Abel Lafleur, escultor francês, que criou a taça
Atravessou a guerra, escapou dos nazistas, foi achada por um cachorro, conquistada pelo Brasil e roubada para sempre. A trajetória da Jules Rimet é uma das histórias mais fascinantes e trágicas do esporte mundial
Ela foi escondida em uma caixa de sapatos para escapar dos nazistas, roubada de uma exposição em Londres, encontrada por um cachorro e, décadas depois, desapareceu para sempre no Brasil. Nenhum objeto ligado ao futebol acumulou uma trajetória tão extraordinária quanto a Taça Jules Rimet.
Durante mais de meio século, ela foi o principal símbolo da Copa do Mundo. Com 35 centímetros de altura e cerca de 3,8 quilos, representava Nike, a deusa grega da vitória. Produzida em prata folheada a ouro, tornou-se uma das imagens mais reconhecidas do esporte mundial. Para gerações de torcedores, não era apenas um troféu: era a representação máxima da conquista esportiva.
Enquanto a Copa do Mundo de 2026 movimenta estádios nos Estados Unidos, Canadá e México, a Fifa promove um resgate histórico da Jules Rimet. A entidade voltou a comercializar réplicas oficiais e reforçou a presença do troféu em exposições e ações de memória. O objetivo é lembrar que a história da Copa começou muito antes do troféu atual, criado em 1974.
A Jules Rimet nasceu pelas mãos do escultor francês Abel Lafleur. Inicialmente chamada de Victory, recebeu mais tarde o nome de Jules Rimet, dirigente que presidiu a Fifa entre 1921 e 1954 e transformou em realidade o sonho de uma competição mundial de seleções.
A primeira grande ameaça ao troféu surgiu durante a Segunda Guerra Mundial. Temendo que a peça fosse confiscada pelas tropas nazistas, o dirigente italiano Ottorino Barassi retirou a taça de um cofre bancário em Roma e a escondeu sob sua cama, dentro de uma simples caixa de sapatos. A solução improvisada salvou um dos maiores patrimônios do futebol.
Duas décadas depois, porém, a Jules Rimet desapareceu.
Em março de 1966, poucos meses antes da Copa da Inglaterra, o troféu foi roubado durante uma exposição pública em Londres. O caso provocou enorme repercussão e mobilizou a polícia britânica. Por sete dias, o principal símbolo do futebol mundial esteve desaparecido.
A busca terminou de forma improvável. Um cachorro chamado Pickles encontrou a taça embrulhada em folhas de jornal sob um arbusto no sul de Londres. O animal virou celebridade internacional e entrou para a história das Copas do Mundo.
Quatro anos depois, no México, a Jules Rimet alcançou seu momento de maior glória. Ao derrotar a Itália por 4 a 1 na final da Copa de 1970, diante de mais de 100 mil torcedores no Estádio Azteca, o Brasil conquistou seu terceiro título mundial. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivelino e Carlos Alberto Torres lideravam uma equipe considerada por muitos a melhor seleção de todos os tempos.
Pelas regras da Fifa, o tricampeonato garantia a posse definitiva da taça. A imagem do capitão Carlos Alberto Torres erguendo o troféu tornou-se uma das fotografias mais famosas da história do esporte. A Jules Rimet passava a pertencer ao Brasil. O capítulo final, porém, seria trágico.
Na noite de 19 de dezembro de 1983, criminosos invadiram a sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro. Com um pé de cabra, abriram a parte traseira do expositor onde a taça era guardada e levaram o troféu. Nunca mais foi recuperado.
As investigações apontaram para uma quadrilha especializada em receptação de ouro. Quatro homens foram condenados, mas nenhum revelou o destino da peça. A hipótese mais aceita é que a Jules Rimet tenha sido derretida poucas horas após o roubo e transformada em barras de ouro comuns.
Durante décadas acreditou-se que nada havia restado do troféu original. Mas, em 2015, funcionários da Fifa encontraram uma peça esquecida em um depósito subterrâneo na sede da entidade, em Zurique. Era a base original da Jules Rimet.
Feita de lápis-lazúli azul e com cerca de 10 centímetros de altura, ela traz gravados os nomes dos primeiros campeões mundiais: Uruguai e Itália, cada um com dois títulos conquistados entre 1930 e 1950.
“É como encontrar uma múmia egípcia”, afirmou David Ausseil, diretor criativo do museu da Fifa à época da descoberta. “Você não pode colocar um preço nisso porque são joias de família.”
Hoje, a base está exposta no Museu da Fifa, em Zurique, e é considerada o único fragmento autêntico conhecido da Jules Rimet.
Ao mesmo tempo, a Fifa mantém viva a memória da taça por meio de réplicas licenciadas produzidas em liga de zinco banhada a ouro. Mais do que objetos de coleção, elas representam uma homenagem ao troféu que acompanhou os primeiros capítulos da Copa do Mundo.
A pequena base de lápis-lazúli preservada na Suíça é tudo o que restou fisicamente de uma peça que atravessou guerras, escapou de ladrões, foi conquistada pelo Brasil e desapareceu para sempre.
A Jules Rimet foi perdida pelo mundo. Sua história, não.