O premiado filme nigeriano 'A sombra do meu pai' estreia em BH
Homem e suas duas crianças se lançam em jornada de descobertas e perdas na Nigéria em crise. Longa levou o Bafta, em Londres, e menção especial em Cannes
compartilhe
SIGA
Pessoal e coletivo. Assim é o filme “A sombra do meu pai”, de Akinola Davies Jr., que contrapõe a ingenuidade de crianças descobrindo o mundo ao amargor de um homem diante da iminência da ditadura. Tudo se passa durante o raro dia em que o pai e seus dois meninos viajam para Lagos, na Nigéria.
Com estreia nesta quinta-feira (30/4) em Belo Horizonte, o primeiro longa de Akinola já chega premiado. Este ano, levou o Bafta de Melhor Estreia de Diretor, Produtor ou Roteirista Britânico. Em 2025, foi o primeiro filme nigeriano a competir no Festival de Cannes e recebeu menção especial da Caméra d’Or, prêmio para longas estreantes.
Leia Mais
Nascido em Londres e criado na Nigéria, Akinola Davies Jr. perdeu o pai ainda bebê, vítima de convulsão epilética. Junto do irmão mais velho, o roteirista Wale Davies, construiu a trama que mistura memória e ficção.
Em entrevista ao Estado de Minas, o diretor afirmou que o longa é uma forma de encorajar sua própria família a falar sobre o luto.
“Na Nigéria, quando alguém morre, você não fala mais sobre essa pessoa. Há muita dor e luto. Queria que o filme fosse uma oportunidade para eu e meu irmão nos aproximarmos, mas também para que os outros irmãos e minha mãe tivessem algo como referência para celebrar o nosso pai”, explica Akinola Davies Jr.
Na trama, os irmãos Olaremi (Marvellous Egbo), de 11 anos, e Akinola (Godwin Egbo), de 8, vivem isolados no interior, entre brincadeiras, conflitos e cuidados mútuos. A rotina é interrompida quando encontram o pai, Folarin (Sope Dirisu), inesperadamente em casa.
Inicialmente, há estranhamento, resultado da ausência prolongada de Folarin, sempre viajando a trabalho. Quando ele convida os meninos para passear em Lagos, o caçula resiste, mas cede à empolgação do irmão. O trio faz uma jornada pela cidade grande.
Sensação de urgência
A decisão de concentrar a narrativa em um único dia, explica o diretor, é ao mesmo tempo prática e dramática. Simplifica a produção, mas também reforça a sensação de urgência.
“Quando você está lidando com memória, perda, luto e ausência, todas essas coisas fazem com que o tempo precise ser aproveitado ao máximo. Alguns dos meus filmes favoritos usam a estrutura do dia único. Isso adiciona muita pressão e tensão, como se você estivesse sempre lutando”, comenta.
No dia em que se passa a narrativa é divulgado o resultado das eleições de 1993 na Nigéria. O país africano parecia superar a ditadura do general Ibrahim Babangida, que perdurou de 1985 a 1993. O novo pleito, com favoritismo do opositor M.K.O. Abiola, alimentava a expectativa de retorno da democracia, mas a crise política se instala.
Durante a viagem, debates acalorados entre oposicionistas, como Folarin, e defensores do regime militar expõem o ambiente instável para aquele passeio com crianças. E é a partir do ponto de vista delas que a trama se desenvolve.
Ao conhecer Lagos, os irmãos experimentam o mar, parques de diversão, comidas e o caos da multidão, deslumbrados com a metrópole. “Queria que as pessoas vissem a Nigéria que conheço, os personagens que conheço e a cidade em que cresci”, diz Akinola.
O diretor defende a importância de dar visibilidade a narrativas locais. “As únicas pessoas que podem me falar sobre a Nigéria são os nigerianos. As únicas pessoas que podem me falar sobre o Brasil são os brasileiros. Não aceito histórias de mais ninguém. É muito importante que pessoas do Sul global tenham a oportunidade de contar as próprias histórias e apresentar suas comunidades de forma honesta e humana”, ressalta.
A linguagem visual de “A sombra do meu pai” mantém o compromisso com a riqueza da representação. A câmera frequentemente se posiciona na altura das crianças, privilegiando planos fechados e detalhes da natureza.
Pintura e dignidade
Assinada por Jermaine Edwards, também em seu primeiro longa, a fotografia aposta em composições que tratam cada quadro como pintura, conferindo dignidade e afeto aos personagens.
“Queria mostrar os rostos das pessoas, celebrar a diversidade de traços, tons e cores de pele”, explica Akinola Davies Jr. “Também queria fotografar muita ternura e sensibilidade, porque, quando se trata da imagem do homem negro, do pai negro, não vemos imagens suficientes assim”, continua.
A delicadeza do filme se manifesta, sobretudo, nos diálogos. Ao longo do dia, pai e filhos reconhecem a raridade daquele encontro, expõem ressentimentos, afetos e curiosidades. Segundo o diretor, as cenas são impactantes por derivarem da experiência pessoal.
“Para fazer arte realmente boa, você precisa ser vulnerável e tentar usar sua experiência de abertamente se conectar com outras pessoas. Se estávamos escrevendo na perspectiva dos meninos, precisávamos colocar mais de nós mesmos nos personagens, a forma como lidamos com o luto e as conversas que gostaríamos de ter. Especialmente para nós, como cineastas negros, se o filme não for bom, talvez seja o único que teremos a chance de fazer. Então, quisemos colocar tudo ali”, conclui.
“A SOMBRA DO MEU PAI”
Nigéria, 2025, 94min. De Akinola Davies Jr, com Sope Dirisu, Marvellous e Godwin Egbo. Estreia nesta quinta (30/4), às 20h30, na sala 3 do UNA Cine Belas Artes. Nesta sexta (1º/5), às 20h30, na sala 2 do Centro Cultural Unimed-BH Minas
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria