'O silêncio de Eva' resgata a trajetória de pioneira do cinema brasileiro
Documentário de Elza Cataldo tira do esquecimento a atriz Eva Nil, atriz que fez filmes em Cataguases nos anos 1920 e foi esquecida pelo Brasil
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“Eva Nil é considerada a nossa Greta Garbo”, afirma a diretora Elza Cataldo, ao sintetizar o enigma que cerca uma das figuras mais fascinantes (e esquecidas) do início do cinema silencioso brasileiro. Assim como a estrela sueca, Eva abandonou a carreira no auge. Migrou para a fotografia e jamais retornou às telas.
No documentário “O silêncio de Eva”, que estreia nesta quinta-feira (26/3), no UNA Cine Belas Artes, Cataldo revisita a trajetória da atriz. A linguagem do filme é híbrida, combinando materiais de arquivo e reconstituição ficcional. O elenco reúne os atores Inês Peixoto, Eduardo Moreira e Bárbara Luz.
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Eva Nil (1909-1990) nasceu no Cairo, filha do diretor e fotógrafo italiano Pedro Comello. Mudou-se ainda criança para Cataguases, cidade da Zona da Mata mineira que se tornou um dos polos do cinema brasileiro no início do século 20.
A atriz se destacou no chamado Ciclo de Cataguases, atuando nos filmes “Valadião, o Cratera” (1925) e “Na primavera da vida” (1926), de Humberto Mauro, além de “Senhorita agora mesmo” (1928), de Pedro Comello, e “Barro humano” (1929), de Adhemar Gonzaga.
Eva Nil abandonou o cinema abruptamente e passou a trabalhar como fotógrafa, registrando famílias e eventos sociais. As razões dessa decisão nunca foram totalmente esclarecidas.
“A gente tenta responder a essa pergunta no documentário”, diz a cineasta Elza Cataldo. “O mais evidente é que ela não teve condições de fazer o que realmente queria. Existem outras versões, mas percebo como a principal a frustração por não ser reconhecida com o valor que Eva achava que tinha, por não ser devidamente remunerada e, sobretudo, por não conseguir realizar os filmes nas condições que desejava.”
Para a diretora, a decisão de Eva revela um gesto de autonomia. “Ela foi muito corajosa ao dizer 'desta forma eu não quero', e optar por exercer sua arte na fotografia. Foi excelente fotógrafa e seguiu sendo artista de outra maneira, porque o cinema que queria fazer não era possível”, diz Elza.
O interesse pela personagem partiu de Inês Peixoto, atriz do Grupo Galpão, que conheceu a história de Eva Nil em uma exposição. Inicialmente concebido como ficção, o projeto assumiu a forma documental com a entrada da roteirista Christiane Tassis.
O filme explicita o percurso da pesquisa da equipe, com seus acessos e limitações. Reúne fotografias, imagens de Cataguases e entrevistas com pesquisadores sobre o ciclo cinematográfico da cidade mineira, a obra de Humberto Mauro, o trabalho de Pedro Comello e a presença feminina no cinema. Há também depoimentos raros, como o de uma pessoa fotografada por Eva.
Diante da escassez de imagens em movimento, inclusive de filmes em que a atriz atuou, as lacunas foram preenchidas por reconstituições. Bárbara Luz interpreta Eva jovem, enquanto Inês assume tanto a fase adulta quanto a mãe da personagem. Eduardo Moreira vive Pedro Comello.
Famílias criativas
As cenas de família recriam o processo de produção de um filme, com reflexões sobre a criação artística e obstáculos enfrentados pela cultura.
“É um paralelo entre a família criativa da Inês e a família de Eva Nil”, explica Cataldo. Os atores Inês Peixoto e Eduardo Moreira são pais da atriz Bárbara Luz.
“Mostramos uma fotografia real de Eva e, logo em seguida, a foto reconstituída por nós. Foi a forma que encontramos para lidar com as lacunas da memória”, explica.
A questão da memória atravessa toda a narrativa. Para a diretora, é um problema ainda não superado pelo cinema. “O audiovisual brasileiro, embora tenha avançado em várias áreas, enfrenta a séria questão do registro de sua própria memória”, diz.
Além dessa discussão, o documentário parte da figura de Eva Nil para evidenciar temas estruturais da produção cinematográfica, como a participação das mulheres na indústria e, sobretudo, as dificuldades de realização.
“As questões que Eva trazia naquela época, sobre como viabilizar um filme, mas também ser fiel a seus desejos e sonhos, são questões que existem até hoje. É sempre complicado fazer um filme, são anos e anos de trabalho. Não importa que seja ficção, documentário, curta ou longa”, ressalta.
A trajetória de “O silêncio de Eva” reflete esse cenário. O longa, que chega ao público em 2026, teve origem em edital de 2018 e o processo de produção atravessou o período da pandemia.
Lacunas do cinema brasileiro
Entre filmagem, finalização e lançamento, acumularam-se obstáculos, conta Elza Cataldo. “Quando estamos fazendo um filme, ficamos imersos naquele processo desgastante. Quando termina, celebramos. Então tudo recomeça”, resume.
“São poucas salas de cinema no Brasil e a estrutura de distribuição é muito limitada. Além da lacuna da memória, há a lacuna de possibilidades de exibição”, diz a diretora.
A estreia de “O silêncio de Eva” se tornou uma conquista. “Foi um longo caminho para o documentário. Estamos felizes de conseguir lançar o filme em uma sala de cinema. É uma celebração”, conclui Elza Cataldo.
“O SILÊNCIO DE EVA”
Brasil, 2025, 106 min. De Elza Cataldo, com Inês Peixoto, Bárbara Luz e Eduardo Moreira. Sessões de quinta (26/3) a quarta-feira (1º/4), às 18h30, na sala 1 do UNA Cine Belas Artes (Rua Gonçalves Dias, 1.581, Lourdes).
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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria