Distração? Negligência? Como começa a maioria dos desastres ambientais?
Equipes de emergência afirmam que fator humano é decisivo em casos de acidentes ambientais, mas rodovias precárias também contribuem para ocorrências
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O aumento em 27,5% das ocorrências de danos ambientais no comparativo entre o primeiro trimestre de 2025 e período equivalente de 2026 revela uma tendência preocupante. Se mantido esse ritmo, este ano pode atingir ainda em setembro o mesmo patamar de ocorrências do anterior: 240. Entre as causas para tantos acidentes com riscos ambientais, a falta de atenção é destacada como fator preponderante na operação de produtos perigosos.
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Na avaliação do engenheiro civil ambiental Newton Oliveira, analista do Núcleo de Emergência Ambiental (NEA) da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), erros de julgamento, distrações, treinamento insuficiente e fadiga levam a essas situações críticas.
“Na minha opinião, a maior causa desses acidentes é o fator humano. Vejo dentro disso a carga excessiva de trabalho de motoristas e operadores, a falta de conhecimento do produto que está sendo transportado ou operado e a falta de treinamento para situações de emergência, o que ocorre nas estradas”, destaca.
Distração pode ser fatal
Na indústria, a manutenção inadequada ou tardia também está entre os principais causadores de acidentes, mas, mais uma vez, a falha humana é destaque. “Vejo muitas situações de distração. Pouco tempo atrás, por exemplo, fomos chamados para um acidente em Uberlândia, dentro de um frigorífico. Um funcionário estava operando uma empilhadeira e, ao passar com ela erguida, bateu em uma tubulação de amônia, que se rompeu. Foi preciso evacuar todos os funcionários, porque havia risco de mortes”, exemplifica Newton Oliveira.
O engenheiro e analista do NEA afirma que a falta de estrutura das rodovias também colabora para os acidentes, e indica que isso poderia ser minimizado. “Há levantamentos que mostram onde ocorrem mais acidentes ambientais nas estradas. Na BR- 381, por exemplo, a Rodovia Fernão Dias, de Belo Horizonte a São Paulo, a gente sabe exatamente quais os trechos onde há maior ocorrência de acidentes. Seria então uma questão de melhorias no traçado e condições para evitar isso. Na serra de Rio Manso (Serra de Igarapé, entre Igarapé, Brumadinho, Itatiaiuçu e Rio Manso), quase todo dia acontece um acidente entre os KMs 519 e 525. Na Serra de Camanducaia, perto de Extrema, no Sul de Minas, quase na divisa com São Paulo, também”, aponta.
Depois que um acidente ocorre, o NEA faz a lavratura de auto de fiscalização e, dependendo da situação, a lavratura de autos de infração. Todos são encaminhados ao Ministério Público de Minas Gerais. “O MP muitas vezes solicita ao NEA informações a respeito da ocorrência do acidente. É como se fosse uma perícia. A gente também faz algumas determinações depois do acidente. Sobretudo referentes a monitoramento da área contaminada, para ter a certeza de tenha sido remediada e limpa de uma forma adequada”, destaca Oliveira.
Prioridade dos Bombeiros
Quando há vidas envolvidas ou sob risco no caso de desastres ambientais, a primazia da operação é do Corpo de Bombeiro e do seu Pelotão de Operações Químicas, Biológicas, Radiológicas e Nucleares (PQBRN). “O nosso rol de prioridades é sempre proteger e salvar vidas, em primeiro lugar humanas, em seguida as não-humanas e o meio ambiente. Enquanto houver risco a vidas, a gente não vira essa chave para a atuação dos outros órgãos de fiscalização ambiental ou da empresa responsável pelo acidente”, afirma o porta-voz da corporação, tenente Henrique Barcellos.
Entre os vários procedimentos que exigem atuação dos bombeiros, um dos mais importantes é o estabelecimento da chamada zona quente – a área mais crítica do desastre e que é de cerca de 100 metros para vazamentos em geral e de no mínimo 800 metros para situações de maior risco, como tanques envolvidos pelo fogo, explosivos incendiando, escapes de gás ou sinais de ruptura de vasos de pressão.
A fase seguinte é a de reconhecimento de detalhes, como a disposição dos elementos de risco, vítimas conscientes e inconscientes, presença de animais mortos, áreas sensíveis, abrigos, ruídos de vazamentos ou incêndios, presença de fogo ou nuvens de gás, estado físico do produto (líquido, gasoso ou sólido), condições climáticas, se produto se desloca para curso d'água etc.
Isolamento e socorro
Bombeiros e equipes especializadas contratadas por empresas de transportes e indústrias precisam de EPIs adequados a cada situação, sendo que as emergências químicas mais complexas, com gases tóxicos, por exemplo, exigem o mais alto nível de proteção ao sistema respiratório, pele e olhos, sobretudo devido a vapores, gases e partículas em suspensão. Assim, segundo o Corpo de Bombeiros, agentes necessitam do uso de um roupão encapsulado com válvula de fluxo, luvas internas e externas, rádio, equipamento de proteção respiratória, com cilindros de oxigênio, e capacete.
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“A primeira medida de segurança é isolar o local da zona quente, para que não haja mais vítimas. Nessa zona quente só entra o pessoal protegido. As equipes especializadas entram sempre em dupla, com equipamentos de proteção individual (EPI), levando materiais para o salvamento de uma vítima, usando técnicas específicas de combate. Na zona quente, a ação é rápida: não há tempo para um atendimento pré-hospitalar sob risco de incêndio ou de explosão. A vítima precisa ser retirada rapidamente até a zona morna, onde se faz a descontaminação e depois para a zona fria, onde é encaminhada para a unidade hospitalar”, conclui o tenente Barcellos.