Bistrô na serra do Rio de Janeiro é destino de turistas, inclusive mineiros
Liderado por uma chef e um sommelier e mixologista, charmoso restaurante é movido a paixão e carinho pelos ingredientes e pelas pessoas
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Ela é chef e ele, sommelier e mixologista. Juntos, comandam um charmoso bistrô em Secretário, distrito da cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Desde a concepção do Catarina’s Bar e Bistrô até o funcionamento no dia a dia, uma palavra predomina: carinho – compartilhado pelo casal de sócios, Catarina Von Seehausen, de 35 anos, e Raphael Renaldin, de 34, funcionários e clientes.
Muitos visitantes conhecem a casa por meio das redes sociais, onde Catarina exerce a função de influenciadora de gastronomia. Foi essa, aliás, a primeira ligação profissional dela com o setor. De tanto visitar lugares e fazer avaliações em seu perfil, a jovem, que já era formada em relações internacionais e artes cênicas, decidiu cursar gastronomia.
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“Quando entrei na Le Cordon Bleu, senti que foi um divisor de águas. Ali passei a ser vista com outros olhos, parece que ganhei mais credibilidade”, conta, dizendo ainda que sentia falta, nos seus vídeos, de um conhecimento maior para poder falar com mais propriedade dos menus que experimentava.
Produção de cookies
O sonho de ter um restaurante nem sempre esteve ali, na mira de Catarina, carinhosamente conhecida como Cat. Essa história toda teve um começo inusitado, em plena pandemia, antes mesmo do curso de gastronomia (iniciado em 2021), com uma produção caseira de cookies.
“Quando começou a pandemia, estava com uma peça de teatro em cartaz, mas tudo parou. Não consigo ficar parada, então comecei a fazer muitas receitas e postar nas minhas redes sociais. Um dia, fiz um cookie e começaram a me pedir para entregar, para vender. Naquele dia, um seguidor já passou na minha portaria e comprou meus cookies. Me lembro que não tinha nem embalagem, coloquei em um pedaço de papel-manteiga e escrevi à mão.”
Em pouco tempo, havia 50 clientes fazendo pedidos para um mesmo dia. Catarina e Raphael, que já viviam juntos, viravam noites para conseguir atender a demanda. “A gente tinha um forninho que dava para assar cinco biscoitos de cada vez. Passávamos a noite fazendo e embalando para depois entregarmos”, relembra.
Depois de passar pela Le Cordon Bleu, Catarina se especializou ainda mais nos doces e abriu uma marca: a Cat Vonsweets (que não existe mais). “Depois que ‘bombou’, comecei a falar com o Rapha que estava na hora de profissionalizar o negócio. Tirar a produção da cozinha de casa e encontrar um lugar”, explica.
Ponto perfeito
Raphael, por sua vez, que sempre se interessou pela coquetelaria (está na área há 16 anos) e chegou a passar pela Nova Zelândia e Canadá estudando, já estava trabalhando em um restaurante em Secretário (RJ) aos fins de semana. Andando pelo pequeno e simpático distrito, ele se encantou com uma loja. “De repente, ele me ligou falando que tinha achado o lugar perfeito para o nosso bistrô, sendo que eu precisava apenas de um espaço para ser minha cozinha de produção no Rio”, lembra Cat.
Ele convenceu a mulher a visitar o espaço, marcou com a proprietária e, daí em diante, não teve mais volta. “A gente sentiu que era aquilo mesmo, mas estávamos com o dinheiro contado. Fui até mestre de obras, a Cat decorou as paredes com flores, minha mãe [que mora na Espanha] ia ajudando pelo Facetime… Foi na marra”, brinca o sócio do Catarina’s.
Inauguração com brunch
Assim, há pouco mais de dois anos, as portas do bistrô foram abertas – contrariando os pensamentos de Raphael, que diziam que esse sonho de ter um bar para receber clientes e amigos ainda demoraria a se concretizar.
Inicialmente, o Catarina’s funcionava como brunch aos fins de semana. “As pessoas não estavam indo. Depois, fomos entendendo que nossos clientes são pessoas que vão para Secretário para descansar, dormir até mais tarde e não saem cedo”, explica a chef. Além do baixo movimento, o ticket médio do negócio era baixo, justamente pela escolha dos itens servidos – e tudo isso os fez repensar a operação.
Carnes e parrilla
Por isso, esse formato durou apenas um mês. “Nós temos um grande amigo que apelidamos de ‘padrinho do bistrô’, o Marcelo Malta, dono do Malta Beef Club [restaurante de carnes na capital fluminense], com quem dividimos essa experiência do brunch, que não havia dado certo. Ele nos disse que devíamos trabalhar com carne, que brasileiro gosta disso. E como demonstração de gratidão pelo ‘marketing orgânico’ que eu, como influenciadora, havia gerado para o restaurante dele, nos deu uma parrilla e um mês de carnes para vendermos no que se tornou, enfim, o bistrô. E hoje elas são um sucesso”, conta Cat.
Entranha (R$ 120 – 250g); bife ancho (R$ 220 – 450g); fraldinha red (R$ 220 – 450g); picanha (R$ 280 – 600g); pirarucu da Amazônia (R$ 98 – 300g); e linguiça artesanal (R$ 45) são as carnes que saem da brasa na parte do almoço de sexta, sábado e domingo.
De acompanhamentos, o milho com maionese da casa e farofa de pão (R$ 45), o pão de alho feito com sourdough e pasta de alho caseira (R$ 32) e até a salada Caeser na parrilla (R$ 35) não ficam para trás quando o assunto é o apreço dos clientes.
Influências asiáticas
Apesar do sucesso da parrilla, o menu de jantar do bistrô também chama a atenção, principalmente pela influência asiática. “Queríamos que o bistrô fosse a extensão da nossa casa e a gente gosta muito de comida asiática”, reforça Raphael.
Exemplo perfeito disso é o crudo de atum com pães de fermentação natural (R$ 85). Preparado com temperos asiáticos, ele era feito pelo casal em casa e hoje é o segundo item mais vendido do restaurante, atrás apenas da água com gás. “Conseguimos um fornecedor que entrega o peixe fresquíssimo na nossa porta”, conta a chef, explicando justamente o porquê de o resultado final desmanchar na boca.
A não menos impressionante gyoza de rabada (R$ 42) também exprime bem esse tempero asiático apreciado pela dupla. Aqui, ele se traduz em uma massa delicada e um recheio suculento, que é finalizado com o toque levemente cítrico do molho ponzu.
Com outras influências, itens como o steak tartare com batatas fritas (R$ 78); hambúrguer com pasta de alho, queijo Minas padrão, servido sobre fonduta de parmesão com trufas negras (R$ 75); e a carne de panela com creme de queijo e pães de fermentação natural (R$ 84) também marcam presença no menu democrático.
A sobremesa de maior sucesso – por ironia do destino – é um cookie, doce que marcou o começo de toda essa história. Agora, são dois discos recheados com um leve sorvete de cumaru. Por cima, vai uma camada de doce de leite mineiro (Rocca) e uma pitada de flor de sal.
“Tokyo Thursdays”
Justamente por estarem em uma pequena localidade e por serem o destino de muitos clientes que viajam até Secretário para conhecer o bistrô, Raphael e Catarina apostaram em um terceiro menu. Intituladas “Tokyo Thursdays”, as quintas-feiras na casa funcionam com um cardápio próprio e ainda mais asiático.
Entre os pratos servidos, destacam-se os cubos de atum com ovas massago (R$ 69); o espetinho de porco na brasa (R$ 25); e o brioche recheado com camarão batidinho e molho apimentado (R$ 64).
Equipe dedicada
O cuidado com o cliente e com a equipe é prioridade para os proprietários do bistrô. Não por acaso, a primeira página do cardápio é justamente uma pequena apresentação de cada um dos funcionários, que atualmente são: Ricardo Millington; Junior Santana, Bruno Mendonça (mineiro de Juiz de Fora), Livia Barros e Mariellen Lopes (que faz “freelas” recorrentes por lá).
“O jeito que tratamos os nossos colaboradores é como eles tratam os clientes. Sempre falo que eles são maravilhosos e que nada estaria ali se não fosse por eles também”, diz Cat.
A chef também reforça como a equipe toda – incluindo ela própria e o Raphael, que foram grandes exemplos nesse quesito – dedicam-se ao bistrô. “Sempre viram como a gente trabalhou muito, às vezes 15 horas no restaurante. É muito trabalho, não tem fórmula mágica”, reforça o sócio do estabelecimento.
Se essa dedicação é combustível para a equipe, ela também é, certamente, importante para o público. Além de avaliações de restaurantes, Cat posta parte da rotina à frente do bistrô, deixando claro não só o lado glamouroso da profissão.
A dupla acredita que o trabalho nas redes sociais é aliado do atendimento e do sabor. “É como se a Catarina captasse os clientes e o nosso trabalho fosse mantê-los, fidelizá-los”, comenta Raphael.
Atmosfera despretensiosa
O serviço e o menu são despretensiosos, o que não quer dizer que não haja técnica ou rigor, pelo contrário: tudo isso faz parte do dia a dia ali, mas não necessariamente está descrito. “Queremos vender comida boa e trabalhar com um ótimo atendimento”, destaca a chef.
Ela reforça, aliás, que seu rigor é imprescindível numa casa que leva seu nome. “Sou muito exigente com todos os detalhes. Escolho tudo de lá, desde as louças aos insumos, e sou muito criteriosa, até porque o bistrô leva o meu nome.”
Grávida de seis meses e, por isso, ficando mais no Rio de Janeiro do que em Secretário, Cat conta mais do que nunca com o apoio da equipe do bistrô para preservar a qualidade do lugar.
Complexidade discreta
Quem lê a carta de drinques do Catarina’s Bar e Bistrô pode nem ter noção do trabalho por trás de determinadas receitas. A seleção de bebidas, assinada pelo mixologista, sommelier e sócio da casa, Raphael Renaldin, é dividida entre os clássicos e os autorais – onde ele solta a imaginação.
Em preparos como o BloodyCat (R$ 45), um Bloody Mary feito em homenagem a Catarina Von Seehausen, sua companheira e sócia, fica clara a importância de cada etapa bem-feita. O suco de tomate usado é feito no dia ou, no máximo, um dia antes – caso contrário começa a fermentar. O coquetel ainda leva, entre outros ingredientes, bitter de kombu (alga), shoyu, furikake, wasabi e óleo de gergelim.
Tão surpreendente quanto e seguindo a mesma linha asiática, o Sunomono Spritz (R$ 45) tem perfil mais refrescante. Leva shurb (xarope concentrado artesanal) de pepino, vodca, saquê e tônica.
Drinques clarificados
Uma das paixões de Raphael no mundo da coquetelaria é a clarificação, técnica de filtragem da bebida que utiliza leite e derivados e resulta em preparos cristalinos. “Quando descobri essa técnica, ‘pirei’. Para mim, num drinque prazeroso, você não sente o álcool, ele precisa ser equilibrado”, diz o mixologista, chamando a atenção para outro resultado da clarificação: tirar aquela ardência extrema de uma bebida alcoólica.
No Catarina’s, há alguns exemplos de drinques que passam por esse processo. Na Pina Descolada Milk Punch (R$ 45), coquetel que leva cachaça, rum, cumaru, abacaxi assado na brasa, limão tahiti e leite de coco defumado, por exemplo, sentimos de fato o sabor dos destilados, e não aquela sensação quase adstringente.
O mesmo acontece com os coquetéis que homenageiam os donos da casa: o Catarina’s Milk Punch (R$ 45) e Rapha’s Milk Punch (R$ 45). A bebida dela é mais leve, feita com gim, maracujá, xarope de mel, limão siciliano e puxuri. Já o drinque dele é mais intenso e levemente adocicado, feito com bourbon, xarope de frutas vermelhas, limão siciliano e angostura.
Rapha conta que, para além de somar muito no que diz respeito ao sensorial, a clarificação tem implicações na dinâmica da casa. Isso porque, apesar de ser um processo demorado, que pode levar dias, já permite que o coquetel esteja pronto, com todos ingredientes misturados, durante todo o serviço. Quando sai o pedido, basta servir o líquido em uma taça.
Vinhos
A seleção de vinhos da casa muda constantemente – não há uma carta. Os clientes encontram uma prateleira repleta de rótulos – sobretudo nacionais, que somam cerca de 80% e incluem produções de quatro vinícolas da própria região serrana do Rio, onde fica o restaurante – por onde podem explorar e escolher uma garrafa para degustar lá ou mesmo para levar para a casa.
Entre os vinhos importados, que são minoria, o foco são os não-convencionais, como os biodinâmicos. São vinhos orgânicos feitos com base na antroposofia de Rudolf Steiner, uma filosofia que busca o equilíbrio do ambiente como um todo. Nesse modelo, produtores seguem o calendário lunar para a poda colheita e plantio.
“A ideia do bistrô, como um todo, é ser uma extensão da nossa casa. Servir o que a gente gosta. Até por isso, é fácil da gente vender, não tem muita história, é basicamente o que a gente ama”, conta Raphael, justificando escolhas de todo o conceito do negócio e também dos rótulos oferecidos.
Anote a receita: BloodyCat
Ingredientes:
- 30ml de gim;
- 120ml de suco de tomate fresco;
- 5ml de bitter de kombu;
- 5ml de shoyu;
- 5ml de wasabi;
- 30ml de suco de limão tahiti;
- 5ml de óleo de gergelim;
- 10ml de garum de algas (condimento feito à base de fermentação de algas);
- Furikake para a decoração;
- Kimchi para finalizar (opcional).
Modo de fazer:
- Em uma coqueteleira, adicione todos os ingredientes com algumas pedras de gelo.
- Em vez de bater o drinque, utilize a técnica de “throwing”: passe a mistura de uma coqueteleira para a outra, criando um fluxo contínuo no ar. Esse processo ajuda a aerar e integrar os ingredientes sem diluir demais a bebida, preservando a textura característica do BloodyCat.
- Coe a mistura.
- Sirva em um novo copo com gelo e finalize com kimchi ou alguma outra guarnição da sua preferência.
Serviço
Catarina’s Bar e Bistrô (@catarinasbarebistro)
Estrada do Secretário, 180, Secretário (RJ)
(21) 99642-8537
Quinta, das 18h às 22h
Sexta, das 12h30 às 22h
Sábado, das 12h às 22h
Domingo, das 12h às 17h
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino