Alice Caymmi lança álbum com releituras de 12 canções de seu avô Dorival
Repertório caymmiano dialoga com batidas eletrônicas, reggae, salsa e rap. "Não ficou com cara de cover", diz a cantora e compositora
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Alice Caymmi levou muito tempo até se sentir pronta para revisitar a obra do avô, Dorival Caymmi (1914-2008). Não por falta de repertório, mas por excesso de consciência. “Hoje, tenho segurança para me juntar a ele sem ser engolida”, afirma a cantora e compositora, de 36 anos, em entrevista por telefone. Ela se refere a seu novo álbum, “Caymmi”, com canções de Dorival, disponível nas plataformas digitais desde 30 de abril, quando o mestre baiano faria 112 anos.
Com 12 faixas que transitam dos maiores sucessos do patriarca da família Caymmi a canções menos conhecidas – caso de “Canto de Obá”, parceria dele com o escritor Jorge Amado (1912-2001) –, o disco nasceu menos como homenagem e mais como um gesto de afirmação artística de Alice, no qual coexistem tradição e identidade própria.
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Esse aspecto não está apenas no discurso da cantora, mas na própria sonoridade do trabalho. Longe de apostar em versões reverentes ou excessivamente fiéis aos arranjos originais, Alice opta por tensionar o repertório do avô, incorporando elementos contemporâneos e de outros gêneros musicais, como reggae, hip-hop, salsa e batidas eletrônicas. Nessa toada, busca uma linguagem que preserve a essência das versões originais. “Não ficou com cara de cover”, ela resume, ao comentar o resultado final de “Caymmi”.
Parte desse resultado passa pela colaboração com o produtor Iuri Rio Branco, do selo Daluz Música, responsável por aproximar a obra de Dorival do contexto contemporâneo.
“Ele soube trazer o Caymmi para a rua”, diz Alice. “A intenção era manter o caráter popular e sofisticado das composições, sem aprisioná-las a uma ideia de passado”, acrescenta a cantora, destacando a importância de pensar o repertório do avô como algo vivo, em circulação.
Estão ali canções que ajudaram a moldar o imaginário da música brasileira, como “Modinha para Gabriela”, “Maracangalha”, “Dora”, “Morena do mar”, “Dois de fevereiro” e “O que é que a baiana tem?”, entre outras.
Em “Dora”, o bolero original ganha novos contornos com a batida eletrônica. “Maracangalha” surge em ritmo de calipso, preservando o clima festivo. E “Canção da partida (Suíte do pescador)” vira salsa.
Por sua vez, “Modinha para Gabriela”, o popular tema de abertura da novela “Gabriela” (Globo, 1975), e “Dois de fevereiro” seguem mais fiéis às versões originais.
Além da sonoridade contemporânea, o disco ganhou caráter espiritual com a faixa “Canto de Obá”. Lançada em 1972 por Dorival no álbum “Caymmi”, a canção é uma prece a Xangô em prol da família do músico.
“Meu avô cita a família toda nessa música e chama Xangô para proteger a nossa linhagem. Isso me pega pelo coração”, diz Alice. “Se eu não colocar essa música, o disco não estará protegido”, garante.
O caráter espiritual também foi marcante na escolha do repertório e na concepção visual do projeto. Essa dimensão serviu como “estrutura invisível capaz de conectar passado e presente em um mesmo campo de força simbólico”, diz Alice. As lembranças de infância com o avô ajudaram no processo.
A cantora conviveu com o Dorival já afastado dos holofotes. “Peguei ele na fase vovozinho. O convívio era marcado por silêncio, contemplação e uma presença que dispensava explicações. Ele tinha uma autoridade que não precisava ser falada”, revela.
Essa relação influenciou a postura da cantora. Ao falar sobre o que herdou do avô, ela menciona a “autoridade silenciosa” que só conseguiu acessar com o tempo, além da relação aberta com o público, baseada na troca direta e na ausência de hierarquias.
Lançado “Caymmi”, agora Alice pretende sair em turnê para divulgar o disco. “Até porque eu vivo disso, senão passo fome”, brinca ela. O primeiro ensaio já aconteceu. “Foi tão bonito, que estou muito segura de que vai ser um show especial”, conclui.
“CAYMMI”
. Álbum de Alice Caymmi
. Selo Daluz Música
. 12 faixas
. Disponível nas plataformas digitais
FAIXA A FAIXA
. “O que é que a baiana tem?”
. “Acalanto”
. “Modinha para Gabriela”
. “Canção da partida (Suíte do pescador)”
. “Canto de Obá”
. “Maracangalha”
. “Dora”
. “Dois de fevereiro”
. “Adeus”
. “Eu não tenho onde morar”
. “Morena do mar”
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. “O bem do mar”