Tradição dos quitutes de Minas: uns são doces, outros salgados
Minas Gerais é um estado plural no nome e na diversidade de guloseimas e delícias artesanais reconhecidas, nos municípios, como patrimônio cultural imaterial
compartilhe
Siga noTesouro saboroso, variado, colorido, às vezes doce, às vezes salgado e sempre “de raiz”, mantendo tradições da terra e movido pela força das mãos. Em Minas, estado de rica culinária vinda lá dos tempos coloniais, muitos alimentos e modo de fazê-los ganharam reconhecimento, pelos municípios, como Patrimônio Cultural Imaterial. Para se ter uma ideia da relevância gastronômica, é bom saber que há 104 bens no cadastro do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) – um dos destaques se encontra nos doces artesanais de São Bartolomeu, em Ouro Preto, na Região Central. Para provar dessas delícias e curtir a exuberante paisagem, o distrito, a 33 quilômetros do Centro de OP, realiza de 4 a 6 de abril a 28ª Festa Cultural da Goiabada.
- Ícones gastronômicos mantêm viva memória de Belo Horizonte
- Receita de pavê: 5 ideias refrescantes para o verão
Quem já visitou São Bartolomeu, durante o período festivo ou em qualquer época, sabe que a hospitalidade está no ar, nas panelas, no sabor dos doces borbulhantes em tacho de cobre, mexidos com pá de madeira, sobre fornalha de lenha. Carro-chefe do turismo, a goiaba, da qual se usa a casca e a polpa, figura entre os doces registrados como Patrimônio Imaterial de Ouro Preto em 2008, conta Pia Márcia Chaves Guerra, vice-presidente da Associação dos Doceiros e Agricultores Familiares de São Bartolomeu (Adaf), que reúne 20 famílias.
Leia Mais
“O registro municipal, o primeiro para bens culturais imateriais em OP, contemplou os modos de fazer os doces daqui. Temos muitos outros, além das goiabadas cascão e lisa: os de figo, laranja da terra, cidra, cristalizados e em calda, mamão, pêssego e de leite”, orgulha-se Pia Márcia. O reconhecimento pela prefeitura trouxe benefícios, principalmente maior visibilidade. “Trata-se de importante salvaguarda para nossa atividade e para o modo de fazer, que atravessa gerações”. A festividade terá ainda feira para venda de cosméticos e sabonetes, artesanato em tecido, mel e panificação artesanal, vinho de jabuticaba e licores.
ANTIGA VILA RICA
A produção artesanal de doces em São Bartolomeu tem registro de pelo menos dois séculos, começando com a marmelada. Há relatos de viajantes, no início do século 19, sobre os costumes alimentares na antiga Vila Rica, atual Ouro Preto, e arredores. Ao passar por Cachoeira do Campo, o europeu John Pohl(1782-1834) escreveu que recebera, de um “bom velho, uma caixa de doces do arraial vizinho de São Bartolomeu”.
Tais histórias ecoam durante a festa e entusiasmam o produtor Jorge Vitório Loredo, de 56 anos, que vai da terra ao tacho, pois colhe goiabas no quintal e faz os doces juntamente com a esposa, Vanda Maria Fernandes Loredo. “A festa é muito importante, pois une a produção ao aspecto cultural, com muitos atrativos.” Ele lembra que o tio de Vanda, Hélio José Pimenta, de 84 anos, viveu da atividade por cinco décadas, levando a produção para comercializar no Centro da cidade. “Mantivemos a tradição”, diz Jorge Vitório, que oferece outros tipos de doces de frutas.
POR GERAÇÕES
Tradição, por sinal, significa uma senha para conhecer o distrito e suas genuínas características. “Queremos perpetuar o modo de fazer. As crianças crescem ao redor da fornalha, vendo a mãe, o pai ou os avós descascando goiaba, separando a polpa da casca, mexendo o doce para vender nas barraquinhas. Preservar e passar de geração em geração se torna fundamental”, ressalta o presidente da Adaf (promotora do evento), Eduardo Tijolo.
A festividade tem apoio da Associação de Desenvolvimento Comunitário de São Bartolomeu, Comércios, Pousadas e Restaurantes do Distrito (Adescob), da Prefeitura de Ouro Preto e das secretarias municipais de Cultura e Turismo e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
São Bartolomeu fica a 92 quilômetros de Belo Horizonte (via BR-040 e BR-356 e Cachoeira do Campo) e a 33 quilômetros do Centro de Ouro Preto (via Rodovia dos Inconfidentes e Cachoeira do Campo). Mais informações: @festadagoiabasaobartolomeu
PROGRAMAÇÃO
Dia 4, sexta-feira
18h – Cerimônia de abertura, homenagem aos doceiros e abertura exposição Frutos da Terra.
19h - Degustação de doces artesanais
20h - “Doces em Versos”, com alunos da escola local
20h30 - Show “Grandes Sertões”, com Bontempo e André Vitorino
22h - Show banda De Pai pra Filho
Dia 5, sábado
10h – Cortejo de abertura com a Folia do Boi da Manta
11h – Oficina de arte O doce e a Natureza (todas as idades)
12h – Oficina de doce ao vivo, na rua principal
14h – Oficina culinária para crianças
16h – Show Samba com Dendê
18h – Show Santo de Casa, com músicos de São Bartolomeu
20h – Show Trio Capricum
22h – Show Banda Free Birds
Dia 6, domingo
10h- Cortejo da Folia do Boi da Manta
11h - Oficina de culinária adulto Goiabada empanada com castanha de caju na cama de catupiry
12h – Oficina de doce ao vivo, na rua principal
12h – Show Raphael Fernandes “O Rei do Forró”
14h - Oficina Artes da Terra, livre para todas as idades
14h – Show Dupla Jorge e Sizenando
16h – Show Bloco Urucum
PASTEL “ABENÇOADO”
O dia 19 de março, consagrado pelos católicos a São José, é de muita festa, barraquinhas e confraternização em Nova Era, na Região Central. Na data, moradores da cidade mineira fazem o “Pastel de São José”, alimento de uma história iniciada nos anos 1990 para ajudar nas obras de restauração da Matriz São José da Lagoa, joia barroca dedicada ao padroeiro. Em 2018, o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Artístico de Nova Era (Comphane) reconheceu o salgado tão querido na cidade, há décadas, como bem cultural imaterial.
Nas versões carne e queijo, o pastel vem recheado também com fatias de preservação, tempero de solidariedade e sabor da terra natal. Durante o período festivo, de 9 a 19 de março, novas gerações aprenderam a fazer o salgado, a partir de oficina realizada no porão do Museu Municipal de Arte e História de Nova Era, conta a diretora do Departamento de Cultura e Turismo, Sandra Maura Coelho. “Trata-se de uma atividade ligada à educação patrimonial. O pastel tem preparo simples, o importante foi o objetivo dele, pois ajudou nas obras de restauro da matriz”, observa Sandra.
Mais do que uma iguaria, o Pastel de São José, feito de massa caseira, se tornou símbolo da defesa pelo patrimônio cultural de Nova Era. Tudo começou em 16 de dezembro de 1987, com a criação da Casa da Cultura que, no ano seguinte, iniciou a campanha SOS Matriz para intervenções no principal templo, então necessitado de obras. Surgiram várias ações solidárias, entre elas os almoços promovidos por um grupo de senhoras do Bairro Manjaí, entre elas Terezinha Souza de Araújo, hoje com 78 anos.
MÃO NA MASSA
“É um pastel sagrado. Só fazemos mesmo, usando o nome de São José, se for para obras da Igreja. Do contrário, não fazemos. De vez em quando, num evento religioso ou após uma missa, estamos lá ‘com a mão na massa’ para obter renda. Quando começamos, a igreja estava quase caindo. Mas sempre precisa de manutenção, né?”, diz dona Terezinha. “O pastel se tornou uma bandeira da restauração da matriz. À beira do fogão, a comunidade se reunia para falar sobre as obras, discutir os rumos do trabalho e trocar ideias”. Lembrando dos primeiros tempos, dona Terezinha revela que o dinheiro das vendas era abençoado e rendia muito. “Quando começaram as obras, ajudávamos até os restauradores que, muitas vezes, não tinham o dinheiro para a passagem de ônibus”.
O conceito de patrimônio cultural imaterial, conforme a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) é o seguinte: “São práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades ou grupos, e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”.
E mais: “Este patrimônio cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos, em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo para promover o respeito à diversidade cultura e à criatividade humana”.
BOLO COM SOTAQUE
Nova Lima se transformou numa cidade “quequeira”, iguaria artesanal, geralmente servida nas festas natalinas, mas que dura de três meses a um ano
Também em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, tradição é ingrediente forte e sempre presente no preparo da queca, delicioso bolo natalino de frutas com inspiração inglesa. Conforme pesquisas, a palavra deriva de “cake”, bolo em inglês, que teria se popularizado na cidade com a chegada dos ingleses, no século 19, para trabalhar na antiga Mina de Morro Velho. A fim de manter as receitas e os saberes, há, na cidade, o Núcleo da Queca, do qual faz parte Helena Bastos (@helenacnbastos): “Nós, as ‘quequeiras’, resgatamos as receitas originais e fazemos questão de preservar e repassar o conhecimento, dentro de todas as normas sanitárias e exigências das autoridades”.
Comercializando seus produtos pela internet – faz também a lamparina, à base de massa folhada e coco –, Helena se orgulha dos alimentos artesanais. “É um bem cultural artesanal preparado com cuidado e muito zelo”, afirma a quitandeira que aprendeu o ofício observando, desde criança, as vizinhas ao fogão. O reconhecimento vem não apenas dos elogios dos fregueses como de vários convites. Participou, na Embaixada do Reino Unido, em Brasília (DF), da festa comemorativa da coroação do Rei Charles III, em 6 de maio de 2023.
Já em junho do ano anterior, em Belo Horizonte, esteve presente à celebração do jubileu de 70 anos de reinado da Rainha Elizabeth (1926-2022). Em ambas oportunidades, levou a queca para a mesa da festa. Se o objetivo é manter a tradição, Helena ensina uma receita que, sem dúvida, vai agradar o leitor. Então, mãos à obra. Vale aqui uma observação: como se trata de uma receita antiga, e as famílias eram numerosas, os ingredientes rendem 16 quecas de 500 gramas cada uma. “É um bolo que dura muito, de três meses a um ano, sendo importante, de tempos em tempos, regá-lo com conhaque”, orienta Helena, que, além de “mantenedora do modo de fazer doces históricos, é também embaixadora das quitandas de Minas (projeto social, cultural e gastronômico)
ELEMENTOS CULTURAIS
Além do reconhecimento municipal (2017), o modo de fazer a queca de Nova Lima se tornou bem de “relevante interesse cultural” para o estado em 2022. Tais distinções remetem aos primórdios dessa história de sabor e saber, com a chegada dos ingleses à cidade, em 1834, para o trabalho na mineração do Morro Velho. Eram empregados da Saint John Del Rey Minning Company Limited vindos das regiões de Gales e Cornualha.
Conforme estudos, os ingleses, a princípio, tentaram conviver mais entre eles, evitando o contato com os brasileiros. Mas em cerca de 150 anos de presença britânica na cidade, acabou havendo um aproveitamento de “elementos culturais” dos grupos em contato, sendo o modo de fazer a queca “o mais precioso elemento a ser incorporado à cultura nova-limense”
Algumas lendas cercam a origem do bolo, permeando até hoje o cotidiano das quitandeiras. Uma delas diz que as inglesas cozinhavam e não deixavam as empregadas aprenderem a receita do bolo de Natal, que faziam para presentear familiares e amigos. Entregavam, à empregada, a lista de produtos a serem adquiridos. Mas, esperta, a empregada, sem a patroa ver, copiava os ingredientes em inglês e pedia a alguém, que soubesse o idioma, para traduzir.
Outra versão diz que empregada copiava a receita enquanto a patroa não olhava. Então, o “passo a passo” era visto pelas colegas, que aprendiam o preparo da iguaria, reproduziam em casa e ensinavam aos familiares e amigos. Dessa forma, o bolo inglês “cake”, batizado pela corruptela de queca, virou um patrimônio da cidade. Em 2010, a prefeitura local promoveu o primeiro Festival da Queca e Tradições da Culinária Nova-limense, para preservar o modo de fazer, perpetuar as tradições culturais e fomentar o turismo gastronômico.