"Acho que eles são todos loucos", diz Nobel de Literatura sobre os votantes
Poeta canadense foi eleita, segundo a Academia Sueca, por "por sua obra audaciosa e inovadora que criou novas formas para a literatura contemporânea"
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Com uma franqueza desconcertante, a poeta e ensaísta canadense Anne Carson, de 76 anos, definiu a decisão da Academia Sueca de dedicar a ela o Nobel de Literatura: “Uma loucura. Acho que eles são todos loucos”. Foi o que ela afirmou, na manhã desta quinta (8/10), em breve entrevista para a RÚV, a TV pública da Islândia.
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Há quatro anos também cidadã islandesa – desde 2008 ela frequenta, com o marido, o artista Robert Currie, o país ártico –, ela recebeu o telefonema de Estocolmo enquanto “ouvia o vento”. “Nós vivemos do vento, não tem como não ouvi-lo aqui”, disse à repórter. A gravação para a TV foi no meio de uma estrada – na imagem, Carson segura o boné em meio à ventania, ao lado de um carro.
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Ainda que a vencedora tenha achado uma loucura, seu nome estava nas bolsas de apostas. Para a Academia Sueca, Carson mereceu o Nobel “por sua obra audaciosa e inovadora que, em um diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
Membro da Academia, Steve Sem-Samberg diz que Carson é “uma autora do nosso tempo”, capaz de conectar o contemporâneo à Antiguidade. A entrega do Nobel, cujo prêmio é de 12 milhões de coroas suecas (R$ 6 milhões), será em 10 de dezembro.
ESTREIA
Primeira mulher a receber o prestigioso prêmio britânico de poesia T.S. Eliot (2001), Carson estreou no mercado editorial em 1986, com “Eros, o doce-amargo: Um ensaio”.
Nascida em 21 de junho de 1950, em Toronto, foi introduzida na literatura helênica durante o ensino médio. Carson abandonou a universidade duas vezes, antes de concluir o doutorado. Depois, passou a lecionar em instituições prestigiadas do Canadá e dos Estados Unidos, entre elas a Universidade de Michigan. A mudança para os Estados Unidos foi determinante para a notoriedade da escritora, cujo reconhecimento crítico é mais recente.
Em ensaio publicado na London Review of Books em 2024, Carson revelou que havia sido diagnosticada com a doença de Parkinson. “É difícil conviver com a palavra 'degenerativo', que significa que, por mais que eu me esforce, não vou vencer.”
Ela chegou ao Brasil por meio da editora Jabuticaba, que publicou em 2017 “O método Albertine” (esgotado). O livro curto é um ensaio sobre “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust. “Desde que ele saiu, havia uma espera de mais coisas de Anne Carson. Essa sede culmina com o trabalho do (tradutor) Ismar Tirelli, em ‘Autobiografia do vermelho’ (2021)”, comenta Bernardo Serino.
Livreiro da Quixote, Serino é fã de Carson, que sempre indica aos clientes. “Este é um livro muito vendido na Quixote, uma história de amor homoerótico em Buenos Aires, sob o signo de Gerião (o mito grego).” Para Serino, sua obra transita entre leitores de poesia, das tragédias gregas, de psicanálise e estudantes de letras. “Ela trata as coisas de forma sensível, então é uma leitura para momentos de dureza (como o atual). Ela vai nos mitos gregos e desdobra o pensamento, trata do belo e da morte.”
Serino, assim como outros leitores da poeta e ensaísta, espera a chegada ao país de “Nox” (2010), um dos livros mais importantes de Carson. O volume de poemas foi reunido em uma caixa com uma única folha de papel dobrada como uma sanfona. Foi publicado em memória do irmão dela, Michael, que desapareceu antes de morrer na Dinamarca, em 2000.
Anne Carson é a 123ª vencedora do Nobel de Literatura – apenas a 19ª mulher. Os poetas eleitos pela Academia Sueca não chegam a 30. “Mas, hoje, acho que a poesia é provavelmente mais útil do que a prosa. É mais rápida e todo mundo vive com pressa. Então, acho bom que a poesia seja breve. Exceto Homero.” Carson, sempre afiada, encerrou desta maneira a entrevista. (Com AFP)
BIBLIOGRAFIA
Confira os títulos de Anne Carson editados no Brasil
• “Autobiografia do vermelho: Um romance em versos”
(34, 192 páginas, tradução de Ismar Tirelli Neto)
Seu livro mais celebrado, um romance em versos, recria o mito grego de Gerião, um monstro vermelho a quem Héracles teve de exterminar para cumprir um de seus doze trabalhos.
• “Sobre aquilo em que eu mais penso”
(34, 192 páginas, tradução de Sofia Nestrovski)
Onze ensaios em que Carson aproxima autores como Virginia Woolf e Tucídides, Homero e Elizabeth Bishop, Francis Bacon e Joana D'Arc.
• “Eros, o doce-amargo: Um ensaio”
(Bazar do Tempo, 264 páginas, tradução de Julia Raiz)
Primeiro livro de crítica literária, resultado de sua tese de doutorado, mescla ensaio, teoria e poesia.
• “Vidro, ironia e Deus”
(Relicário, 208 páginas, tradução de Adriana Lisboa)
Livro composto por seis blocos que exploram temas como amor e perda, identidade, alienação e a tentativa de compreender o sagrado e o profano.
• “Falas curtas”
(Relicário, 108 páginas, tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman)
Poemas em prosa que apresentam uma voz profundamente pessoal, mas também difícil de desvendar.
• “A beleza do marido: Um ensaio ficcional em 29 tangos”
(Bazar do Tempo, 168 páginas, tradução de Julia Raiz e Emanuela Siqueira)
Carson faz desta obra um exercício de linguagem em que acompanhamos, a partir de cenas eróticas, comoventes, dolorosas e cômicas, um casamento que desmorona.
• “Antigonick”
(Bazar do Tempo, 56 páginas, tradução de Julia Raiz)
Recriação radical da tragédia “Antígona”, de Sófocles.
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