Em ‘Narciso’, garoto preto sonha em ser adotado por brancos ricos
Novo longa do diretor Jeferson De estreia nesta quinta-feira (19/3), com Arthur Ferreira no papel-título e Bukassa Kabengele no elenco
compartilhe
SIGA
“Narciso acha feio o que é espelho.” O cineasta Jeferson De muda o verso de Caetano Veloso em “Sampa” para falar de seu novo filme. Sétimo longa-metragem do diretor paulista, “Narciso”, que estreia nesta quinta-feira (19/3), no UNA Cine Belas Artes, parte do mito grego para contar a história de um menino órfão, negro e pobre.
“Ele está sendo devolvido por uma família branca. Não sabemos por que, mas é uma situação comum na adoção, e que acaba falando de algo muito humano e doloroso: a rejeição”, comenta.
Nas sequências iniciais, Narciso (Arthur Ferreira, que ganhou a internet ainda criança, em 2019, com o viral Nego Ney) está calado. Ao retornar para a casa de Carmen (Ju Colombo), mulher que acolhe crianças órfãs e as trata como filhos, ele volta para tudo o que havia deixado para trás. A pobreza e a falta de perspectiva marcam essa casa, mas não a falta de amor.
Leia Mais
Joaquim (Bukassa Kabengele), irmão de Carmen, passa seus dias ao violão, animando as crianças. Narciso quer ter o que não pode, ainda mais às vésperas de seu aniversário. Tentando animá-lo, seu colega de quarto, Alexandre (Faiska Alves), lhe dá uma velha bola de basquete com poderes mágicos. Se o garoto acertar três cestas consecutivas, um gênio vai aparecer e lhe conceder um desejo.
Gênio
Narciso parte para a ação, e o gênio (interpretado por Seu Jorge) realmente aparece. O menino quer uma família rica. Seu pedido é concedido, com uma única ressalva: ele nunca poderá ver, de propósito, sua própria imagem refletida em um espelho.
O longa parte de um dos primeiros curtas de Jeferson De, “Narciso rap” (2004), em que um menino negro pede ao gênio da lâmpada para ser visto como negro pelos negros e branco pelos brancos. “Sempre ouvi as pessoas falando que ele daria um longa”, conta. Quatro anos atrás, sua produtora e roteirista, Cristiane Arenas, voltou ao assunto.
Para desenvolver a história, assinada pela dupla, eles se voltaram para o mito grego, o herói que se apaixona pelo próprio reflexo em um lago e morre por não conseguir possuir sua imagem.
“A maioria das crianças brasileiras está exposta a uma tela em que a beleza e a riqueza estão ligadas ao que é eurocêntrico. Quando falamos de pobreza, falamos de África. Mas, de riqueza, é o Hemisfério Norte; de beleza, é a alva, não a beleza preta. Então, se a gente considera o audiovisual o nosso espelho, ele não nos explica. E tudo o que o Narciso (do filme) vê no entorno dele é feio”, afirma o diretor. Para dar vida ao seu Narciso, Jeferson De utilizou-se de outras referências. O gênio dos desejos, por exemplo, é o orixá Oxóssi.
Lágrimas
Ainda que o filme acompanhe a jornada do personagem-título, a grande figura do longa é Joaquim, defendido de forma comovente pelo músico e ator Bukassa Kabengele. Em uma sequência cheia de silêncios, a câmera acompanha o personagem ouvindo, calado e com lágrimas nos olhos, certas verdades.
“O que quero é discutir as masculinidades negras. Você tem homens negros de várias idades no filme, e o Joaquim permanece em um lugar confortável, que é o da infância. A Carmen é a mulher forte, e acho que nós, homens negros, temos uma dificuldade para olhar para a dureza do nosso lugar, do nosso país, e reagir à altura.”
Rodado no Rio de Janeiro devido à facilidade em reunir o elenco, já que a história não localiza a cidade em si, “Narciso” foi filmado em preto e branco quando mostra o protagonista vivendo seu desejo de ter uma família rica – o “pai” é interpretado por Marcelo Serrado. Já as partes “reais” da narrativa são coloridas.
“Esse mundo entre o branco e o preto, o bem e o mal, o som e o silêncio é um mundo simplificado, pois o Narciso acha que o mundo é assim. Para este menino, que está em processo de autoconhecimento, o mundo é simples. Só que o mundo é muito mais complexo”, diz Jeferson De.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“NARCISO”
(Brasil, 2025, 91min.) Direção: Jeferson De. Com Arthur Ferreira, Bukassa Kabengele, Ju Colombo e Seu Jorge. O filme estreia nesta quinta-feira (19/3), no UNA Cine Belas Artes (Sala 1, 18h10).