máxima de Minas Gerais. A nova política proíbe qualquer contato físico com visitantes, restringindo a comunicação a parlatórios e meios virtuais, além de vedar o recebimento de alimentos, vestuário e itens de higiene enviados por familiares.
Chefes do tráfico sob vigilância
Com a instalação de bloqueadores de celular e monitoramento ininterrupto com câmeras, o Estado visa isolar os chefões do tráfico e impedir que continuem orquestrando, a partir de suas celas, execuções e ações do crime organizado nas ruas.
Segundo os grupos pesquisados no diagnóstico, o caso mais emblemático em que a guerra de facções resultou em aumento de violência foi o de Teófilo Otoni, cidade de 142 mil habitantes, a 450 quilômetros de Belo Horizonte, na região do Vale do Rio Mucuri. Foi identificado no município uma forte relação entre o crime que domina as comunidades e as facções dentro do sistema prisional.
“Os conflitos no tráfico de drogas, na região de Teófilo Otoni, decorrentes da disputa do CV e do PCC pelo domínio do território, foram bastante mencionados para abordar tanto o aumento do número de homicídios quanto as inúmeras dificuldades impostas à gestão prisional para lidar com as rivalidades faccionais dos presos”, destaca a pesquisa.
“O reflexo dessa guerra nas ruas afeta de forma drástica o sistema carcerário. O fortalecimento desses grupos exige que os profissionais lidem constantemente com as rivalidades faccionais e a tensão entre os presos dentro das unidades. Além do complexo manejo das facções, a alta reincidência criminal também foi destacada pelas equipes da região de Teófilo Otoni como um dos pontos mais delicados e frustrantes no trabalho cotidiano de todas as instituições de segurança e Justiça locais”, diz o estudo.
A falta de inteligência central institucionalizada e os desafios de integração entre os órgãos de Justiça e segurança pública levou a exemplo de soluções locais extraoficiais. Em um município não identificado, as instituições criaram um grupo de WhatsApp chamado “Saída de presos“. Para evitar que detentos liberados fossem executados na porta da unidade prisional, a Polícia Penal passou a investigar se o egresso tinha inimigos em seu bairro e a alertar a Polícia Militar quando fosse o caso. A PM, então, deslocava viatura para escoltar o indivíduo na saída, o que, segundo o relato, erradicou as tentativas de homicídio.
Pesquisa e diagnóstico
O crime organizado em Minas Gerais, segundo quem o combatente (policiais, agentes, integrantes do Judiciário e outros)
Análise do combate às facções
- Prisões dominadas: sistema prisional fortalece grupos criminosos, recrutamento e negócios do PCC e Comando Vermelho
- Expansão para o interior: cidades de médio porte sofrem com as disputas entre facções
- Divisas vulneráveis: migração do crime pelas divisas com Rio de Janeiro e São Paulo facilita a expansão da influência de organizações criminosas externas
- Fragmentação institucional: a falta de integração oficial faz com que a cooperação dependa de redes informais, como aplicativos de mensagens
- "Trabalho de formiguinha": A repressão atual se concentra no "varejo" (pequenos traficantes em bocas de fumo), sem desarticular as cúpulas e a inteligência das facções
Desafios do interior
- Escassez de recursos: falta de viaturas, equipamentos de informática, combustível e contingente humano básico
- Alta rotatividade: profissionais iniciam a carreira no interior e buscam transferência para cidades maiores
- Dependência municipal: necessidade de convênios com prefeituras para suprir carências do estado
- Isolamento das sedes: dificuldade de comunicação direta entre as unidades locais e as sedes administrativas na capital
- Informalidade: o trabalho muitas vezes só funciona devido ao contato pessoal (WhatsApp/amizade) entre juízes, promotores e comandantes
Metas de prevenção, proteção e cuidados
- Foco em alvos estratégicos: necessidade de priorizar a inteligência integrada para alcançar líderes de facções e assassinos contumazes, em vez de apenas prisões em flagrante no varejo
- Investimento em políticas sociais: implementar ações voltadas para a redução da reincidência criminal e apoio a egressos do sistema prisional, visando romper o ciclo de violência
- Unificação de dados: adotar sistemas de informações integrados que permitam a alimentação e consulta em tempo real por todas as forças de segurança
- Proteção de dados: garantir que a troca de informações sensíveis evite vazamentos e manipulação
- Padronização de fluxos: criar protocolos formais de atuação conjunta para que o trabalho não dependa apenas da "boa vontade" ou amizade entre profissionais
- Monitoramento de risco e ação: criar um padrão em que a Polícia Penal investiga se o detento com alvará de soltura pode ser alvo de rivais ao sair. A Polícia Militar é informada e desloca uma viatura para escolta. Com isso, se reduzem as tentativas de homicídio na porta dos presídios
Ações da Sejusp a partir do estudo
A Sejusp informa que, em razão do diagnóstico, direcionou ações como o fortalecimento na segurança e monitoramento do sistema prisional. Foram estabelecidas seis penitenciárias que receberão presos faccionados com o objetivo de evitar contatos e novos recrutamentos, bem como cercamento digital e bloqueadores de celular.
“O combate ao crime organizado se dá com a maior integração entre as inteligências e as forças de segurança e as equipes disponibilizadas para isso. Assim se pode comprovar, por meio das ações de ocupação da Serra (aglomerado na Região Centro-Sul da capital), que foram feitas neste ano, em Belo Horizonte, bem como outras operações que aconteceram de fevereiro e março, nas cidades de Campo Belo e Além Paraíba“, destaca a secretaria, anunciando haver outras ocupações já programadas.
“Para além disso, vale destacar prisões qualificadas, realizadas pela Polícia Civil dentro de fora estado e, também, do país. Lembrando que são lideranças e protagonistas importantes dessas organizações criminosas“, acrescenta a pasta.
“Por fim, reforçamos que uma série de planejamentos está ainda em andamento em razão desse diagnóstico, ainda em estudo nas diversas assessorias estratégicas, como na Assessoria Estratégica da Sejusp-MG, com o objetivo de fortalecer e estruturar a política pública com base nas evidências”, informou.
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Preocupação em BH e no entorno
Os municípios de Belo Horizonte, Contagem, Betim, Santa Luzia, São José da Lapa, Itatiaiuçu, Vespasiano e Sete Lagoas compuseram o Grupo Focal 1 da pesquisa do Crisp/UFMG e Sejusp-MG, mas nele as discussões não se concentraram no crime organizado, e sim em outros problemas estruturais. Os temas centrais trazidos pelos profissionais de BH e entorno foram pessoas em situação de rua com ligações diretas com a criminalidade local; tráfico de drogas e cenas de uso que interferem diretamente na criminalidade; falta de políticas públicas efetivas e de articulação entre as instituições de Justiça, saúde e assistência social (especialmente para tratar dependência química e ressocialização de egressos).