Lugar onde esteve o maior símbolo do futebol brasileiro; após o roubo em 1983, a Jules Rimet nunca mais foi vista
Na noite de 19 de dezembro de 1983, dois homens entraram no Edifício João Havelange, sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na Rua da Alfândega, no Centro do Rio de Janeiro. Após renderem o vigia João Batista Maia, seguiram até o nono andar, onde funcionava o gabinete da presidência da entidade. Menos de uma hora depois, deixaram o prédio carregando a Taça Jules Rimet, o maior símbolo da história do futebol brasileiro.
O roubo foi rápido. As consequências atravessariam gerações. Quarenta anos após a ocorrência, a polícia identificou suspeitos, a Justiça condenou envolvidos e a Fifa registrou oficialmente o desaparecimento.
Mas nenhuma investigação conseguiu responder à pergunta que continua assombrando o futebol nacional: o que aconte
ceu com a taça conquistada definitivamente pelo Brasil após o tricampeonato mundial de 1970?
A história começa com uma ironia que ainda hoje parece inacreditável.
Enquanto uma réplica da Jules Rimet permanecia protegida dentro de um cofre, a peça original estava exposta em uma vitrine no gabinete do então presidente da CBF, Giulite Coutinho.
Dias após o roubo, o dirigente admitiria que o vidro blindado da vitrine era sustentado por uma moldura de madeira. Os ladrões não precisaram enfrentar alarmes sofisticados nem sistemas avançados de segurança.
Encontraram apenas uma fragilidade. Com um pé de cabra removeram o vidro e levaram o troféu mais importante da história do esporte brasileiro.
Além da Jules Rimet, desapareceram outros troféus históricos, entre eles o Jarrito de Ouro, a Taça Independência e a Copa do Mundo de 1950. Nenhuma dessas perdas, porém, teve impacto semelhante.
A Jules Rimet era mais do que uma peça de ouro. Representava Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto Torres e a Seleção que encantou o mundo no México. Representava a conquista definitiva de um troféu criado para premiar os campeões mundiais. Representava uma parte da memória coletiva do país.
MOBILIZAÇÃO NACIONAL
O desaparecimento transformou-se imediatamente em uma crise nacional. Segurada por 18 milhões de cruzeiros, a taça tornou-se alvo de uma das investigações mais famosas da história policial brasileira.
Uma recompensa milionária foi oferecida para quem fornecesse informações que levassem à sua recuperação. A mobilização envolveu policiais, dirigentes esportivos e autoridades ligadas ao futebol mundial. Nada funcionou
.
As investigações apontaram como mentor da ação Sérgio Pereira Ayres, conhecido como Sérgio Peralta. Bancário, representante do Atlético Mineiro junto à CBF e frequentador assíduo da sede da entidade, ele conhecia a rotina do edifício e também tinha livre circulação pelo local.
Segundo os investigadores, foi ele quem forneceu aos executores as informações necessárias para a realização do roubo histórico.
Os autores identificados foram o ex-policial Francisco José Rocha Rivera, conhecido como Chico Barbudo, e o decorador José Luiz Vieira da Silva, o Luiz Bigode.
Antes da execução do plano, Peralta procurou Antônio Setta, conhecido como Broa, um dos arrombadores mais conhecidos do Rio de Janeiro na época.
A resposta foi negativa. Segundo o próprio Broa, ele se recusou a participar porque seu irmão havia morrido de infarto no dia da conquista da Copa de 1970, ao assistir Carlos Alberto Torres erguer a Jules Rimet.
Dias depois do roubo, foi justamente Broa quem procurou a polícia e ajudou a direcionar as investigações. A partir daí, os investigadores conseguiram reconstruir parte do caminho percorrido pela taça.
Segundo a versão oficial, os ladrões tentaram inicialmente negociar o troféu com um ourives que recusou a proposta. Depois, encontraram o negociante de ouro argentino Juan Carlos Hernandez. A polícia concluiu que a Jules Rimet foi levada para fundição logo após o crime.
A teoria tornou-se a explicação mais aceita para o desaparecimento. Mas jamais foi comprovada de forma definitiva.
Exames feitos posteriormente não identificaram evidências materiais capazes de confirmar que a taça passou pelo forno indicado pela investigação. Nenhum fragmento relevante foi localizado. Nenhum vestígio conclusivo surgiu. Com o passar dos anos, a falta de provas alimentou outra hipótese.
Para investigadores que participaram do caso, a Jules Rimet possuía valor histórico muito superior ao valor do ouro que carregava. A observação levantou uma pergunta incômoda: faria sentido destruir um objeto conhecido em todo o planeta para obter uma quantia relativamente modesta?
A dúvida permanece. Talvez a taça tenha sido fundida. Talvez tenha sido vendida intacta para algum colecionador clandestino. Talvez continue escondida em algum lugar do mundo.
EFEITOS DA MALDIÇÃO
Enquanto o destino da taça permanecia desconhecido, os envolvidos no caso pareciam ser atingidos por uma sucessão de tragédias que alimentaria a chamada “maldição da Jules Rimet”.
Antônio Setta morreu antes de depor em juízo. Chico Barbudo foi assassinado a tiros em 1989, logo após obter liberdade condicional. Luiz Bigode permaneceu foragido durante anos. Hernandez acabaria preso posteriormente por tráfico de drogas.
Sérgio Peralta teve um desfecho igualmente melancólico. Anos depois do roubo, foi encontrado vivendo de uma forma bastante modesta no bairro de Santo Cristo, o mesmo em que havia crescido e onde, segundo a investigação, começou a planejar o crime. Passou os últimos anos negando participação direta na ação e sustentando que havia sido envolvido pelos comparsas. A Justiça nunca aceitou sua versão. Morreu em 2003, pobre, doente e praticamente sozinho. Com ele desapareceram mais algumas respostas. Os processos foram encerrados. As condenações foram cumpridas. Os protagonistas morreram. O mistério permaneceu.
Quarenta anos depois, a principal conquista material da história do futebol brasileiro continua desaparecida.
Não está em museus. Não aparece em coleções conhecidas. Não surge em leilões internacionais. Não deixa rastros.
A Jules Rimet simplesmente desapareceu. E talvez essa seja a parte mais intrigante de toda a história. O Brasil descobriu quem roubou sua taça. Nunca descobriu quem ficou com ela.
O QUE ACONTECEU COM OS ENVOLVIDOS
Sérgio Peralta
Apontado como mentor do roubo, foi condenado a nove anos de prisão. Viveu foragido durante parte da década de 1990, trabalhou como caseiro em Cabo Frio e morreu em 2003, pobre e praticamente isolado.
Chico Barbudo
Ex-policial e um dos executores do assalto. Condenado a nove anos de prisão, ganhou liberdade condicional e foi assassinado a tiros em um bar na região da Gamboa, em 1989.
Luiz Bigode
Decorador e negociante de ouro. Também condenado a nove anos, permaneceu foragido até meados da década de 1990. Cumpriu pena e obteve liberdade condicional em 1998.
Juan Carlos Hernandez
Negociante de ouro argentino acusado de receber a taça e condenado por receptação. Anos depois, foi preso por tráfico de drogas e voltou a frequentar as páginas policiais.
Antônio Setta, o Broa
Arrombador conhecido no Rio de Janeiro e testemunha-chave da investigação, recusou participar do roubo e denunciou os envolvidos. Morreu de infarto em 1985, antes de depor em juízo.
João Batista Maia
Vigia da CBF rendido pelos assaltantes na noite do crime, chegou a ser investigado por contradições em seu depoimento, mas foi inocentado. Morreu anos depois.
A TAÇA QUE FICOU NO LUGAR
Depois que o Brasil conquistou o tricampeonato mundial em 1970 e ficou em definitivo com a Taça Jules Rimet, a Fifa precisou criar um novo símbolo para a Copa do Mundo. A entidade abriu um concurso internacional e recebeu 53 propostas de artistas de sete países. O projeto escolhido foi o do escultor italiano Silvio Gazzaniga, autor da atual Taça da Copa do Mundo Fifa. O novo troféu estreou em 1974, na Copa disputada na Alemanha Ocidental. Feita em ouro 18 quilates, com 36,8 centímetros de altura e 6,175 quilos, a taça mostra duas figuras humanas erguendo o planeta. A imagem traduzia a ideia de vitória, força e universalidade do futebol.
A mudança também trouxe uma regra decisiva. Diferentemente da Jules Rimet, a nova taça não pode ser conquistada em definitivo por nenhuma seleção. Ela permanece sempre sob posse da Fifa.
O campeão mundial apenas a ergue na cerimônia de premiação e recebe depois uma réplica oficial. A segurança passou a fazer parte da própria história do troféu. A taça original não circula livremente nem fica sob guarda das seleções campeãs. Quando aparece em eventos oficiais, viagens promocionais ou cerimônias da Copa, é acompanhada por protocolos rígidos definidos pela Fifa, com transporte controlado, acesso restrito e exposição monitorada. A lógica é simples: depois do desaparecimento da Jules Rimet, o troféu da Copa deixou de ser apenas um prêmio esportivo.
Passou a ser também uma obra de arte sob custódia permanente. Por isso, nenhum país campeão depois de 1974 ficou com o original. A Alemanha Ocidental foi a primeira seleção a levantá-lo. Depois disso, vieram outros campeões, todos sob a mesma regra. A Taça Fifa pertence à Copa, não a uma seleção. Assim, a história dos troféus se divide em duas eras: a Jules Rimet, que podia ser conquistada para sempre, e a Taça Fifa, criada para permanecer eternamente como patrimônio da entidade máxima do futebol mundial.