'100 dias', filme sobre saga de Amir Klink, navegou 30 anos entre céu e mar
Em cartaz em BH, longa dirigido por Carlos Saldanha, de 'A era do gelo', enfrentou contratempos durante décadas. Filipe Bragança interpreta o navegador
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Atravessar o Atlântico a remo não foi nada perto da saga de levar esta história para o cinema. É o próprio Amyr Klink, o mais célebre dos navegadores brasileiros, quem faz a comparação. “Gastei dois anos me preparando, cem dias remando e um ano escrevendo o livro. Só com o (Carlos) Saldanha, a história levou oito anos para acontecer.”
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Recém-chegado aos cinemas, “100 dias” reconstrói a primeira das façanhas de Klink. Entre junho e setembro de 1984, ele atravessou o Atlântico, da Namíbia até o Brasil, a remo. Foram 6,5 mil quilômetros sozinho, com comunicação via rádio e instrumentos analógicos (sextante, bússola e tabelas de navegação astronômica). Em 1985, ele publicou seu primeiro livro, “Cem dias entre céu e mar”.
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Klink, de 71 anos, tinha 29 quando realizou o feito inédito. No cinema, é interpretado por Filipe Bragança. Como o livro é a base da história, o centro do filme é a navegação. Mas há interação do protagonista com outros personagens, em especial com sua família.
De Paraty, a mãe, a sueca Asa (Philippine Leroy-Beaulieu), e o irmão caçula, Tymur (João Vitor Silva), são seu ponto de contato com o mundo além-mar. Em comunicações difíceis, semanais, via rádio, ele relata momentos cruciais da navegação.
Por meio de flashbacks, a trama mostra a preparação do jovem para o projeto. O destaque vai para a conflituosa relação com o pai, o libanês Jamil (Felipe Camargo), que não queria que ele fizesse a travessia. O drama tampouco pega leve com o navegador. Em mais de um momento, vemos como Klink não facilitou para ninguém. Do construtor do barco IAT à nutricionista responsável pela comida que ele levou, as interações não eram simples.
Klink não pensava em filme. “Nunca quis, nunca liguei para isso. Tenho uma atividade que amo, que é cuidar de embarcações de terceiros. Temos uma das maiores marinas molhadas do Brasil. Filme? Deus me livre. É uma indústria complicadíssima, exige muita paciência, recursos que muitas vezes não acontecem.”
Marina
A mulher dele, Marina Klink, levou à frente a ideia da adaptação de “Cem dias entre o céu e o mar”. Foi uma verdadeira novela, iniciada há 30 anos, explica o navegador. A produção de “100 dias” é da Ventre Studio em parceria com várias empresas, entre elas a Buena Vista International, selo da Walt Disney Company. O longa é a segunda incursão de Carlos Saldanha (diretor da franquia de animação “A era do gelo”) em filmes live-action.
Originalmente, o longa seria realizado pela Conspiração com direção de Breno Silveira (1964-2022). O périplo teve início com uma roteirista “que ficou cinco anos me dissecando, literalmente. Fez um trabalho magnífico, só que a Conspiração não gostou do roteiro, a afastaram do projeto. Ela ficou chateada, e eu, constrangido”, comenta Amyr.
A história seguiu com vários roteiristas. Chegou a um ponto que o projeto deixou a Conspiração e foi para outra produtora, Bossa Nova. “Ela quebrou. Tinha gente supertalentosa, uma delas a Paula Cosenza. Foi ela que juntou as pecinhas do quebra-cabeças, falou com o Saldanha e a história aconteceu”, acrescenta.
Finalmente com o filme realizado, Klink, que faz uma pequena participação, está muito feliz com o resultado. “Dei liberdade total ao Saldanha e à equipe para as famosas liberdades poéticas. Acho que eles optaram por uma ‘escravidão poética’. Foram de um rigor impressionante para recuperar todos os eventos, muitos dos quais eu tinha esquecido.”
Raias da loucura
O detalhamento técnico chamou a atenção do navegador. “Eles foram às raias da loucura. Encomendaram a réplica perfeita do barco (o original está na loja Flávia Aranha, no Centro Histórico de Paraty). Não é réplica cenográfica, mas uma réplica que navega. Isso ajudou muito no resultado do filme”, completa.
As cenas de navegação foram rodadas no mar de Bertioga, em São Paulo, e no tanque de 400 metros quadrados construído em um estúdio. “Vi o quanto judiaram do Filipe Bragança. Ele tomou mais caldo do que eu tomei em cem dias.” Assim como o filme mostra, Klink iniciou a jornada usando uma calça jeans.
“No começo, remei de calça e casaco. O casaco vermelho foi um pesadelo, porque estava muito frio e o barco balançava muito. Na devolução da remada, você esfrega os polegares no casaco e na calça jeans. Então eu sangrava muito, até que descobri uma roupa de borracha. Foi incrível, a produção refez a mesma roupa. Outro dia, vi uma foto remando e tive que perguntar para a Laura, minha filha, se era eu ou o Filipe”, confessa.
'Paratii' vem aí?
O segundo livro de Amyr Klink é “Paratii: Entre dois polos” (1992). No final de 1989, ele partiu para a segunda viagem em solitário. A bordo do veleiro Paratii, passou 13 meses sozinho (seis deles imobilizado no gelo) no continente antártico. De lá, rumou ao Polo Norte. Voltou a Paraty em outubro de 1991. Será que a chamada invernagem poderia ir para o cinema?
“Sempre achei impossível, mas fui assistir ao filme ‘Antártida’ (de Bruno Safadi, que acompanha integrantes da base brasileira em meio a um crime cometido durante o inverno polar). Ninguém foi para a Antártida, foi feito em estúdio. Fui achando que seria horrível, que estaria tudo descaracterizado. E adorei”, revela o navegador.
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“100 DIAS”
(Brasil, 2026, 117min.) – De Carlos Saldanha, com Filipe Bragança, Philippine Leroy-Beaulieu, João Vitor Silva e Felipe Camargo. O filme está em cartaz nos cines Belas Artes 1, BH 7, Big 3, Boulevard 1, Cidade 3, Contagem 8, Del Rey 6, Diamond 1, Diamond 3, Estação, Itaupower 1, Minas Shopping 2, Monte Carmo 6, Norte 3, Pátio 1, Ponteio 3 e Via 5.