Germana -  (crédito: Arquivo)

Irmã Germana

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Serra da Piedade, Sexta-feira Santa de 1842

Pouco antes das três horas da tarde, uma mulher franzina permanecia imóvel diante de testemunhas atônitas. Seus braços estavam abertos em forma de cruz. O rosto apresentava sinais de exaustão. O corpo parecia perder as últimas forças. Ao seu lado, observadores acompanhavam cada movimento com expectativa e devoção.

Décadas depois, o então padre Luiz Antônio dos Santos, que viria a se tornar bispo, registraria o que viu naquele dia. Segundo ele, ao se aproximar das três horas da tarde – horário tradicionalmente associado à morte de Cristo – surgiam sinais que lembravam uma agonia extrema. O corpo oscilava. O suor aparecia. Lágrimas escorriam pelo rosto da mulher conhecida em toda Minas Gerais como Irmã Germana. A cena era apenas mais um capítulo de uma história que já mobilizava a atenção da população havia mais de três décadas.

A trajetória de Germana foi reconstruída pelo promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda em “Irmã Germana – A Exilada de Macaúbas”, obra que reúne documentos, laudos médicos, relatos de viajantes, manuscritos religiosos e testemunhos produzidos ao longo de mais de dois séculos.

A futura personagem de uma das mais fascinantes histórias religiosas do Brasil nasceu longe da fama.

Em 2 de fevereiro de 1782, na Capela de Nossa Senhora de Nazaré de Morro Vermelho, distrito de Caeté, na Grande BH, foi batizada uma menina chamada Germana Maria da Purificação, filha de Marcos Gonçalves Correia e Maria de Nazaré. O registro permanece preservado e constitui a principal prova documental de sua origem.

A família era simples. Não fazia parte da elite da Capitania de Minas Gerais. Segundo documentos pesquisados por Marcos Paulo de Souza Miranda, os pais tiveram quatro filhos: Dionísia, Francisco, Germana e Maria.

A escritora luziense Lúcia Machado de Almeida, que também estudou sua trajetória, descreveu Germana como uma mulher pobre, mulata e profundamente debilitada fisicamente. Segundo a autora, ela se locomovia arrastando-se pelo chão.

 

Instalada junto à Capela da Serra da Piedade, Irmã Germana tornou-se um fenômeno de devoção popular, atraindo milhares de visitantes movidos pelos relatos de seus êxtases e pela reputação de mulher santa
Instalada junto à Capela da Serra da Piedade, Irmã Germana tornou-se um fenômeno de devoção popular, atraindo milhares de visitantes movidos pelos relatos de seus êxtases e pela reputação de mulher santa Arquivo


INTENSA RELIGIOSIDADE

Mas havia algo que chamava atenção daqueles que conviviam com ela. Desde muito jovem, Germana demonstrava intensa religiosidade.

O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire registrou que sua conduta era considerada irrepreensível. Jejuava frequentemente, recusava carne e gordura e passava longos períodos dedicada à oração.

Em razão dessa reputação e de sua crescente devoção, Germana foi acolhida na Serra da Piedade pelo padre José Gonçalves Pereira, vigário de Roças Novas. O sacerdote se tornaria seu confessor e diretor espiritual.

Foi ali, por volta de 1808, que começaram os fenômenos que mudariam sua vida.

Inicialmente descritos como crises nervosas ou histéricas, os episódios passaram a apresentar características cada vez mais extraordinárias. Exorcismos foram tentados. Remédios foram administrados. Nada pareceu alterar a situação.

Segundo Joaquim Norberto de Souza e Silva, um dos principais intelectuais do Império, todas as terças-feiras Germana entrava em estados extáticos nos quais seus braços se cruzavam atrás das costas, reproduzindo simbolicamente os sofrimentos de Cristo durante a flagelação.

Mas os relatos mais impressionantes aconteciam entre quinta-feira e sábado. Nesses períodos, segundo testemunhas, seus braços endureciam em forma de cruz. Os pés permaneciam sobrepostos. A cabeça inclinava-se para o lado esquerdo. Ela não falava, quase não respirava e permanecia imóvel durante horas ou dias.

A notícia espalhou-se rapidamente. Em 1818, atraído pela fama da devota mineira, Auguste de Saint-Hilaire decidiu subir a Serra da Piedade para observá-la pessoalmente. O cientista encontrou uma mulher extremamente debilitada. “Poder-se-ia acreditá-la morta”, escreveu.

Ao examinar Germana, observou mãos geladas, pulso quase imperceptível e rigidez muscular extraordinária. Tentou mover seus braços, mas não conseguiu. Mesmo assim, o que mais lhe chamou atenção foi a serenidade daquela mulher. Ao perguntar como se sentia, ouviu uma resposta simples. “Melhor do que merecia.” A frase atravessaria os séculos.

Assim como a fama da mulher que transformou uma pequena cela na Serra da Piedade em um dos locais mais visitados de Minas Gerais durante a primeira metade do século XIX.

 

Arquivo

 

SANTA OU DOENTE?

Serra da Piedade, 2 de abril de 1814

A pequena cela onde Germana vivia voltou a receber visitantes ilustres. Desta vez, não eram romeiros. Nem devotos. Nem curiosos. Eram homens da ciência.
Os cirurgiões Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva haviam sido chamados para examinar a mulher que já começava a despertar atenção em diversas regiões da Capitania de Minas Gerais.

Os relatos sobre seus êxtases se multiplicavam. Falava-se de jejuns prolongados. De períodos sem alimentação. De estados de imobilidade absoluta. De rigidez muscular tão intensa que ninguém conseguia alterar a posição de seus membros.

Os dois profissionais passaram horas observando Germana. O resultado daquele exame se transformaria em um dos documentos mais importantes de toda a história da religiosa.

O episódio é detalhado pelo promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda no livro “Irmã Germana – A Exilada de Macaúbas”, que reúne a íntegra dos principais documentos produzidos ao longo do século XIX sobre o caso.

Segundo o relatório elaborado naquele dia, Germana permanecia durante os êxtases com os braços abertos em forma de cruz, os pés sobrepostos e o corpo praticamente imóvel.

Os médicos registraram que ela suportava longos períodos sem alimentação adequada e que apresentava reações consideradas extraordinárias durante a administração da comunhão.

Após analisarem o caso, os cirurgiões surpreenderam. Em vez de oferecer uma explicação científica, declararam não encontrar causas naturais capazes de justificar os fenômenos observados.

“Só nos enche de admiração e respeito para com o Ser Supremo”, concluíram. A repercussão foi imediata.

Na prática, dois homens da ciência haviam admitido que não conseguiam explicar aquilo que presenciavam.

Para os devotos, a conclusão representava uma confirmação. Para outros médicos, era exatamente o contrário.


CONTESTAÇÃO PÚBLICA

O mais severo crítico do relatório foi Antônio Gonçalves Gomide. Nascido em Mariana em 1770, Gomide era um dos intelectuais mais respeitados do Brasil da época.

Formado em medicina pela Universidade de Coimbra, defendia uma visão racionalista e iluminista da ciência. Quando tomou conhecimento do parecer dos colegas, decidiu contestá-lo publicamente.

Ainda em 1814, publicou um texto inteiramente dedicado ao caso de Germana. Seu tom era duro. Segundo Gomide, os médicos haviam se deixado influenciar pela religiosidade popular. “Não viestes observar uma catale?ptica; vinheis de casa prevenidos a ver huma Santa”, escreveu.

Para ele, os fenômenos não eram sobrenaturais. Eram sintomas de uma doença. Seu diagnóstico apontava para a catalepsia, enfermidade caracterizada por rigidez muscular, imobilidade e alterações da consciência.

O problema era que Gomide jamais examinou Germana pessoalmente. Toda sua análise foi construída a partir de relatos produzidos por terceiros. A observação seria utilizada por seus críticos durante décadas.

Enquanto médicos discutiam, os êxtases continuavam. E a fama de Germana só aumentava.

Em 1818, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire chegou à Serra da Piedade disposto a investigar pessoalmente os acontecimentos.


Ao contrário dos médicos envolvidos na polêmica, o cientista preferiu uma postura cautelosa. Limitou-se a descrever aquilo que observou. O relato impressiona ainda hoje.

Saint-Hilaire encontrou Germana deitada, com os braços abertos em cruz. As mãos estavam frias. O pulso quase não podia ser percebido. Seu corpo apresentava rigidez extrema. “Poder-se-ia acreditá-la morta”, registrou.

Quando tentou dobrar seus braços, encontrou tamanha resistência que desistiu da tentativa para não provocar lesões. Mesmo diante da cena, evitou emitir um diagnóstico definitivo.

A prudência do francês contrastava tanto com os médicos que falavam em milagre quanto com aqueles que defendiam uma explicação exclusivamente clínica.


A controvérsia ganhou um novo capítulo em julho de 1822. Durante visita pastoral à Serra da Piedade, Dom José da Santíssima Trindade decidiu conhecer pessoalmente a mulher que dividia opiniões em Minas Gerais.

O bispo observou seus êxtases, conversou com testemunhas e produziu um dos mais importantes depoimentos da Igreja sobre o caso.

Segundo seu relato, Germana encontrava-se extremamente debilitada, reduzida quase a um esqueleto, mas demonstrava paciência, serenidade e profunda devoção religiosa.

Ao comentar as críticas de Gomide, fez uma observação que atravessaria os séculos. “Esforçou-se o médico Gomide para persuadir que pode ser embuste, ou malícia, ou moléstia natural, mas o certo é que mais parece sobrenatural.”


DILEMA PERMANENTE

A frase resume perfeitamente o dilema que acompanharia Germana até o fim da vida. De um lado estavam os homens da ciência. Do outro, os homens da fé. No centro da discussão permanecia uma mulher pobre, debilitada e incapaz de controlar a repercussão produzida pelos acontecimentos ao seu redor.

Mais de 200 anos depois, a pergunta continua sem resposta definitiva.Era uma doença? Era um milagre? Ou uma combinação de fenômenos físicos e das experiências místicas que a ciência do século XIX não conseguia compreender? A história nunca ofereceu uma conclusão incontestável. Mas o debate ajudou a transformar Irmã Germana em uma das personagens mais intrigantes do Brasil Imperial.


Quem foi a irmã germana

• Nasceu em 2 de fevereiro de 1782, em Morro Vermelho, distrito de Caeté.

• Era filha de Marcos Gonçalves Correia e Maria de Nazaré.

Viveu durante décadas na Serra da Piedade.

• Tornou-se conhecida por seus estados de êxtase e crucificação mística.

• Foi observada por Auguste de Saint-Hilaire em 1818.

• Em 1843 seria transferida para Macaúbas, em Santa Luzia, onde viveria os últimos anos de sua vida.


FÉ X CIÊNCIA

1814
• Antônio Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva concluem que os fenômenos não possuem explicação natural conhecida.

1814
• Antônio Gonçalves Gomide atribui os êxtases à catalepsia.

1818
• Auguste de Saint-Hilaire observa Germana na Serra da Piedade.

1822
• Dom José da Santíssima Trindade afirma que os fenômenos lhe pareciam mais sobrenaturais do que naturais.

Até hoje
• Não existe consenso definitivo sobre a origem dos fenômenos observados em Irmã Germana.

O CAMINHO DO EXÍLIO

1813
Mais de 2 mil pessoas participam das romarias na Serra da Piedade.

7 de julho de 1817
Beatas lideradas por Clara da Paixão de Cristo pedem autorização para criar um recolhimento feminino na serra.

1818
Spix e Martius registram que Germana havia sido afastada por uma determinação das autoridades.

Após reação popular, ela retorna à Serra da Piedade.

11 de março de 1843
Dom Antônio Ferreira Viçoso recomenda sua transferência definitiva.

5 de setembro de 1843
O bispado autoriza sua entrada em Macaúbas.

17 de setembro de 1843
Germana e Dionísia chegam ao Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, em Santa Luzia.


O legado

14 de janeiro de 1856
Morre Irmã Germana em Macaúbas, aos 73 anos.

15 de janeiro de 1856
É sepultada no coro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

1859
JoaquimNorberto publica uma das primeiras biografias sobre Germana.

1881
Dom Pedro II registra referências à sua fama de santidade.

Século 19
O rosário, a imagem do Menino Jesus e o manto passam a ser preservados como relíquias.

2023
Marcos Paulo de Souza Miranda publica “Irmã Germana – A Exilada de Macaúbas”, reunindo
documentos históricos e relatos sobre sua trajetória.