Reunião ministerial no Palácio do Planalto durante a implementação do Plano Cruzado, em 1986: o então presidente da república, José SarneY, e seus ministros discutem medidas para sustentar o congelamento de preços em meio aos primeiros sinais de desabastecimento e pressão inflacionária -  (crédito: Arquivo EM)

Reunião ministerial no Palácio do Planalto durante a implementação do Plano Cruzado, em 1986: o então presidente da república, José SarneY, e seus ministros discutem medidas para sustentar o congelamento de preços em meio aos primeiros sinais de desabastecimento e pressão inflacionária

crédito: Arquivo EM

Há 40 anos, quando o “senhor de bigode” atravessou a tela com solenidade e, com o seu costumeiro tom pausado, anunciou: “Brasileiros e brasileiras...”, o país parou para ouvir. Em seguida, apresentou o Plano Cruzado como resposta à escalada dos preços e cravou: “Iniciamos hoje uma guerra de vida ou morte contra a inflação”. Era José Sarney inaugurando uma promessa que, por um breve instante, pareceu possível. As etiquetas silenciaram, os preços se aquietaram, e a vida cotidiana ganhou previsibilidade. Mas a ordem era apenas aparente. Sob a superfície, a economia se reorganizava em tensão: mercadorias rareavam, prateleiras se esvaziavam e o valor das coisas migrava para territórios invisíveis. Quarenta anos depois, o país reconhece os limites daquela experiência. Vieram outras tentativas, entre congelamentos e choques, até que a estabilidade ganhasse forma com o Plano Real.

O gerente percebeu antes de todo mundo. Era início de março de 1986 quando ele decidiu tirar o café da prateleira e guardar no estoque. O preço estava congelado, como mandava o novo plano do governo. Mas o custo já não era o mesmo. Vender significava perder dinheiro.

Do lado de fora, clientes discutiam valores com caixas. Alguns levavam cadernos para anotar preços. Outros apontavam para etiquetas, desconfiados. Havia uma palavra nova circulando nos corredores: fiscalização.

Naquela semana, o Brasil acreditava que a inflação tinha acabado.

No dia 28 de fevereiro, em cadeia nacional, o presidente José Sarney anunciou o Plano Cruzado com uma frase que atravessaria décadas: “A partir deste momento, não haverá mais inflação”.

No mesmo pronunciamento, reforçou o tom de urgência: “Iniciamos hoje uma guerra de vida ou morte contra a inflação”.

O discurso era mais do que técnico. Era um chamado. “Esta é uma convocação para que juntos, governo e povo, tomemos uma decisão grave e difícil”, afirmou. “Ela marcará a história de nosso país nos próximos anos.”

O país vinha de um período de descontrole extremo. Dados da Fundação Getulio Vargas mostram que a inflação anualizada no início de 1986 alcançava 517%. Em 1985, meses com mais de 20% de alta eram rotina. O dinheiro perdia valor enquanto ainda estava no bolso.

O plano prometia uma ruptura. Criava uma nova moeda, o cruzado, substituindo o cruzeiro na proporção de 1 para 1.000. Eliminava três zeros e, com eles, a tentativa de recomeçar a contagem do tempo econômico. Mais importante: congelava preços, salários, aluguéis e contratos.

A decisão era apresentada como inevitável. “Determinamos mudanças fundamentais e chegamos à exaustão nos caminhos paliativos”, disse o presidente. “É hora de dizer que os inexplicáveis caminhos do declínio não levam à estabilidade.”

Tudo ficava parado. A lógica era simples e ousada. Se a inflação se alimentava da expectativa de que os preços continuariam subindo, bastava interromper essa dinâmica. Parar os reajustes. Desligar a memória.

Nos primeiros dias, a nova ordem funcionou.

A inflação desapareceu dos índices. Em março, ficou próxima de zero. Pela primeira vez em anos, o brasileiro não precisava correr para comprar antes que o preço mudasse. O salário, ainda que o mesmo, passou a valer mais.

E isso mudou o comportamento.

Famílias voltaram a consumir. Supermercados ficaram cheios. O país entrou em um raro momento de previsibilidade. O que antes era urgência virou escolha.

Nascia também um personagem coletivo. Clientes passaram a vigiar preços. Conferiam etiquetas, denunciavam os aumentos e confrontavam os gerentes. Eram os “fiscais do Sarney”. Uma política econômica havia se transformado em prática cotidiana. Não era apenas economia. Era mobilização.

O governo reforçava essa ideia. “Contamos com o apoio de todos. A responsabilidade é compartilhada entre governo, empresários e trabalhadores”, afirmou Sarney.

Em outro trecho, buscou dar dimensão social à medida: “A inflação é o maior inimigo do povo. Corrói salários, destrói economias e compromete o futuro”.

Economistas de diferentes correntes apoiaram o plano. A ideia de inflação inercial, de que os preços subiam porque todos esperavam que subissem, fazia sentido em um país profundamente indexado. Romper esse ciclo parecia possível.

Mas havia um detalhe invisível naquele momento.

Enquanto consumidores celebravam a estabilidade, empresas começavam a fazer contas. Custos continuavam subindo. Insumos encareciam. A produção não obedecia ao decreto.

O próprio governo reconhecia o risco. “Sabemos que o combate à inflação exigirá sacrifícios”, disse o presidente. “Mas o povo brasileiro já demonstrou sua capacidade de superação.”

O sistema de preços havia sido interrompido, mas a economia não. No início, isso não importava. As prateleiras ainda estavam cheias. O dinheiro ainda rendia. A inflação ainda não existia, pelo menos não nos números.

O Plano Cruzado funcionava porque todos acreditavam que ele funcionava. E, por alguns meses, isso foi suficiente.


Os arquitetos de uma promessa que parou o Brasil


Os economistas que desenharam um plano que só começou bem...

Dilson Funaro

Empresário, assumiu a Fazenda no governo José Sarney e foi o principal fiador político do Plano Cruzado. Sustentou o congelamento de preços, que garantiu apoio popular imediato. Com o colapso, deixou o cargo em 1987. Morreu em 1989, com sua imagem ligada ao plano.

João Sayad

Professor da USP, foi ministro do Planejamento e articulador do Cruzado. Defensor da atuação estatal, coordenou a execução do plano. Após o fracasso, seguiu na vida pública e acadêmica. Morreu em 2021.

Luiz Gonzaga Belluzzo

Professor da Unicamp, participou da base heterodoxa do plano, defendendo intervenção estatal. Tornou-se uma das principais vozes críticas do liberalismo econômico e referência no debate público.

Edmar Bacha

Teórico da inflação inercial, influenciou o ambiente conceitual do Cruzado. Depois, teve papel central no Plano Real e ocupou cargos relevantes no Banco Central.

André Lara Resende

Economista com formação internacional, contribuiu para a interpretação da inflação como fenômeno inercial. Mais tarde, foi um dos arquitetos do Plano Real e segue ativo no debate econômico.

Pérsio Arida

Intelectual da geração da inflação inercial, participou do ambiente teórico do Cruzado. Tornou-se um dos principais formuladores do Plano Real e referência no mercado financeiro.

Francisco Lopes

Especialista em inflação, contribuiu para a base teórica do Cruzado. Participou de outros planos e presidiu o Banco Central. Morreu em 2011.