‘Sertão-Veneza’ relaciona viagens de Rosa ao interior mineiro e à Itália
Para marcar o lançamento do livro, o escritor Jacques Fux realiza nesta terça (7/7) debate sobre a obra com o crítico Wander Melo Miranda, na AML
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Em 1952, Guimarães Rosa fez sua famosa expedição pelo interior mineiro tendo Manuelzão como guia. Anotou palavras diferentes que ouvia pelo caminho e o modo de vida dos tropeiros, o que deu origem ao seminal “Grande sertão: Veredas”.
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Três anos antes, ele havia desembarcado em Veneza, na Itália, junto da esposa Aracy. Também fez anotações sobre o local e o modo de vida dos venezianos que foram publicadas em seus diários. Voltou à cidade em 1951.
O que essas viagens têm em comum, no entanto? Bastante coisa, defende o escritor Jacques Fux no livro “Sertão-Veneza – Retornos e travessias roseanas” (Autêntica), que será lançado nesta terça-feira (7/7), às 19h30, na Academia Mineira de Letras (AML). Na ocasião, Fux vai conversar sobre o livro com Wander Melo Miranda, ocupante da cadeira número 7.
Embora inusitado, o paralelo entre as viagens de Guimarães Rosa por Veneza e pelo sertão mineiro se dá por três aspectos: o reencontro com o próprio passado, a viagem a um espaço mítico e literário e a experiência como base para a produção literária.
Logo no início de “Sertão-Veneza”, Fux cita Walter Benjamin ao estabelecer a diferença entre o turista e o viajante. Enquanto o primeiro observa a paisagem de longe, sem se envolver, o viajante utiliza a jornada para se reencontrar com o próprio passado e consigo.
“O livro é conduzido por essa ideia de viajante”, destaca Fux. “São retornos e travessias que Guimarães Rosa faz em viagens muito lúdicas. Foi para a Itália logo depois da Segunda Guerra. Lá, escreveu diários com mais ou menos 450 páginas, nos quais vai tomando nota de tudo o que observa: pássaros, gatos, gôndolas, partidas de xadrez… Tem até desenhos de lugares que visitou”, acrescenta.
Reencontro
Nesse sentido, as ideias de reencontro com o passado e a jornada pelo espaço mítico se embaralham. Guimarães Rosa nunca tinha ido a Veneza, no entanto, já havia passeado por esse território mítico por meio de leituras de “O mercador de Veneza” e “Otelo”, de Shakespeare, e, muito provavelmente, de “Morte em Veneza” (1912), do alemão Thomas Mann.
Veneza, portanto, se apresenta como terreno conhecido por Guimarães Rosa e a ida à cidade, como uma rememoração. “O sertão é uma ideia, apesar de leituras equivocadas o colocarem no espaço geográfico. Com Veneza é a mesma coisa. É a Veneza literária, a Veneza da arte, da história do mundo. É essa Veneza que o Guimarães Rosa revisita. Ou reencontra. Ou retorna”, diz o escritor.
Além disso, conforme observa Fux, “Sertão-Veneza” se ampara no conceito desenvolvido por Georges Perec em “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”, livro no qual o autor francês defende anotar tudo o que se vê de um lugar.
“Guimarães Rosa, quando faz as anotações nos diários dele, dá uma atenção para as coisas da Itália, para o deslumbramento e para o encantamento. O olhar está focado nas coisas que interessam para ele. De alguma forma, isso é um retorno”, argumenta.
Todos esses aspectos aparecem no novo livro, mas não de maneira linear e no formato de grande ensaio. As ideias são colocadas de modo fragmentado, no que o autor chama de “aforismos”, para “jogar na mão do leitor esse gostinho por Veneza, pelo sertão e pela ideia de viajante”.
Fux é grande admirador de Guimarães Rosa, sobretudo pelo sertão mítico. Em “Antiterapias” (2012), sua estreia na literatura, já descrevia o sertão enquanto lugar enigmático.
Em “Nunca vou te perdoar por você ter me obrigado a te esquecer”, livro finalista do Prêmio Jabuti em 2024, faz releitura contemporânea de “Grande sertão”.
E em “As fábulas do fabuloso fabulista Joãozito” (2023), propõe explorar com mais afinco as paixões, lutas, guerras, medos e angústias de “Joãozito Guimarães Rosa” e Riobaldo Tatarana.
O foco agora é sair da obra para analisar o autor, principalmente suas viagens e travessias. “[Acho que o livro é] Uma uma reflexão mais poética sobre esses encontros”, define Fux.
“Eu trago outros escritores, o que acho que torna o texto mais bonito e mais leve. Também trago citações ao ‘Marca d’água’, livro clássico sobre Veneza, escrito pelo Joseph Brodsky. Com isso, tenho recebido muitos feedbacks das pessoas dizendo que estão viajando junto. Acho isso muito bonito. É uma viagem pela linguagem, pelo sertão, pela literatura do Rosa e por Veneza”, diz.
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“SERTÃO-VENEZA – RETORNOS E TRAVESSIAS ROSEANAS”
• De Jacques Fux
• Editora Autêntica
• 96 páginas
l R$ 54,90 (livro físico) e R$ 38,90 (e-book), nas livrarias ou no e-commerce
• Lançamento nesta terça-feira (7/7), às 19h30, na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1.466, Centro).