Conduzidos pelo médico e historiador Milton Pena, os repórteres da revista ‘O cruzeiro’, Jorge Audi e Elias Nasser, constataram o descaso com a Princesa Isabel: o Seu caixão repousa em um esquife de madeira, coberto por um pano verde desbotado, no porão da Catedral Metropolitana do rio de janeiro, com sinais de infiltração visíveis -  (crédito: REVISTA ‘O CRUZEIRO’)

Conduzidos pelo médico e historiador Milton Pena, os repórteres da revista ‘O Cruzeiro’, Jorge Audi e Elias Nasser, constataram o descaso com a Princesa Isabel: seu caixão repousa em um esquife de madeira, coberto por um pano verde desbotado, no porão da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, com sinais de infiltração visíveis

crédito: REVISTA ‘O CRUZEIRO’

Hoje, a Princesa Isabel está sepultada na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petropólis, no Rio de Janeiro, destino que só se consolidou em 1971, após décadas de indefinição que atravessaram boa parte do século 20. A imagem atual, de repouso no mausoléu imperial, sugere estabilidade e reverência, mas houve um período, relativamente recente, em que essa memória esteve associada ao abandono, à precariedade e ao silêncio institucional. Em março de 1966, a revista “O Cruzeiro” rompeu esse silêncio ao publicar a reportagem “A princesa insepulta”, que expunha um cenário que ia além do descuido material e revelava a dificuldade do Brasil em lidar com sua própria história, especialmente quando ela atravessa rupturas políticas e mudanças de regime.

“Aqui, no Estado da Guanabara, jaz, insepulta, a Princesa Isabel (…) seu corpo repousa num local provisório, que os anos tornarão definitivo e humilhante.” A força do texto está na cena direta. O leitor é conduzido ao subterrâneo da antiga Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, onde os esquifes estavam instalados desde a repatriação dos restos mortais, em 1953. “Toscas armações de madeira, cobertas por um pano desbotado e em deterioração, servem de proteção aos esquifes.” A descrição avança quase de forma sensorial: “Já nas escadas que levam ao subterrâneo (…) sente-se um cheiro de mofo e umidade sufocantes. No chão, restos de poças d’água.” O ambiente descrito não deixa margem para interpretação. Umidade, infiltrações e risco de deterioração indicam mais do que negligência administrativa. Revelam uma falha estrutural na preservação da memória.

O peso da denúncia aumenta quando se observa o contexto. Em 1966, “O Cruzeiro” ainda figurava entre as revistas mais influentes do país, herdeira de um modelo de jornalismo que combinava narrativa, fotografia e interpretação. Ao mesmo tempo, o Brasil vivia sob o regime militar instaurado dois anos antes, período marcado por disputas silenciosas sobre a construção da memória nacional. Revisitar a figura da princesa significava revisitar o Império, a escravidão e a própria formação da República.

A trajetória da Princesa Isabel ajuda a compreender esse desconforto. Morta em 1921, na cidade de Eu, na França, onde vivia exilada desde a Proclamação da República em 1889, permaneceu sepultada ali por mais de três décadas, ao lado de Gaston d’Orléans. O exílio, nesse caso, ultrapassa o território físico e assume dimensão simbólica. A revogação do decreto de banimento, em 1920, abriu caminho para o retorno da família imperial, mas a repatriação dos restos mortais só ocorreria em 1953 – e, como revelaria a reportagem, não resolveria o problema. Ao contrário, inauguraria um novo período de indefinição, marcado pelo improviso. A expressão “princesa insepulta”, portanto, ultrapassa o sentido literal. Funciona como conceito histórico ao nomear o intervalo entre reconhecimento formal e preservação efetiva da memória. Um intervalo em que o Brasil, mesmo diante de seus próprios símbolos, parece hesitar.

REVISTA ‘O CRUZEIRO’

‘‘Esta coroa de bronze acompanhava o caixão do Conde d’Eu. Chegou inteira em 1953, junto com os corpos. Hoje, ela retrata nosso descaso, partida e encostada a uma parede, no chão com sinais da última enchente’’

Em 12 de março de 1966, a revista ‘O Cruzeiro’ já apontava, em tom crítico, o abandono desse patrimônio


Entre honras e abandono

 
Se a imagem construída pela reportagem de “O Cruzeiro” de 1966 é a de abandono, o contraste se intensifica quando o texto recua para 1953, momento do retorno dos restos mortais ao Brasil. A cena é outra: solene, marcada por rituais e gestos de reconhecimento oficial. “Do Havre, em 1953, o Cruzador Barroso conduziu os corpos de volta ao Brasil.” A travessia encerrava um exílio iniciado em 1889, quando a monarquia foi derrubada e a família imperial obrigada a deixar o país. Os restos mortais da Princesa Isabel e de Gaston d’Orléans haviam sido exumados do Castelo de Dreux, na França, onde permaneciam desde o início do século.

O retorno foi cercado de cerimônias. “Discursos brilhantes e muitas outras homenagens. 21 tiros saudaram o retorno à Pátria de Isabel, a Redentora.” A linguagem da reportagem registra esse momento como tentativa de reparação histórica. Mais de seis décadas após a queda da monarquia, o Estado brasileiro parecia disposto a reconhecer, ainda que tardiamente, o papel da princesa. No entanto, a narrativa utiliza essa solenidade como contraponto. “Os esquifes foram provisoriamente para a Catedral Metropolitana (…) não mais saíram do improviso.” O provisório se estendeu por anos, e é nesse intervalo que se instala a contradição central.

“Não foi certamente para esse espetáculo constrangedor que o Brasil reclamou o corpo de Isabel.” A frase carrega julgamento explícito. A descrição do ambiente reforça essa crítica: “Um metro atinge à água ali (…) as marcas são evidentes e fazem supor uma infiltração nos caixões.” A possibilidade de deterioração dos corpos amplia o impacto. Não se trata apenas de falta de solenidade, mas de risco físico concreto. A situação de Gaston d’Orléans intensifica esse quadro. “Sem sequer uma cruz ou uma placa sobre o caixão. Nada que identifique o Marechal-de-Campo do Exército Brasileiro.” A ausência de identificação transforma a negligência em apagamento histórico.

A ironia surge de forma inevitável. “O dístico (…) hoje soa como ironia: ‘Homenagem do Governo da República’.” O que deveria representar reconhecimento passa a evidenciar a distância entre discurso e prática. Outro elemento reforça essa construção simbólica: “No chão, encostado na parede, o símbolo do nosso descaso: uma coroa de bronze partida.” A imagem é síntese. A coroa, que chegou intacta ao Brasil em 1953, aparece quebrada poucos anos depois, materializando o abandono descrito pela reportagem.

Ao articular essas imagens, o texto constrói uma leitura mais ampla. A negligência não é episódica. Ela revela uma dificuldade estrutural do Estado brasileiro em transformar reconhecimento simbólico em ação concreta. Entre o gesto solene de 1953 e a denúncia de 1966, estabelece-se um intervalo de esquecimento, um espaço em que a memória permanece suspensa, sem destino definido, exatamente como os corpos descritos pela reportagem.

 

REVISTA ‘O CRUZEIRO’

Do exílio ao mausoléu


1889 Proclamação da República e início do exílio da família imperial

1920 Revogação do banimento que impedia o retorno ao Brasil

1921 Morte da Princesa Isabel na França, aos 75 anos, onde inicialmente foi sepultada

1953 Repatriação com cerimônia oficial e traslado naval

1953/1971 Permanência provisória no Rio de Janeiro, sem solução definitiva

1971 Transferência para Petrópolis e sepultamento no mausoléu imperial